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Em março, a Americanas entrou com um pedido na Justiça para encerrar o processo de recuperação judicial. Segundo a companhia, a solicitação foi feita após o cumprimento das obrigações previstas no plano aprovado pelos credores, dentro do prazo legal de até dois anos após a homologação.
Agora, a varejista inicia uma nova etapa voltada à retomada do crescimento, em um movimento que passa pela reorganização da operação logística e integração entre lojas físicas e digital.
Hoje, as 1.448 lojas da varejista já operam dentro da estratégia de Ship from Store e passaram a assumir também um papel logístico. Ao mesmo tempo, a empresa ampliou operações omnichannel, refez estudos de malha, iniciou uma frente de prestação de serviços logísticos e voltou a fortalecer o digital sob uma lógica de rentabilidade.
Segundo o vice-presidente de Supply Chain da Americanas, Marcelo Arantes, a companhia entra em uma terceira fase da reestruturação, marcada pela retomada gradual do crescimento e pela integração entre canais físicos e digitais. “O digital volta a ter uma representatividade muito mais forte, mas obviamente de uma forma responsável”, afirmou em entrevista exclusiva à MundoLogística.
De acordo com o executivo, essa retomada acontece apoiada em três pilares: marketplace, operações O2O — em que o cliente compra online e retira na loja — e a expansão do Ship from Store.
Nesse novo desenho operacional, as lojas deixaram de ser apenas pontos de venda e passaram a funcionar também como hubs logísticos da companhia. A estratégia faz parte do movimento da Americanas para integrar operação física e digital em uma única jornada de consumo.
“Todo mundo fala que é omnicanal, mas não, todo mundo é multicanal, opera os canais de maneira diferente. Nós estamos convergindo os canais”, destacou o VP.
Além da reorganização interna, a companhia também começou a utilizar a estrutura logística como oportunidade de geração de receita. A empresa criou um CNPJ específico para a área logística e iniciou a oferta de serviços para parceiros e fornecedores. “Criamos uma empresa logística e já começamos o trabalho de venda de serviço logístico para os nossos prestadores”, revelou Arantes.
Segundo o executivo, a operação busca aproveitar melhor ativos ociosos, como caminhões que antes retornavam vazios após as entregas.
DA APOSTA NO DIGITAL AO “BACK TO BASICS”
A estrutura atual da operação é resultado de uma transformação iniciada após o pedido de recuperação judicial. Antes da crise, a Americanas operava sob uma estratégia voltada ao e-commerce, buscando competir com plataformas como Mercado Livre, Amazon e Shopee.
Nesse modelo, as lojas físicas funcionavam principalmente como suporte para a rede logística da companhia. “A rede de lojas físicas era muito mais um suporte de capilaridade da nossa rede logística de distribuição”, pontuou Marcelo Arantes.
Para sustentar a operação digital, a empresa estruturou uma malha com grande quantidade de centros de distribuição, automação e sistemas voltados à separação rápida de pedidos, além de investimentos em last mile.
“Era foco para velocidade da entrega do pedido e sortimento alto. Um número grande de CDs, com nível de automatização já diferenciado para fazer toda essa separação de pedidos muito rápido”, disse.
Na avaliação de Arantes, o modelo exigia uma estrutura de alto custo para competir no ambiente digital. Com a recuperação judicial, a companhia decidiu reorganizar a operação e voltar a concentrar esforços no varejo físico.
A decisão foi baseada, de acordo com o executivo, no entendimento de que a relação histórica da marca com o consumidor brasileiro estava diretamente conectada às lojas. “A decisão foi: nós vamos ser neste primeiro momento menos digital e mais mundo físico. O mundo físico é a nossa essência”, ressaltou.
A mudança alterou a lógica da operação logística. A prioridade deixou de ser o atendimento pulverizado ao consumidor final e passou a ser o abastecimento das lojas. Arantes detalhou que isso exigiu uma revisão estrutural da malha logística, incluindo fechamento de centros de distribuição e mudanças na consolidação de cargas.
A revisão operacional permitiu reduzir quase 50% do custo logístico em dois anos e teve impacto direto na recuperação financeira da empresa. “O papel da logística desde 2023 até agora que a gente está saindo da recuperação judicial foi reduzir boa parte do custo logístico através dessa otimização da operação”, disse Arantes.
O FOCO DOS PRÓXIMOS ANOS
Para os próximos anos, a logística seguirá como um dos pilares centrais da estratégia da Americanas. Segundo o VP de Supply Chain, a prioridade será aprofundar a eficiência operacional, reduzir custos e tornar a cadeia de abastecimento mais previsível.
Além da redução de custos, a companhia busca operar uma cadeia mais conectada ao comportamento real do consumidor e menos baseada em decisões de empurrar estoque para as lojas.
“Então, é custo baixo, equilíbrio entre estoque, excesso e ruptura, e obviamente uma cadeia puxada e não empurrada. Esses são os três pontos principais que eu diria que são o nosso foco para os próximos dois a três anos”, complementou o executivo.