{"id":127423,"date":"2026-04-20T08:55:51","date_gmt":"2026-04-20T11:55:51","guid":{"rendered":"https:\/\/monitoramento.spmj.com.br\/noticias\/?p=127423"},"modified":"2026-04-20T08:55:51","modified_gmt":"2026-04-20T11:55:51","slug":"marcella-muniz-em-monologo-sobre-luto-e-cura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/monitoramento.spmj.com.br\/noticias\/2026\/04\/20\/marcella-muniz-em-monologo-sobre-luto-e-cura\/","title":{"rendered":"Marcella Muniz em mon\u00f3logo sobre luto e cura"},"content":{"rendered":"<p>O teatro , em sua ess\u00eancia, \u00e9 um convite ao encontro, mas o que Marcella Muniz prop\u00f5e nesta transposi\u00e7\u00e3o da obra de Val\u00e9rie Perrin \u00e9 uma reuni\u00e3o de natureza distinta: um mergulho no sil\u00eancio que habita o luto e, surpreendentemente, na luminosidade que dele pode brotar. A montagem brasileira de &#8220;\u00c1gua Fresca Para as Flores&#8221; n\u00e3o se limita a transpor um fen\u00f4meno editorial para o palco; ela estabelece um ritual de cura que humaniza a perda atrav\u00e9s de uma est\u00e9tica de extrema delicadeza.<\/p>\n<p>A premissa, embora ambientada em um cemit\u00e9rio na Borgonha, leste da Fran\u00e7a , subverte o que se espera do f\u00fanebre. Violette Toussaint, a zeladora interpretada por Marcella, transforma o campo santo em um jardim de retic\u00eancias. Ela n\u00e3o cuida apenas de l\u00e1pides; faz a curadoria das saudades alheias enquanto preserva, no rec\u00f4ndito da alma, suas pr\u00f3prias feridas. \u00c9 no gesto cotidiano de oferecer um caf\u00e9 quente ao desconhecido ou de registrar meticulosamente as hist\u00f3rias de quem j\u00e1 partiu que a personagem revela sua resist\u00eancia. Violette nos ensina que a dor n\u00e3o precisa ser um grito; ela pode ser a \u00e1gua mansa que rega as flores todas as manh\u00e3s.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma generosidade rara na atua\u00e7\u00e3o de Marcella Muniz . Em seu primeiro mon\u00f3logo ap\u00f3s d\u00e9cadas de carreira, a atriz habita Violette com uma dignidade s\u00f3bria, fugindo do melodrama \u00f3bvio. Sua atua\u00e7\u00e3o \u00e9 feita de sutilezas: o peso de um olhar, a precis\u00e3o de um sil\u00eancio, a economia dos movimentos. Em vez de expor a dor como espet\u00e1culo, Marcella convida o p\u00fablico a senti-la nos intervalos, permitindo que cada espectador preencha as lacunas da cena com suas pr\u00f3prias viv\u00eancias e mem\u00f3rias.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o de Bruno Costa compreende que certas narrativas exigem o respeito ao tempo interno do amadurecimento. O ritmo do espet\u00e1culo, meditativo e propositalmente moroso, funciona como um contraponto necess\u00e1rio ao ru\u00eddo e \u00e0 pressa do mundo contempor\u00e2neo. A visualidade da pe\u00e7a, onde o dom\u00e9stico e o f\u00fanebre se fundem em uma cenografia simb\u00f3lica, refor\u00e7a essa sensa\u00e7\u00e3o de tempo suspenso.<\/p>\n<p>Ao transitar por temas como o abandono, a viol\u00eancia silenciosa de um casamento t\u00f3xico e a perda irrepar\u00e1vel, a montagem evita o cinismo. O que se v\u00ea em cena \u00e9 o elogio \u00e0 resili\u00eancia e a investiga\u00e7\u00e3o de uma felicidade que, embora obstinada, teima em florescer mesmo nos terrenos mais \u00e1ridos.<\/p>\n<p>Tr\u00eas perguntas para<\/p>\n<p>Marcella Muniz<\/p>\n<p>Violette Toussaint vive cercada pela morte, mas transborda vida e cuidado. Como foi para voc\u00ea, como atriz, encontrar o equil\u00edbrio para que essa luminosidade da personagem n\u00e3o se perdesse diante do cen\u00e1rio f\u00fanebre?<\/p>\n<p>Meu encontro com a Violette foi quase imediato. Quando estava na metade da leitura do livro eu j\u00e1 visualizava aquela hist\u00f3ria, que tem mais de 20 personagens, apenas com ela no palco. O que me fascinou foi justamente o fato de ela passar pelas dores mais pesadas e conseguir me convencer a seguir em frente com a leveza que ela escolheu ter. Porque \u00e9 exatamente sobre isso: s\u00e3o escolhas.