Veículo: Valor Econômico
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Data: 16/08/2024

Editoria: Shopping Pátio Higienópolis
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Visão do mercado sobre economia dos EUA vai de recessão a resiliência

Menos de duas semanas depois de os mercados financeiros globais precificarem uma recessão econômica nos Estados Unidos, dados de atividade e do mercado de trabalho do país divulgados ontem afastaram a possibilidade de uma desaceleração mais brusca da economia americana e provocaram um forte movimento de apetite por risco que beneficiou, principalmente, o mercado acionário em Nova York, cujos principais índices subiram até 2%.

O avanço de 1,0% das vendas do comércio varejista entre junho e julho – bem acima da alta prevista de 0,3% – e a queda inesperada dos pedidos por seguro-desemprego a 227 mil na semana passada foram bem recebidos pelos investidores, ainda que apontem para uma resiliência econômica que pode impedir um início mais agressivo do ciclo de cortes nos juros pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano) na reunião de setembro.

Ao fim do pregão de ontem, com os temores de recessão dissipados, as bolsas de Nova York voltaram a anotar valorização firme: o índice Dow Jones subiu 1,39%, para 40.563 pontos; o S&P 500 teve alta de 1,61%, a 5.543 pontos; e o índice eletrônico Nasdaq avançou expressivos 2,34%, para 17.594 pontos. E foi diante desse tom positivo visto nos mercados acionários que o índice de volatilidade VIX, considerado o “termômetro do medo” em Wall Street, caiu para 15,23 pontos ontem, após ter atingido um pico de 65,73 pontos na semana passada.

O desempenho dos mercados nos últimos dias “sublinhou nossa visão de que os investidores devem evitar reagir exageradamente a surtos de volatilidade, especialmente durante períodos de baixa liquidez no verão [no Hemisfério Norte”, aponta o diretor de investimentos (CIO) do UBS Global Wealth Management, Mark Haefele, em nota enviada a clientes. “Claro, novas oscilações são possíveis”, diz o profissional, ao notar que os mercados têm reagido a dados que não costumam movimentar tanto os ativos.

“Portanto, os mercados provavelmente serão sensíveis a decepções de divulgações futuras mais importantes”, diz Haefele. “Acreditamos que os mercados estarão alertas para sinais de que o crescimento econômico dos EUA está desacelerando muito abruptamente e de que o Fed esperou muito tempo antes de cortar os juros.”

Ao menos por enquanto, porém, os dados bem mais fortes que o esperado têm dado apoio à visão de um início de ciclo de flexibilização monetária mais modesto nos EUA. Não por acaso, a taxa da T-note de dois anos subiu de 3,966% para 4,101% ontem, enquanto o índice DXY, que mede o desempenho do dólar contra moedas fortes, teve alta de 0,47%, a 103,05 pontos.

De acordo com dados do CME Group, a probabilidade de uma redução de 0,5 ponto percentual nos juros americanos em setembro estava em apenas 23,5% no fim da tarde de ontem contra 76,5% de chance de um corte de 0,25 ponto. Além disso, o mercado diminuiu a precificação para o total de reduções nos juros ainda este ano e, agora, atribui probabilidade maior (45,9%) a uma corte acumulado de 0,75 ponto. Antes, a aposta majoritária era de uma redução de 1 ponto até o fim de 2024.

Para a economista-chefe da Principal Claritas, Marcela Rocha, não há sinal claro de recessão nos EUA e o que provocou a grande volatilidade dos mercado nas últimas semanas foi o “payroll” (relatório oficial do mercado de trabalho) fraco de julho. Para ela, o dado não pode ser visto como uma confirmação de forte desaceleração do mercado de trabalho, uma vez que ele sofreu com uma menor abertura de postos de trabalho no Texas após um furacão passar pelo estado.

Assim, Rocha avalia que o cenário não sofreu grandes alterações neste mês e, em sua visão, o ambiente ainda é de desaceleração gradual tanto da inflação quanto da atividade. “Não há nada que reflita risco de ‘pouso forçado’. É uma acomodação depois de semestres de excepcionalismo”, diz. Por isso, a economista acredita que o Fed deve iniciar o seu ciclo de cortes com uma redução de 0,25 ponto e manter esse ritmo nas duas últimas reuniões de 2024, a menos que o mercado de trabalho se deteriore, o que ela não acha provável.

”Mercados provavelmente serão sensíveis a decepções de dados futuros mais importantes”
— Mark Haefele
O sócio e economista sênior da Occam André Duarte tem menos certeza quanto à próxima decisão do Fed e considera a próxima reunião “aberta” tanto para um corte de 0,25 ponto quanto para uma redução 0,5 ponto. Ele concorda, no entanto, que será o “payroll” de agosto que definirá a questão. “Acho que o Fed está olhando muito a taxa de desemprego. Se permanecer em 4,3%, é suficiente para caracterizar uma deterioração” e abrir espaço para um corte maior dos juros, defende.

Quanto à possibilidade de recessão nos EUA, Duarte também se diz cético. Para ele, o Fed tem muito espaço para reagir, com flexibilização monetária, ao menor sinal de deterioração do mercado de trabalho. Assim, é improvável que um cenário de contração da atividade se materialize, mesmo que a economia americana perca força em um ritmo maior à frente.

“A economia americana parece saudável como um todo; apenas é um momento em que essa acomodação no mercado de trabalho gera alguma preocupação, mas autoridades americanas e o Fed, principalmente, têm os instrumentos necessários pra lidar com isso”, diz.

Esse, contudo, não é o cenário base do Citi. O economista-chefe para os EUA do banco americano, Andrew Hollenhorst, mantém a sua previsão de corte de 0,5 ponto percentual tanto em setembro quanto na reunião de novembro do Fed, diante da avaliação de que o mercado de trabalho do país irá enfraquecer mais fortemente nos próximos meses. “Se o ‘payroll’ de agosto não fizer com que julho pareça uma exceção (por exemplo, se a taxa de desemprego não cair pelo menos 0,1 ponto), é provável que haja um corte de 0,5 ponto”, diz Hollenhorst em relatório.

Para Rocha, da Principal Claritas, o cenário americano é benigno, mas o mercado deve manter cortes mais agressivos na mesa pelo menos até que os próximos dados do mercado de trabalho sejam divulgados. Em sua visão, será necessário observar também a resposta do Fed e se os dirigentes estão abertos a um início de ciclo de flexibilização monetária mais forte. O simpósio de Jackson Hole, que acontecerá entre os dias 22 e 24 de agosto, será importante nesse sentido, avalia.

“Será uma oportunidade para o [presidente do Fed, Jerome] Powell sacramentar esse corte [em setembro], mas acho que ele ainda não vai se comprometer com um ritmo ou a frequência dos cortes”, prevê Rocha, ao dizer, ainda que, em relação à inflação, “o pior já ficou para trás”. Ela, contudo, pondera que a convergência à meta ainda parece distante, o que deve manter o Fed cuidadoso. “Não pode cortar [o juro] abaixo do neutro.” (Colaboraram Eduardo Magossi e Igor Sodré)