No ambiente patriarcal da segunda metade do século 19 era quase impossível uma dama aristocrática se sobressair por suas realizações. Uma exceção notável foi Domitila de Castro (1797-1867), a Marquesa de Santos, que tinha vida própria e fazia o que queria. Mas a regra era ser ofuscada pelo marido, a não ser que a mulher fosse viúva ou separada. Fora isso, restava fazer ações de caridade e ser boa anfitriã.
Houve três mulheres da alta sociedade da época, porém, que conseguiram escapar desse jugo e alcançar algum protagonismo: Dona Veridiana da Silva Prado, Maria Antônia da Silva Ramos e Maria Angélica de Sousa Queirós, todas filhas de barões. Comprando e vendendo terras numa área então conhecida como Alto de Santa Cecília elas ajudaram a formar o que viria a ser o bairro de Higienópolis alguns anos mais tarde. Não à toa são homenageadas com nomes de ruas e da principal avenida da região.
Dona Veridiana (1825-1910) é o caso mais ilustre. Separada do tio Martinho da Silva Prado aos 53 anos, depois de 30 anos casada e seis filhos, ela se radicou em São Paulo, onde sua família tinha muitas terras, e construiu um palacete suntuoso, que existe até hoje, na chamada chácara Vila Maria. Fica na esquina da rua que hoje leva seu nome com a avenida Higienópolis e estabeleceu um alto padrão para os outros casarões que seriam construídos pelos barões do café nas redondezas.
Era também um ponto de encontro de artistas e de intelectuais e palco de reuniões de negócios da elite paulista. Veridiana era uma das administradoras dos bens de sua família e marcou a história da cidade pelas obras de caridade e pelo incentivo aos esportes. O antigo velódromo na região da praça Roosevelt, que depois de tornaria o primeiro campo de futebol da cidade, localizava-se em terras de sua propriedade. Outro de seus empreendimentos era o jornal “O Comércio de São Paulo”.
Já a baronesa Maria Antônia da Silva Ramos (1815-1902), filha do senador do Império João da Silva Machado, o Barão de Antonina, foi uma das primeiras aristocratas paulistanas a se converter ao protestantismo. Isso a levou a vender por um preço acessível, cerca de 800 mil réis, uma parte das terras que havia recebido como herança no Alto de Santa Cecília para o reverendo presbiteriano George Whitehill Chamberlain, diretor da Escola Americana.
A área, chamada de chácara Lane, não tinha casa sede e era destinada ao cultivo de hortaliças, feito por escravos, tinha um pomar e servia de pasto para cavalos. Passaria a abrigar a escola, que era mista e aceitava alunos negros, depois uma faculdade de engenharia e, décadas mais tarde, a Universidade Presbiteriana Mackenzie. As terras de Maria Antônia englobavam parte das ruas da Consolação, Amaral Gurgel, Itambé, Maranhão e Major Sertório.
A terceira dama fundadora de Higienópolis foi Maria Angélica de Sousa Queirós (1842-1929). Neta do senador Vergueiro e do brigadeiro Luís Antônio, ela enviuvou no final do século 19 de Francisco de Aguiar de Barros, filho do barão de Itu. Recebeu muitas terras em São Paulo como herança, inclusive na região de Santa Cecília e Higienópolis.
Em uma dessas propriedades, na chácara das Palmeiras, ela ergueu, em 1893, um palacete feito com materiais importados da Europa para residir. Era uma réplica do Palácio de Charlottenburg, na Alemanha, e estava localizado na esquina da avenida Angélica, batizada em sua homenagem, com a Alameda Barros. Posteriormente ela doou uma parte de 3,5 mil metros quadrados do imóvel para a Associação Damas de Caridade, que acolhia crianças órfãs. Outra grande área da chácara também loteada pelos empresários alemães Martinho Bouchard e Victor Nothmann para a criação do bairro Higienópolis, em 1895.



