Mesmo com revisão para baixo nas estimativas de lucro e no preço-alvo do Mercado Livre, o Banco Safra vê espaço de valorização de 40% em 12 meses
15/04/2026 4 minutos

Relatório do Safra aponta que o Mercado Livre combina crescimento projetado de receita e rentabilidade elevada, apesar de pressão de curto prazo sobre margens no Brasil e maiores despesas no braço financeiro | Foto: Getty Images
O Banco Safra reiterou a recomendação de compra para as ações do Mercado Livre (MELI) em atualização de cobertura publicada em 6 de abril de 2026, ainda que tenha reduzido o preço-alvo em 12 meses de US$ 2.800 para US$ 2.400 por ação.
Na avaliação do Safra, a deterioração de curto prazo da lucratividade, especialmente para sustentar a expansão operacional e comercial, já está suficientemente refletida no preço do ativo.
Com cotação de US$ 1.710,4 na data de referência do relatório, o novo preço-alvo embute potencial de valorização de 40%. O banco segue posicionando o papel entre suas preferências para 2026, amparado por uma combinação de crescimento anual composto de 25% entre 2025 e 2028 e ROIC médio de 25% no mesmo intervalo.
Revisão incorpora pressão maior sobre margens e piora marginal do cenário no Brasil
A atualização das projeções reflete dois vetores principais: os resultados do quarto trimestre de 2025 e uma leitura mais cautelosa para a rentabilidade de curto prazo, além de premissas macroeconômicas levemente mais desafiadoras no Brasil.
Segundo o Safra, a projeção para a Selic média em 2026 ficou 100 pontos-base acima da estimativa anterior, enquanto os cenários para México e Argentina permaneceram praticamente inalterados.
O banco elevou em 5% suas projeções de volume bruto de mercadorias (VBM) entre 2026 e 2028, sustentado por perspectivas melhores de crescimento em todas as geografias.
Houve também ajustes modestos em Mercado Pago, com melhora marginal nas estimativas da carteira de crédito e redução da inadimplência acima de 90 dias, atribuídas ao aprimoramento dos modelos de concessão.
Por outro lado, o avanço mais forte de volume não se traduziu integralmente em melhora operacional. O Safra revisou para baixo a premissa de take rate no Brasil, o que limitou o crescimento esperado da receita líquida de comércio eletrônico para algo entre 2% e 3% acima das estimativas anteriores nos próximos três anos.
Em fintech, as receitas foram elevadas em 6% no mesmo horizonte. No consolidado, a receita líquida projetada avançou 4% frente ao cenário anterior.
Lucro cai nas projeções com frete grátis e despesas maiores
A principal inflexão da revisão está nas margens. O Safra reduziu as estimativas de margem bruta para os próximos três anos em 170 pontos-base em 2026, 206 pontos-base em 2027 e 249 pontos-base em 2028, citando impacto mais negativo do que o esperado da nova política de frete grátis no Brasil.
Pressão operacional também vem do Mercado Pago e da Argentina
A casa também adotou postura mais conservadora para despesas. O racional inclui uma oferta de crédito mais ampla na Argentina, que tende a pressionar provisões, e maiores gastos comerciais em Mercado Pago, como cupons e iniciativas de aquisição e retenção. Como consequência, as projeções de margem EBIT foram reduzidas em 210 pontos-base para 2026, 287 pontos-base para 2027 e 340 pontos-base para 2028.
Esse movimento levou a cortes relevantes nas estimativas de lucro líquido: -15% em 2026, -18% em 2027 e -20% em 2028 na comparação com o cenário anterior. Para 2026, o Safra agora projeta receita líquida de US$ 39,5 bilhões, EBIT de US$ 3,666 bilhões e lucro líquido de US$ 2,331 bilhões.