<\/p>\n<p>Violette faz a escolha consciente pela delicadeza. Para levar isso ao palco, contei com o Bruno Costa, que fez a adapta\u00e7\u00e3o e a dire\u00e7\u00e3o com maestria, captando exatamente o que eu visualizei: uma mulher que n\u00e3o ignora as dores, mas as acolhe com flores, fazendo dessa atitude uma analogia para a pr\u00f3pria vida. Eu me tornei f\u00e3 da Violette antes de interpret\u00e1-la. Idealizei o espet\u00e1culo porque senti a necessidade de propagar essa mensagem de que \u00e9 poss\u00edvel conduzir nossos lutos e t\u00e9rminos com mais suavidade. A luminosidade dela n\u00e3o se perde no cen\u00e1rio f\u00fanebre porque ela \u00e9 o pr\u00f3prio jardim que cultiva.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a toca em feridas profundas, como a perda de um filho e relacionamentos t\u00f3xicos. De que forma dar vida a essa jornada de liberta\u00e7\u00e3o da Violette ressoa na sua pr\u00f3pria vis\u00e3o sobre a resili\u00eancia feminina?<\/p>\n<p>A jornada da Violette \u00e9 um espelho de muitas realidades que, \u00e0s vezes, preferimos n\u00e3o olhar. Para mim, a resili\u00eancia feminina aqui n\u00e3o \u00e9 sobre &#8216;aguentar tudo&#8217;, mas sobre a capacidade de transmutar. Dar vida a essa liberta\u00e7\u00e3o me faz reafirmar que a nossa for\u00e7a reside na reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Violette vive o luto mais insuport\u00e1vel que existe, a perda de um filho , e sobrevive a um relacionamento t\u00f3xico que a anulava, mas ela n\u00e3o se torna amarga. O que me move nessa hist\u00f3ria, al\u00e9m da resili\u00eancia, s\u00e3o os temas t\u00e3o pertinentes. Falamos da maternidade em suas faces mais cruas, do abandono, e de algo que me toca profundamente: a profiss\u00e3o invis\u00edvel. A Violette \u00e9 uma zeladora de cemit\u00e9rio; ela representa milhares de mulheres que mant\u00eam o mundo funcionando nos bastidores, sem serem vistas, mas com uma dignidade inabal\u00e1vel.<\/p>\n<p>E tem tamb\u00e9m a causa animal, que aparece na pe\u00e7a de forma t\u00e3o org\u00e2nica e afetuosa, mostrando que o cuidado dela se estende a todos os seres. Para mim, interpretar essa jornada \u00e9 entender que a liberta\u00e7\u00e3o feminina acontece quando validamos todas essas nossas camadas: a dor, o trabalho, o luto e, finalmente, o nosso direito \u00e0 alegria.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a exige uma &#8220;disponibilidade afetiva&#8221; de quem assiste, j\u00e1 que o ritmo \u00e9 meditativo e n\u00e3o busca catarses f\u00e1ceis. Como tem sido a troca com o p\u00fablico ao final de cada sess\u00e3o? Voc\u00ea sente que as pessoas saem do teatro diferentes do que entraram?<\/p>\n<p>N\u00e3o tem um dia sequer em que algu\u00e9m n\u00e3o venha me contar algo ap\u00f3s a sess\u00e3o. As pessoas sentem uma necessidade genu\u00edna de compartilhar como a pe\u00e7a as fez enxergar o luto de outra forma, ou como as ajudou a processar uma separa\u00e7\u00e3o dolorosa. Eu j\u00e1 ouvi de tudo; se eu fosse anotar cada relato, precisaria escrever um livro s\u00f3 com esses depoimentos.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente onde eu queria chegar. Ver que toda a minha garra, e tamb\u00e9m a do Bruno Costa na produ\u00e7\u00e3o, est\u00e1 alcan\u00e7ando o cora\u00e7\u00e3o das pessoas \u00e9 a maior recompensa. O objetivo sempre foi plantar um pouco da Violette em cada um que assiste. Sinto, sim, que o p\u00fablico sai diferente, porque o espet\u00e1culo n\u00e3o oferece respostas prontas, ele oferece companhia para a dor. Ningu\u00e9m sai ileso, nem o p\u00fablico, nem eu, que vivo essa hist\u00f3ria todos os dias no palco.<\/p>\n<p><span id=\"CHAVE_5961\" title=\"5961\/10 | 798867\">Teatro UOL<\/span>\u00a0&#8211; avenida Higien\u00f3polis, 618 &#8211; Higien\u00f3polis, regi\u00e3o oeste. S\u00e1bado e domingo, 18h. At\u00e9 26\/4. Dura\u00e7\u00e3o: 75 minutos. Classifica\u00e7\u00e3o indicativa: 14 anos. R$ 160 (inteira) setor A, em https:\/\/teatrouol.com.br\/espetaculos\/agua-fresca-para-as-flores-2\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teatro UOL &#8211; avenida Higien\u00f3polis, 618 &#8211; Higien\u00f3polis, regi\u00e3o oeste. S\u00e1bado e domingo, 18h. At\u00e9 26\/4. Dura\u00e7\u00e3o: 75 minutos. 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