Peso das despesas operacionais deverá seguir forte neste ano, segundo os especialistas
O setor de bens de consumo e varejo tem sofrido com o peso dos juros em seus resultados, situação que deverá persistir em 2026, segundo especialistas. No ano passado, os juros elevados consumiram 45% do Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) do setor. Trata-se de um aumento significativo em relação aos anos anteriores: em 2023, as despesas financeiras correspondiam a 20% do resultado operacional das companhias, e, em 2024, a taxa era de 33,3%. Os dados, que consideram as 40 maiores companhias do setor, são de levantamento da A&M (Alvarez & Marsal), obtido em primeira mão pelo Valor.
Em 2025, as despesas financeiras somaram R$ 23,3 bilhões, alta de 50% em relação ao ano anterior, apontou a pesquisa.
Para este ano, o cenário não deverá melhorar de forma significativa, na avaliação de Guilherme Kam, sócio-diretor da A&M Performance. “Pode haver uma melhora sutil, caso a taxa de juros caia um pouco. Mas não vejo muito caminho para avanço”, disse.
O economista pondera que a situação fiscal do país reduz as expectativas de queda efetiva dos juros. Para ele, mesmo medidas do governo que possam incentivar o consumo deverão ter impacto limitado. “O varejo atua com margens muito apertadas. Para reduzir a alavancagem, dependendo só de volume, teria que disparar muito a venda.”
Para a Fitch Ratings, o cenário de 2026 se mostra mais severo que no ano anterior. “Este ano, a Fitch já rebaixou mais empresas do que em todo 2025”, disse Renato Donatti, diretor de varejo e consumo da agência.
A Fitch também observa um alto peso das despesas financeiras sobre as companhias. “Em média, as empresas têm alavancagem líquida perto de 2,8 vezes [da dívida líquida pelo Ebitda] e, nessa faixa, cerca de 40% da geração de caixa vai para pagar juros”, disse.
Como alívio ao setor, os recentes cortes de juros já têm chegado aos grupos de varejo, embora de forma tímida, destacou Fábio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC).
“No capital de giro, que é a linha mais popular do comércio, a taxa média de juros está em 23,23%, ainda alta para padrões históricos, mas há uma reação. Há seis meses, era de 25%. Há um sinal discreto do efeito da flexibilização da política monetária na ponta. É um alento em um ano com surpresas negativas, como os choques externos.”
Para reduzir a alavancagem, dependendo só de volume, teria que disparar a venda”
Porém, ele destacou que, diante do cenário de turbulências globais e de eleições locais, não deverá haver avanço significativo pelo menos ao longo do próximo ano.
A crise do setor de consumo e varejo já tem ficado evidente diante de episódios de recuperação judicial, extrajudicial e reestruturações de empresas da área.
O caso mais recente, em maio, foi o pedido de recuperação judicial do grupo Toky, fruto da união entre Mobly e Tok&Stok, para renegociar dívidas da ordem de R$ 1,1 bilhão. Antes disso, o grupo já havia feito uma repactuação com seus credores em 2024, por meio de um plano de recuperação extrajudicial, mas não conseguiu se reerguer. No primeiro trime
Em março, o GPA (Grupo Pão de Açúcar) entrou em recuperação extrajudicial para discutir cerca de R$ 4,5 bilhões com credores. A companhia recentemente conseguiu um acordo com a maior parte deles, no qual conseguiu corte de 54% do valor dos passivos.
A Fitch destacou o caso do GPA como um exemplo em que a alavancagem bruta chegou a patamares de 4 vezes, fazendo com que o pagamento de juros consumisse entre 70% e 80% do resultado. “Operacionalmente, não vemos problema estrutural nas vendas, mas o tamanho da dívida e o quanto a empresa paga de juros torna-se incompatível com o que se gera de caixa. A empresa está praticamente operando só para pagar juros.”
No caso da Casas Bahia, que em 2024 recorreu a uma recuperação extrajudicial, as despesas financeiras somaram R$ 1,06 bilhão no primeiro trimestre, o que supera o Ebitda do período, de R$ 509 milhões.