Valuation segue atrativo na visão do Safra
Apesar do corte no preço-alvo, o banco argumenta que o valuation continua favorável. O novo valor justo de US$ 2.400 por ação foi calculado com base em fluxo de caixa descontado, usando taxa de crescimento de 5,5%, custo de capital próprio de 13,6% e WACC de 9,2%.
Ao preço-alvo, MELI negociaria a um P/L implícito de 38 vezes, praticamente em linha com o nível atual e abaixo da média histórica de 49 vezes. Para o Safra, esse desconto relativo não elimina o prêmio estrutural do papel, justificado pelo retorno sobre capital investido mais alto entre as empresas sob cobertura do banco no varejo.
Crescimento e retorno sustentam prêmio sobre pares
Na comparação setorial, o Mercado Livre aparece com os múltiplos mais altos entre os nomes de comércio eletrônico e consumo discricionário acompanhados pelo Safra, mas também com métricas operacionais superiores. A projeção é de crescimento anual composto de 26% para receita líquida, 28% para EBITDA e 28% para lucro líquido entre 2025 e 2028, além de ROIC de 22% em 2026, 25% em 2027 e 27% em 2028.
Essa combinação ajuda a explicar por que, mesmo com a compressão de margens no curto prazo, o banco continua vendo o ativo como um caso diferenciado de crescimento com rentabilidade.
Safra vê espaço para cortes no consenso de mercado
Outro ponto central da tese é a divergência entre as estimativas da casa e o consenso. Para 2026 e 2027, o Safra está 4% acima do consenso em receita líquida, mas 10% abaixo em EBIT e 17% abaixo em lucro líquido. Na leitura dos analistas, isso sugere que o mercado ainda pode revisar para baixo suas projeções de rentabilidade nos próximos meses.
Se esse ajuste ocorrer, a ação pode enfrentar volatilidade adicional no curto prazo. Ainda assim, o banco entende que esse risco já está amplamente refletido nos preços atuais, o que reforça a manutenção da recomendação positiva.
Prévia do 1T26 indica compressão de margens mesmo com crescimento forte de receita
Na prévia para o primeiro trimestre de 2026, o Safra estima receita líquida de US$ 8,545 bilhões, alta de 44% sobre um ano antes, com expansão de 34,8% em comércio eletrônico e de 55,5% em fintech. O crescimento, porém, deve vir acompanhado de nova deterioração de margens.
A projeção aponta margem bruta de 43,2%, queda de 346 pontos-base na base anual, e margem EBIT de 8,5%, recuo de 440 pontos-base. O lucro líquido estimado é de US$ 467 milhões, baixa de 5,5% na comparação anual, enquanto a margem líquida deve cair 286 pontos-base, para 5,5%.
Principais riscos para a tese de investimento
O relatório destaca cinco riscos principais para a história de investimento em Mercado Livre:
- Cenário macroeconômico, com possível deterioração do crescimento, das condições financeiras e do câmbio na América Latina;
- Execução, especialmente na entrega de ganhos sustentáveis de margem;
- Competição, diante de rivais locais e internacionais mais agressivos em preço e promoção;
- Exposição à Argentina, por conta de inflação, incerteza regulatória e volatilidade cambial;
- Mudanças na jornada de trabalho, com potencial impacto sobre produtividade, custos e retenção de talentos.
Leitura final
A atualização do Safra para o Mercado Livre tem um eixo claro: a tese estrutural positiva foi preservada, mas o caminho até ela ficou mais custoso no curto prazo.
O banco reconhece que o crescimento segue robusto em comércio eletrônico e fintech, mas agora incorpora com mais intensidade os efeitos de frete grátis, maior pressão promocional, avanço do crédito e um ambiente macro menos benigno no Brasil.
Ainda assim, a manutenção da recomendação de compra sugere que, para o Safra, a revisão negativa de lucros não altera o fundamento central da companhia: uma plataforma com escala regional, retorno elevado sobre capital e capacidade de crescer acima dos pares mesmo em ambiente operacional mais apertado.