A Americanas (AMER3) voltou a atrair os holofotes do mercado com a segunda fase da operação da Polícia Federal que investiga a fraude contábil de R$ 54 bilhões. A ofensiva derrubou as ações da varejista em mais de 5% na última semana, mas também chamou a atenção para um retrato mais amplo do setor: Magazine Luiza (MGLU3), Casas Bahia (BHIA3) e Lojas Marisa (AMAR3) têm ações negociadas a preços nominais próximos e, em alguns casos, até inferiores aos da Americanas, protagonista de uma das maiores fraudes corporativas da história do País.
A semelhança também aparece no desempenho das ações na Bolsa de Valores. Dados da Elos Ayta Consultoria, enviado ao E-Investidor, mostra que, assim como a Americanas, o trio acumula quedas superiores a 90% em relação às máximas históricas. Apesar das particularidades de cada empresa, a forte desvalorização tem um pano de fundo em comum: os efeitos do cenário macroeconômico sobre o varejo.
Desempenho das ações do varejo desde suas máximas históricas
| Americanas (AMER3) | −99.96% |
|---|---|
| Casas Bahia (BHIA3) | −99.78% |
| Lojas Marisa (AMAR3) | −99.49% |
| Magazine Luiza (MGLU3) | −98.13% |
| Quero-Quero (LIQQ3) | −93.85% |
| IMC S/A (MEAL3) | −90.46% |
| Petz Cobasi (AUAU3) | −85.44% |
| Grupo SBF (SBFG3) | −77.56% |
| Allied (ALLD3) | −69.28% |
| Lojas Renner (LREN3) | −64.80% |
| Automob (AMOB3) | −51.24% |
| C&A (CEAB3) | −50.63% |
| Vivara (VIVA3) | −40.85% |
| Track & Field (TFCO4) | −18.90% |
| Grazziotin (CGRA4) | −7.47% |
Fonte: Elos Ayta Consultoria/*Dados até o pregão do dia 22 de junho de 2026
Desde fevereiro de 2022, o mercado brasileiro convive com a taxa Selic acima de dois dígitos, que atualmente se encontra em 14,25%. Na prática, juros nesta magnitude tendem a ser prejudiciais para o setor que precisa de crédito para financiar suas operações, além de encarecer o custo das dívidas já contratadas.
Os efeitos também refletem no bolso do consumidor. Com os juros mais altos, o crédito fica mais restrito, sobretudo para as famílias de menor renda, que dependem do parcelamento para adquirir bens duráveis, como geladeiras, celulares e notebooks.
“O endividamento recorde das famílias, somado à inflação de alimentos e serviços essenciais, reduziu o consumo discricionário e pressionou volumes e margens”, afirma Gabriel Uarian, analista da Cultura Capital.
Os sinais da economia brasileira, porém, não indicam que essa realidade deva mudar no curto ou no médio prazo. Apesar do Banco Central (BC) ter dado início ao ciclo de queda de juros no último mês de março, a Selic a 14,25% ao ano ainda está no maior patamar desde abril de 2016 – e não há expectativa de cortes expressivos para os próximos meses.
Segundo o Boletim Focus de ontem (29), o mercado financeiro projeta que a taxa encerre 2026 em 14% devido ao crescimento da dívida pública, que eleva o risco fiscal do País, e aos impactos da guerra no Oriente Médio sobre a inflação brasileira.
“Enquanto essas variáveis (risco fiscal e queda da inflação) não convergem de forma mais consistente, acredito que o ambiente permanece restritivo para o crédito ao consumidor e para o varejo dependente de parcelamento e financiamento”, destaca Cristiano Henrique Luersen, especialista em investimentos e sócio da Wiser Investimentos.

Foto: São Luis Shopping
Mercado revisa o modelo de negócio
Além do contexto macroeconômico, houve uma reprecificação dos modelos de negócio dessas empresas. Com o fechamento do comércio durante a pandemia, o e-commerce ganhou força e as plataformas das varejistas passaram a ganhar notoriedade na Bolsa de Valores.
Essa reprecificação impulsionou, à época, as ações de Americanas (AMER3), Casas Bahia (BHIA3) e Magazine Luiza (MGLU3) às suas máximas históricas. A Magalu, por exemplo, ganhou o título de “Amazon brasileira” após acumular valorização de 4.000% na Bolsa entre dezembro de 2015 e janeiro de 2021.