Mesmo empresas que não tiveram que recorrer a reestruturações formais têm sofrido pressão e buscado formas de melhorar sua eficiência e estrutura de capital. Em uma análise da relação entre gastos financeiros e Ebitda de companhias do setor, grupos como Camil, Marisa, Mundial e Magazine Luiza também estão entre aquelas em que o pagamento de juros c
A Lojas Marisa registrou gastos financeiros maiores do que o Ebitda no primeiro trimestre: as despesas financeiras somaram R$ 114,6 milhões, contra Ebitda de R$ 28,6 milhões no período. O grupo reportou prejuízo líquido de R$ 95,8 milhões, revertendo o lucro de R$ 2,3 milhões do primeiro trimestre de 2025
No Magazine Luiza, a relação entre os indicadores se mostrou melhor, mas desafiadora. O Ebitda do primeiro trimestre somou R$ 685,4 milhões, enquanto as despesas financeiras ficaram em R$ 682,1 milhões no mesmo período, alta de 18,9% na comparação anual, impulsionada pela Selic mais alta.
Ao Valor, o diretor financeiro do Magazine Luiza, Roberto Bellissimo, afirmou que a empresa tem ajustado seu plano de negócios para priorizar a rentabilidade em detrimento do volume de vendas no comércio eletrônico.
Segundo o executivo, a estratégia tem sido ampliar as margens para compensar o aumento das despesas financeiras. “Faz praticamente três anos que a gente vem focando em rentabilidade. Crescemos menos em vendas, mas ampliamos a margem bruta e margem Ebitda para compensar uma despesa financeira maior”, disse.
As vendas nas lojas físicas cresceram 7%, enquanto o e-commerce total do Magalu caiu 11% no trimestre. O executivo defende que a queda no on-line foi escolha consciente para evitar a “guerra de preços” em categorias de tíquetes baixos, que hoje possuem margens negativas no mercado. “No on-line, o mercado está mais irracional.”
Além disso, para reduzir os custos financeiros, a varejista tem ampliado o uso do Pix, que dispensa despesas com antecipação de recebíveis, e investido em sua própria financeira para ofertar crédito direto ao consumidor (CDC).
Na área de bens de consumo, o cenário se repete. A empresa de alimentos Camil apresentou resultado financeiro líquido de R$ 592 milhões no ano passado, contra Ebitda de R$ 915 milhões. A Mundial, cujas marcas vão de esmaltes a itens de cozinha, registrou despesas financeiras com empréstimos de R$ 34 milhões no primeiro trimestre, valor superior ao
Para Kam, da A&M, um dos impactos mais preocupantes desse cenário é a redução dos investimentos. Segundo a pesquisa da consultoria, em 2025, o volume agregado de investimentos do setor representou 26,8% do valor total do Ebitda – redução na comparação com os 28,4% registrados no ano anterior e valor bastante abaixo dos 45% consumidos pelos juros.
Mesmo grupos mais preparados para enfrentar a crise, com estruturas de capital mais eficientes, têm tido mais cautela nos investimentos, disse Kam. “Quem se preparou melhor lá atrás, às vezes até tem o dinheiro no caixa, mas tem muito receio de investir em expansão também, porque o custo do capital está mais caro”, afirmou.
Essa visão é corroborada pela Fitch Ratings, que observa as companhias reduzindo investimentos e vendendo ativos não estratégicos para sobreviver. “Vemos mais as companhias tentando ajustar a estrutura de custo, melhorar capital de giro e reduzir investimento para não precisar repassar preço ao consumidor, que está com o bolso muito sensível”, diss
Procurados, Toky, GPA, Camil, Marisa e Casas Bahia não se manifestaram. A Mundial disse, em nota, “que o aumento das despesas financeiras em 2025 reflete, principalmente, o cenário de juros elevados no país” e que “mesmo nesse contexto – em que a taxa Selic representou mais do que o dobro do IPCA nos últimos quatro anos -, a companhia manteve cresc
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