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Data: 21/01/2026

Editoria: Americanas, L-Founders
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Fraude na Americanas foi arquitetada e liderada por ex-CEO, diz CVM

Segundo a CVM, os envolvidos teriam atuado sem o conhecimento do Conselho de Administração ou dos comitês da Americanas

21/01/2026 10:42, atualizado 21/01/2026 11:21

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Matheus Veloso/Metrópoles
Fachada da Lojas Americanas do Setor Comercial Sul em Brasília

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A fraude contábil bilionária na Americanas, considerada o maior escândalo da história do varejo brasileiro e que completa três anos neste mês de janeiro, foi arquitetada e liderada por Miguel Gutierrez, ex-CEO da companhia, segundo a conclusão da Superintendência de Processos Sancionadores da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Dos mais de 40 investigados pelas autoridades policiais por suposto envolvimento no esquema, 31 agora também foram apontados pela CVM como envolvidos nas irregularidades. Entre eles, estão diretores, gestores e colaboradores de diferentes áreas da Americanas.

Segundo a CVM, os envolvidos teriam atuado sem o conhecimento do Conselho de Administração ou dos comitês da empresa. A informação foi publicada inicialmente pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo.

As conclusões da CVM corroboram as investigações sobre o caso conduzidas pelo Ministério Público Federal (MPF). Em outubro do ano passado, o ex-diretor da Americanas Márcio Cruz Meirelles, que fechou acordo de delação premiada com o MPF, afirmou em seu depoimento que Gutierrez tinha a “palavra final” para determinar as manipulações e fraudes reveladas naquele que é considerado o maior escândalo da história do varejo brasileiro.

O conteúdo das declarações do ex-diretor foi incluído na denúncia apresentada pelo órgão em março de 2025, na qual foram mencionados outros 12 ex-executivos e ex-funcionários da Americanas. De acordo com o MPF, o grupo teria sido responsável por fraudes estimadas em pelo menos R$ 22,8 bilhões.

A delação do ex-diretor da Americanas foi dividida em quatro anexos, com dados sobre sua relação patrimonial, seu histórico na varejista, a pressão por resultados na companhia e seu primeiro contato com as fraudes contábeis.

Até então, haviam sido firmadas três delações no caso Americanas, pelos ex-executivos Marcelo Nunes, Flávia Carneiro e Fabio Abrate.

O novo delator afirmou aos investigadores que o líder do esquema de fraudes na Americanas era o próprio Gutierrez, com participação de Anna Saicali, ex-CEO da B2W (braço de comércio eletrônico da empresa).

O que diz a CVM

O processo de apuração do escândalo da Americanas na Superintendência de Processos Sancionadores da CVM terminou no fim do ano passado. A recomendação técnica do órgão foi a de instauração de um processo para a punição dos envolvidos e para que toda a investigação seja encaminhada ao MPF, que já vem apurando o caso.

Os acusados pelas supostas irregularidades foram citados para a etapa de defesa no processo. Em tese, eles poderão propor termos de compromissos, buscando acordos para encerrar o caso. Apenas após a conclusão dessa etapa, o colegiado da CVM deve julgar o processo.

“Deixar de punir a companhia seria gritarem alto brado aos administradores de todas as outras companhias que basta atribuir a diretores não estatutários a responsabilidade pelas assinaturas para eximir-se de qualquer responsabilidade”, diz o documento da CVM.

Segundo o órgão, “não punir a companhia seria o mesmo que ensinar a todo o mercado o caminho para nunca mais ser punido”.

“Ademais, as vítimas foram os acionistas, debenturistas e outros detentores de valores mobiliários. Os representantes legais da companhia eram os seus diretores estatutários e a fraude foi cometida por vários deles, no exercício de suas funções estatutárias. Dessa forma, não cabe à companhia buscar eximir-se de suas responsabilidades”, aponta a CVM.

Entre os então diretores estatutários da Americanas, além de Gutierrez, aparecem Anna Saicali, José Timóteo de Barros, Márcio Cruz Meirelles e Fábio Abrate – que, de acordo com os investigadores, teriam integrado o núcleo principal que articulou a fraude.

“(Gutierrez) Deve ser responsabilizado por ter, por pelo menos uma década, comandado o esquema de manipulação de preços no mercado de valores mobiliários que se instalou em Americanas, perpetrado por meio de fraudes incrementais e continuadas, com emissões de valores mobiliários cujas ofertas baseavam-se em informações falsas, conduta esta agravada pelo fato de ter sido diretor-presidente, membro do Conselho de Administração e membro e presidente do Conselho de Administração de B2W, conselhos nos quais votou pela aprovação e encaminhamento, à Assembleia Geral de Acionistas, de Demonstrações Financeiras que sabia fraudadas, além de responsável por sua publicação”, afirma a CVM.

Escândalo na Americanas

No dia 11 de janeiro de 2023, a Americanas informou ao mercado que havia detectado “inconsistências contábeis” em seus balanços corporativos. Até então, o rombo era estimado em cerca de R$ 20 bilhões. Era o início do desmoronamento de uma das companhias mais tradicionais do país.

O episódio, hoje apontado como o maior escândalo corporativo da história do Brasil, deflagrou uma série de acontecimentos que levaram a Americanas à lona. Três anos depois, a varejista ainda está longe de recuperação total.

Em abril de 2025, o MPF denunciou 13 ex-executivos e ex-funcionários da Americanas por supostas fraudes na companhia, cujo prejuízo é estimado em cerca de R$ 25 bilhões. A decisão foi tomada após a Polícia Federal (PF) indiciar os envolvidos.

Entre os denunciados pelo MPF, estão o ex-CEO da Americanas Miguel Gutierrez, além de Anna Saicali (ex-CEO da B2W) e dos ex-vice-presidentes Thimoteo Barros e Marcio Cruz.

Também fazem parte da lista os ex-diretores Carlos Padilha, João Guerra, Murilo Correa, Maria Christina Nascimento, Fabien Picavet, Raoni Fabiano, Luiz Augusto Saraiva Henriques, Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira e Anna Christina da Silva Sotero.

Todos eles foram denunciados pelos crimes de associação criminosa, falsidade ideológica e manipulação de mercado. Nove pessoas também foram denunciadas por informação privilegiada.

Os três acionistas de referência da empresa – além de Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira – não foram denunciados.