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Data: 12/05/2026

Editoria: Shopping Pátio Higienópolis
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Além da Panamericana: Vila no Tatuapé pode ser destombada (menção)

Priscila Mengue
Com a polêmica decisão sobre o “destombamento” da Escola Panamericana adiada e sem nova data oficial , o Conpresp (conselho municipal de patrimônio cultural) deve deliberar nesta segunda-feira (11) se vai revogar outro reconhecimento de um bem histórico da cidade de São Paulo: o da vila João Migliari, no Tatuapé , na zona leste.

O conjunto chamou a atenção em 2019, após ter sido quase totalmente demolido em meio à mobilização de uma parte dos antigos inquilinos e de outros apoiadores.

O tombamento da vila é contestado pelos herdeiros do primeiro proprietário – Bruno Lembi, morto em 2015, aos 97 anos- , por meio da Voga Empreendimentos. A família chegou a contratar um arquiteto em 2019 para evitar o reconhecimento, mas não conseguiu, com decisão final do Conpresp em 2023.

A alegação é que o conjunto ficou descaracterizado após as demolições e não teria valor cultural tão significativo. A empresa foi procurada pela Folha , mas não quis comentar sobre o caso.

O recurso aberto pela Voga chegou a ser debatido em reunião do Conpresp em março de 2025, mas foi retirado de pauta após um dos integrantes pedir vista . Outra conselheira, representante da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento, chegou a apresentar proposta de destombamento da vila, com o argumento baseado na demolição de 55 das 60 casas.

A decisão do Conpresp também avaliará parecer elaborado em novembro de 2024 por técnica do Departamento do Patrimônio Histórico, da prefeitura. O relatório indica a continuidade do tombamento e o fim da “área envoltória”, que restringe construções no entorno imediato a até oito metros de altura. Hoje, um estacionamento funciona no local, enquanto um supermercado foi construído na esquina oposta.

Os cinco sobrados remanescentes da vila seguem esvaziados e com ares de abandono. Antes cafeteria, salão e outros tipos de serviço, foram majoritariamente esvaziados para a demolição de 2019 – exceto a barbearia-bar do inquilino que barrou a derrubada na Justiça, que deixou o espaço em 2020, na pandemia.

A vila foi construída nos anos 1950 pelo empresário Bruno Lembi. Era caracterizada pelos sobrados em cor salmão, geminados de cinco em cinco, com quintal nos fundos e muros baixos.

O tombamento definitivo foi aprovado em 2023, com cinco votos favoráveis, um contrário e duas abstenções. No estudo que embasou a deliberação, é destacado que mantinha grande parte das características originais – diferentemente de outras vilas, alteradas ao longo das décadas conforme são vendidas pelos donos originais.

Autor do pedido de tombamento, o arquiteto e urbanista Lucas Chiconi critica o estado dos sobrados, que estavam em bom estado de conservação até 2019. “É uma estratégia para fazer com que pessoas do bairro enxerguem o tombamento como algo ruim. Mas não foi o tombamento que fez isso: quem fez foi o proprietário”, diz.

Chiconi apoia, contudo, a revogação da área envoltória da vila, como uma alternativa para tentar salvá-la. Ele considera que, mesmo com novos prédios no entorno, as características da construção e a localização em uma esquina movimentada a manteriam em destaque.

“A relação das casas com a rua estaria preservada. Seria bom para todo mundo”, analisa. Como exemplo, o palacete do shopping Higienópolis, no centro, e a Casa das Rosas, na avenida Paulista, são construções tombadas incorporadas a novos empreendimentos.

Sobre a votação no Conpresp, Chiconi considera que eventuais destombamentos da vila e da Escola Panamericana podem dar início a uma onda de decisões semelhantes. “Se isso acontecer, não será apenas com os sobrados. Está virando moda pedir destombamento”, argumenta ele, que é integrante da Comissão de Direito Urbanístico e do Núcleo de Patrimônio do IAB-SP (Instituto de Arquitetos do Brasil).

A Folha procurou a Secretaria Municipal de Cultura, que confirmou a votação sobre a vila nesta segunda e afirmou que a deliberação a respeito da Panamericana não tem data marcada. A pasta não comentou, contudo, as tentativas de destombamentos e críticas ao conselho – formado majoritariamente por representantes da prefeitura, parte deles sem formação em áreas ligadas ao patrimônio cultural.

Já o ex-inquilino da vila e também arquiteto e urbanista Carlos Vaz tem apresentado uma proposta para o espaço a vizinhos. Ele defende a transformação de parte dos sobrados no Centro Bruno Lembi, um observatório do patrimônio cultural da zona leste, inclusive da memória das vilas.

Ele aponta que é necessário voltar a dar uso aos sobrados e restaurá-los. “No momento, se encontram em estado de abandono, que, se permanecer por mais algum tempo, levará ao colapso das estruturas e, por consequência, à inevitável queda”, avalia.

Assim como Chiconi, Vaz também diz não ser contrário à intensa verticalização do Tatuapé. Ressalta, porém, que a vila tem um papel de preservar um pedaço do passado do bairro.