As empresas foram superavaliadas. Então, foram negociadas com múltiplos elevados. Algumas chegaram a ser classificadas como empresas de tecnologia.
Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital
No entanto, o cenário mudou. Além da alta de juros, as companhias enfrentaram o aumento da concorrência, o que ajudou a comprimir ainda mais as margens de lucro. Nos últimos anos, plataformas estrangeiras de e-commerce, como Shopee, AliExpress e Shein, ampliaram sua presença no mercado brasileiro ao oferecer produtos a preços mais acessíveis aos praticados pelos players nacionais.
“A maioria das empresas brasileiras não tinha uma estrutura digital tão boa quanto a das plataformas asiáticas ou a do Mercado Livre (MELI34). Isso elevou bastante a concorrência”, avalia Caroline Sanchez, analista da Levante Inside Corp.
Onde o varejo sofreu menos
Beto Sicupira e filho de Jorge Lemann são alvo da PF em ação sobre fraude de R$ 54 bi da Americanas
Segunda fase da Operação Disclosure cumpre mandados de busca e apreensão contra acionistas da 3G Capital e executivos do Itaú, Bradesco e Santander. Crédito: Estadão
Apesar do aumento da concorrência e da deterioração do cenário macroeconômico, algumas varejistas conseguiram atravessar o período com perdas menos expressivas. São os casos da Grazziotin (CGRA4), da Track&Field (TFCO4) e da Vivara (VIVA3), cujas ações recuaram 7,47%, 18,9% e 40,8%, respectivamente, em relação aos seus picos.
Segundo Marcelo Ornelas, sócio da OWN Partners, o desempenho relativamente melhor está ligado ao ambiente competitivo em que atuam. “Há grupos do varejo que estão em um grau de competição no nível máximo. Por isso, as ações caíram praticamente a zero e não há ciclo de corte de juros que ajude. Outro grupo está num grau menor de competição”, afirma.
O segmento de atuação e o perfil do público também ajudam a explicar a maior resiliência dessas companhias. No caso da Vivara, Luersen destaca que joias e acessórios são produtos de maior valor agregado, nos quais a sensibilidade ao preço é menor e a fidelidade à marca tende a ser mais duradoura. “O cliente não é aquele que entrou em crise de crédito quando os juros subiram”, ressalta.
A lógica é semelhante na Track & Field, voltada ao segmento de moda esportiva premium. Segundo o especialista, seus produtos estão associados a um estilo de vida em que o preço pesa menos na decisão de compra.
O combo que levou o mercado a colocar o pé no freio no otimismo com Brasil
“Grazziotin, menos conhecida do grande público, opera com modelo mais conservador e regionalizado, com alavancagem financeira historicamente baixa e gestão avessa a crescimento acelerado financiado por dívida”, explica o sócio da Wiser Investimentos.
O varejo ainda é uma oportunidade na Bolsa?
As perspectivas para o cenário macroeconômico ainda são desafiadoras para o setor. Mesmo assim, algumas instituições financeiras identificam oportunidades de investimento. O Itaú BBA, por exemplo, mantém recomendação de compra para as ações da Lojas Renner (LREN3), apesar da depreciação na ordem de 60% desde a sua máxima história.
Segundo o banco, a combinação entre desempenho operacional resiliente, melhora de margens e maior retorno de caixa aos acionistas torna o papel atrativo no atual nível de valuation (valor do negócio). “A Renner hoje parece muito mais uma tese de valor e geração de caixa do que uma história de crescimento”, afirmaram, em relatório.
O BBA também possui uma visão positiva para as ações da C&A e reforça o papel como a sua principal escolha no varejo brasileiro, ao classificá-lo como “irracionalmente barato”. Para os analistas, a varejista está entre as poucas ações do setor capaz de gerar retorno mesmo em um ambiente mais adverso. Com esse pano de fundo, o BBA tem preço-alvo para o papel de R$ 20, o que representa uma recuperação 81% em comparação ao último pregão.
Já a XP Investimentos possui recomendação de compra para as ações da Vivara por enxergar resiliência no modelo de negócios da companhia, mesmo diante de uma “tempestade perfeita” marcada pela pressão sobre os custos, aumento da concorrência e perda de poder de compra dos consumidores. A corretora também vê potencial de valorização de 48,24% para o papel, ao estabelecer um preço-alvo de R$ 35.