Veículo: InfoMoney
Clique aqui para ler a notícia na fonte
Região:
Estado:
Alcance:

Data: 02/04/2026

Editoria: Shopping Pátio Higienópolis
Assuntos:

Varejistas mais preparadas? Como mercado vê possível mudança da “taxa das blusinhas”

Analistas veem possível fim na taxa como negativa para empresas brasileiras listadas, mas veem motivos para companhias estarem mais preparadas hoje

No início da semana, uma notícia abalou as ações de varejistas:o possível fim da “taxa das blusinhas”, levando ações de empresas como Lojas Renner (LREN3) e C&A (CEAB3) a caírem mais de 4% na segunda-feira (30).

A possível iniciativa surge no contexto das preocupações do governo com o aumento do custo de vida, enquanto pesquisas internas sugerem que a introdução desse imposto foi um ponto crítico relevante para sua popularidade.

Apesar da visão a princípio negativa para as empresas de varejo, além de suscitar reações de associações do setor, analistas de mercado e as próprias companhias destacaram fatores para não temerem tanto mudanças na taxação.

Logo após a notícia, o JPMorgan ressaltou que a remoção do imposto de importação seria negativa para os varejistas de vestuário que o banco acompanha (LREN3CEAB3 e RIAA3), pois isso contribuiria para aumentar novamente a diferença de preços entre os varejistas estrangeiras e os locais, prejudicando a receita bruta.

Ainda assim, observou que o governo federal atualmente cobra cerca de 20% de imposto, enquanto os estados cobram cerca de 20% de ICMS. Como resultado, acredita que uma possível remoção afetaria aproximadamente metade da tributação efetiva (a parcela federal), enquanto o imposto estadual deveria permanecer em vigor, aponta.

O JPMorgan reforça que, mesmo que o projeto seja aprovado (não há confirmação neste momento), o setor não deve retornar a um cenário de tributação praticamente zero, como era no passado, quando a regulamentação era frouxa e a auditoria de importações era mínima. De qualquer forma, esse fluxo de notícias deve continuar a gerar ruído no setor.

Também na avaliação do BTG Pactual, qualquer revisão dos impostos de importação deve ser negativa para os varejistas locais, trazendo pressão sobre os preços, embora não na mesma medida que no passado.

Os analistas do banco lembram que o setor de vestuário entrou em uma fase competitiva decisiva, marcada pela penetração acelerada de plataformas estrangeiras. Esses players se beneficiaram inicialmente de assimetrias tarifárias, possibilitando modelos de negócios altamente subsidiados e domínio nas categorias de baixo valor médio de cesta (AOV). No entanto, a mudança de política de 2024, que introduziu um imposto de importação de 20% + ICMS sobre remessas de até US$ 50, provocou uma queda acentuada nos volumes de encomendas internacionais nos primeiros meses de implementação, reduzindo, mas não eliminando, sua vantagem competitiva.

Após a introdução da “taxa das blusinhas”, os volumes de encomendas caíram drasticamente — uma queda inicial de cerca de 11%, passando de aproximadamente 18 milhões de encomendas/mês antes da taxa para cerca de 11 milhões em dezembro de 2024. Dito isso, nos últimos meses, os volumes de importação já estavam próximos dos níveis anteriores à taxa (15- 17 milhões de encomendas/mês).

“Apesar do recente aumento nos volumes, os varejistas locais de vestuário continuam a ganhar participação de mercado, apoiados por uma melhor execução e investimentos na variedade de produtos e preços, aumentando a eficácia das vendas”, avalia.

Mesmo com os desafios que os players estrangeiros enfrentaram no Brasil nas últimas décadas (incluindo a introdução de impostos de importação), o BTG ainda vê a maioria dos players expostos a consumidores de média/baixa renda lutando contra uma concorrência mais acirrada das plataformas internacionais e um poder de precificação limitado, sendo que essa dinâmica também afeta players como Renner, C&A e Guararapes.

“De acordo com nossa pesquisa proprietária, comparando uma cesta de 8 produtos entre varejistas locais (Renner, C&A, Riachuelo) e a Shein, a plataforma chinesa é 6% mais barata que a Riachuelo, 10% mais barata que a Renner e 13% mais barata que a C&A. Em comparação com nossas pesquisas de 2024/2025, a diferença de preço entre a Shein e os players locais diminuiu”, aponta.

Para o banco, a revisão dos impostos de importação deve levar em conta três pontos. Primeiro, a magnitude da pressão sobre os preços dependerá se a revogação do imposto for parcial ou total e, no pior cenário, se ela também incluiria o ICMS cobrado sobre esses produtos (muito menos provável). Segundo, os players locais tornaram-se mais competitivos e ágeis diante da concorrência, com investimentos significativos voltados para melhorar a assertividade dos produtos. Terceiro, o posicionamento das plataformas também não permaneceu estático, refletindo um número maior de vendedores nacionais e investimentos em infraestrutura logística local.

“Durante os anos de maior pressão competitiva (2023-2024), o crescimento da receita entre as empresas listadas ficou abaixo/próximo de 5%, mas consideramos que os players locais estão agora mais bem preparados para enfrentar uma concorrência mais acirrada em um cenário pessimista”, avalia.

Os analistas reforçam que há desafios no varejo: as altas taxas de juros continuam a corroer a renda disponível, enquanto a alavancagem das famílias, ainda elevada, restringe o poder de compra. Esse cenário é agravado pela inflação acumulada nos últimos anos, que elevou estruturalmente os níveis de preços e reduziu a acessibilidade real. Enquanto isso, a concorrência do e-commerce e de players internacionais continua a limitar a alavancagem operacional das empresas estabelecidas no setor.