“É ruim, mas é bom”. O ditado popular expressa uma contradição que sintetiza com perfeição o que significam dois recordes tristes e vexatórios batidos pelo Brasil no ano passado: 4.515 denúncias de trabalho escravo (Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania) e 8.730 novos processos criminais por racismo – além dos 5.000 feitos pendentes de julgamento (Painel de Monitoramento Justiça Racial).
O lado ruim me parece bastante evidente e óbvio.
Manifestantes fazem ato em resposta ao episódio de racismo sofrido pelas crianças Isaque e Giovana, ambas de 12 anos, no Shopping Pátio Higienópolis
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Além de ser absurdo, vergonhoso, cruel e descabido, manter uma pessoa em condições análogas à escravidão em pleno século 21 denota uma deformação ética e moral da sociedade brasileira – que se estruturou em parâmetros coloniais alicerçados no trabalho de pessoas desumanizadas e escravizadas.
O lado bom é menos explícito, porém importantíssimo.
Envolve o despertar da consciência crítica, o aumento da autoestima étnico-racial e a noção de cidadania acerca de direitos fundamentais reiteradamente negados a pretos e pardos. O crescimento das denúncias e dos processos judiciais nos últimos anos é reflexo disso.
Todo negro – sim, esta é uma afirmação taxativa- que vive no nosso país já passou ou irá passar por episódios (sim, no plural) de discriminação, preconceito e racismo. É fato. Afinal, inúmeras práticas traumáticas que agridem e afetam quem possui o fenótipo (aparência) afro foram naturalizadas.
Infelizmente, a sociedade brasileira se acostumou com a desumanização do negro e com a lógica (absolutamente equivocada) da subordinação racial. Porém, felizmente, cada vez mais gente está denunciando o que costumava ser suportado em silêncio pelas vítimas.
Racismo é um sistema de opressão estruturado na ideia de hierarquia racial. Consciência crítica é fundamental para garantir a efetividade da cidadania. Casos de racismo e de trabalho análogo à escravização precisam e devem ser denunciados. Os principais canais são o Disque 100, o 190 e o registro de boletins de ocorrência. Não se cale. Denuncie!