Especialistas consideram que há interferência na eleição deste ano, mas que decisão não foi deliberada
A classificação como grupos terroristas de facções criminosas brasileiras abre um capítulo perigoso na relação bilateral com o Brasil, representa interferência nas eleições presidenciais deste ano e pode afetar empresas brasileiras que sejam apontadas como ponte para os negócios do PCC e do CV, dizem especialistas em relações internacionais e segurança.
Para o mestre em relações internacionais Feliciano de Sá Guimarães, do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), o efeito prático da medida é que a partir de agora os EUA poderão impor sanções financeiras a empresas brasileiras e estrangeiras que sejam acusadas de manter algum tipo de relação com os dois grupos criminosos que dominam territórios no Brasil. Ações militares ou operações policiais americanas dentro do Brasil são improváveis.
Como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já se manifestou várias vezes contrário a essa iniciativa por parte dos EUA, o tema coloca as relações entre os dois países em um novo momento, diz. “Estão abrindo um capitulo perigoso da relação bilateral”, comenta Guimarães. “Coloca o presidente Lula em uma posição delicada porque haverá apoio de uma parcela importante da população”, acrescenta.
Para ele, é improvável que a família Bolsonaro tenha tido influência direta na decisão, mas é provável que o grupo representado pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro e pelo senador Flávio Bolsonaro, adversário de Lula na corrida presidencial, tenha recebido a informação de que isso estava prestes a ocorrer e aproveitou o momento para organizar a visita do senador ao presidente americano, Donald Trump, nesta semana. Para Guimarães, o governo brasileiro estava preparado para a iminência deste anúncio dos EUA, mas o Itamaraty tem poucos meios para rebater.
Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais na Fundação Getulio Vargas (FGV) em São Paulo, professor sênior no Carnegie Endowment em Washington e pesquisador visitante na Harvard Kennedy School, considera que a decisão americana tem um “impacto relevante” sobre a forma como o Brasil é visto em Washington.
“Toda a conversa sobre contraterrorismo em Washington é uma conversa que tem uma série de implicações porque permite que o governo americano lance mão de dispositivos judiciais, financeiros e militares diferentes do que no combate ao crime transnacional comum. Tem muito mais recursos disponíveis, envolvimento do Pentágono e da CIA, que não costumam se envolver de forma tão direta sem essa designação.”
Segundo ele, a decisão traz uma série de desafios para bancos brasileiros. “Inclusive pode atrapalhar o Brasil como destino de investimentos por parte de outros países porque os investimentos no Brasil podem ser questionados por possíveis laços com o PCC.”
Para o professor Leandro Piquet Carneiro, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional e professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, o efeito prático da decisão dos EUA é “mudar o ramal” da Justiça americana a quem os envolvidos com esses grupos criminosos terão que responder, inclusive com risco de sanções mais duras. Do ponto de vista brasileiro, há poucos efeitos concretos, diz, embora a decisão abra um canal para troca de dados que pode efetivamente ajudar o processo de investigação no Brasil. “Tem algum risco para as empresas, que vão ter que aumentar o compliance, o monitoramento dos clientes, mas não necessariamente é um desastre.”