Por anos, a disputa no e-commerce brasileiro foi travada em galpões, frotas e subsídios de frete. Quem entregava mais rápido, mais barato e em mais lugares saía na frente. Agora, a competição entrou em outra fase, e ela passa pelo sistema financeiro.

Um levantamento do BTG Pactual sobre os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) registrados pela Shopee na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostra que a plataforma asiática acumulou uma carteira de aproximadamente R$ 5,8 bilhões em crédito no Brasil e avança rapidamente nesse mercado.

O instrumento é relevante porque revela uma transformação estrutural. Um FIDC é um fundo que compra recebíveis originados em transações comerciais, como parcelas de compras ou crédito concedido a vendedores. Na prática, ao estruturar esse tipo de operação, a plataforma passa a financiar usuários dentro do próprio ecossistema e a captar recursos para expandir essa carteira, abrindo uma nova fonte de receita e fortalecendo o vínculo dos usuários com o marketplace.

Foi exatamente este caminho que o Mercado Livre percorreu ao transformar o Mercado Pago em um dos negócios mais rentáveis do grupo. A fintech nasceu em 2004 como ferramenta de pagamento do marketplace e só passou a oferecer crédito em 2017. Hoje, responde por mais de um terço da receita da companhia no Brasil.

A Shopee parece seguir a mesma estratégia. O principal veículo por trás dessa expansão é o MONEE FIDC I. O fundo existe desde 2022, mas o crescimento ganhou velocidade a partir de 2025. A carteira saiu de R$ 1,47 bilhão em janeiro do ano passado para R$ 5,82 bilhões atualmente — alta de R$ 4,01 bilhões em pouco mais de 12 meses, ou 222% na comparação anual.

No segundo semestre de 2025, a empresa criou uma segunda estrutura, o MONEE FIDC II. A coexistência dos dois fundos sugere uma busca por maior flexibilidade de captação e preparação para sustentar um ritmo de expansão mais elevado.

O volume consolidado já equivale a cerca de 75% da operação comparável do Mercado Livre no Brasil, estimada em R$ 7,7 bilhões. Vale a ressalva: a análise via FIDCs cobre apenas parte da estrutura de crédito do Mercado Livre, que diversificou suas fontes de funding ao longo dos anos. Ainda assim, a proximidade dos números mostra a velocidade com que a Shopee ampliou sua presença financeira no país.

 

Uma disputa que foi além da logística

O avanço no crédito ilustra como a competição no e-commerce brasileiro mudou de natureza. Durante anos, a disputa se concentrou em logística, subsídios de frete, precificação e crescimento do volume bruto de mercadorias (GMV), pressionando a rentabilidade do setor inteiro, inclusive a do Mercado Livre. O crédito altera essa dinâmica: para vendedores, reduz a dependência bancária e aumenta a integração à plataforma; para consumidores, amplia o poder de compra e favorece a recorrência.

O crescimento rápido, porém, traz uma ressalva importante. Segundo analistas do BTG, a qualidade da carteira ainda é difícil de avaliar porque os dois FIDCs são relativamente recentes, já que um ganhou escala apenas em 2025 e o outro foi criado no segundo semestre do mesmo ano. Em operações que crescem nesse ritmo, contratos novos ainda não tiveram tempo suficiente para migrar para faixas mais longas de atraso, o que faz os índices de inadimplência parecerem mais baixos do que podem se mostrar no futuro.

A comparação com o Mercado Livre reforça esse ponto. Os FIDCs da companhia são mais maduros e registraram, em abril, inadimplência de curto prazo, entre um e 90 dias, de 9,7% e acima de 90 dias em 11,6%. A Shopee ainda não tem histórico suficiente para uma leitura equivalente.

O que o mercado acompanhará nos próximos trimestres é a maturação dessa carteira, a evolução da inadimplência e o nível de provisões necessário para sustentar a expansão. Se os índices se comportarem dentro do esperado, a Shopee consolida um ecossistema integrado de comércio e crédito no Brasil. Caso contrário, o ritmo elevado de crescimento pode se transformar em pressão sobre resultados.