Veículo: O Globo
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Data: 03/12/2025

Editoria: Shopping Pátio Higienópolis
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Jovens profissionais, antes adeptos do home office, agora buscam o trabalho presencial

Quando grandes empregadores como Amazon, JPMorgan e o governo federal endureceram suas políticas de presença no escritório neste ano, muitos trabalhadores mais jovens pareceram resistir. Pesquisas de opinião da Gallup mostraram que eles eram, em geral, mais resistentes do que os trabalhadores mais velhos a retornar ao escritório em tempo integral.

Mas o quadro era mais complicado. Segundo a Gallup, as pessoas mais jovens também eram as menos interessadas em trabalho totalmente remoto.

Novas pesquisas lançam alguma luz sobre o motivo disso. Em um artigo recente, uma equipe de economistas do Federal Reserve Bank de Nova York, da Universidade da Virgínia e da Universidade de Harvard descobriu que trabalhadores mais jovens sofriam, em termos de carreira, ao trabalhar de casa, recebendo menos treinamento e menos oportunidades de avanço. Os economistas descobriram que o trabalho remoto até contribuiu para um desemprego mais alto entre os trabalhadores mais jovens.

Eles calcularam que os trabalhadores mais jovens pareciam estar respondendo de acordo, passando mais tempo no escritório do que os trabalhadores mais velhos nos últimos anos.

Aerlice LeBlanc, por exemplo, respirou aliviada quando a empresa de software de Nebraska para a qual trabalhava mandou os funcionários para casa no início da pandemia. Tendo enfrentado dificuldades com TDAH, ela achava mais fácil se concentrar na calmaria de sua sala de estar.

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Mas, em poucos anos, Aerlice, agora uma analista de negócios de tecnologia da informação de 30 anos, começou a sentir falta do escritório. Ela estava trabalhando em uma função mais colaborativa e tinha dificuldade em saber quando poderia interromper um colega para pedir ajuda. Ela passou a sentir falta de interação social e se preocupava que quase não fosse lembrada por seus superiores.

— Eu tinha a sensação de que havia conversas acontecendo no trabalho, sobre assuntos do trabalho, das quais eu não fazia parte porque não estava fisicamente lá — disse ela.

Em 2023, ela começou a ir ao escritório alguns dias na maioria das semanas, mesmo antes de a empresa tornar isso obrigatório.

Em 100 respostas a um questionário do New York Times, muitos leitores de 30 anos ou menos que puderam trabalhar de casa nos últimos cinco anos disseram que ainda preferiam esse arranjo. Mas muitos outros disseram que procuraram passar mais tempo no escritório nos últimos anos. Eles frequentemente citaram sentimentos de isolamento como motivo, além do desejo de receber mais orientação e feedback, e de aumentar as chances de uma promoção.

— Uma das coisas que eu buscava era mais oportunidade presencial para aprender e fazer perguntas — disse Kenneth Sullivan, 30 anos, engenheiro civil na região de Seattle que se especializa em projetar e inspecionar pontes.

Sullivan passou pouco mais de dois anos, começando em 2021, trabalhando principalmente de forma remota para uma agência governamental antes de conseguir um emprego em uma empresa privada de engenharia que exigia que os funcionários passassem mais tempo no local.

O artigo econômico, lançado pela primeira vez em 2023 e recentemente atualizado com novos resultados, corrobora a intuição desses trabalhadores de que pagarão um preço por trabalhar de casa. Ele constata que engenheiros de software de uma grande empresa de comércio eletrônico receberam cerca de 20% mais feedback sobre seu código quando se sentavam fisicamente próximos aos colegas — e que esse feedback beneficiava de forma desproporcional os trabalhadores mais jovens e os recém-chegados à empresa.

Os economistas observaram que os engenheiros faziam mais perguntas de acompanhamento quando se sentavam perto de colegas. Talvez de forma contraintuitiva, muitas dessas perguntas de acompanhamento eram feitas online, sugerindo que a proximidade física também leva a mais comunicação digital.

Aerlice LeBlanc ecoou essa constatação, dizendo que se sentia mais confortável em procurar colegas, mesmo eletronicamente, depois de terem trabalhado juntos pessoalmente.

— A transição foi de: “Vocês são pessoas assustadoras para quem eu tenho medo de mandar mensagem no Teams”, para: “Este é o Ryan, ele gosta de heavy metal e de Magic: The Gathering. Ele é o gerente de contas do nosso maior cliente. Posso ir perguntar algo a ele” — disse ela.

 

Os economistas reconhecem que trabalhar de casa pode aumentar a produtividade, como outros estudos concluíram, mas argumentam que os benefícios se concentram entre trabalhadores experientes. Eles também descobriram que a qualidade do trabalho pode piorar em arranjos remotos, especialmente para trabalhadores mais jovens.

Quando se tratava da qualidade do código, por exemplo, geralmente levava anos para que engenheiros jovens em equipes fisicamente dispersas alcançassem engenheiros da mesma idade que trabalhavam sentados ao lado de suas equipes.

Emma Harrington, uma das autoras do artigo, disse que a menor oferta de mentoria e treinamento também parecia tornar os jovens trabalhadores de equipes dispersas menos propensos a deixar seus empregos por oportunidades melhores em outras empresas. Ela disse que isso poderia até dificultar que eles assumissem novas funções dentro de suas próprias empresas, embora o estudo não tenha avaliado essa questão diretamente.

— Uma coisa é algum dia aprender a ser um engenheiro de software eficiente — disse Harrington. — Mas será que você vai aprender a ser um gerente eficiente se sua interação é apenas remota?

 

Os trabalhadores mais jovens parecem estar respondendo a esses incentivos. Os economistas observaram que, tanto na empresa estudada quanto entre trabalhadores de colarinho branco nacionalmente, os jovens passaram mais tempo no escritório do que os mais velhos entre 2022 e 2024. O padrão se manteve mesmo quando consideraram apenas trabalhadores sem filhos.

Sullivan disse que um dos motivos pelos quais deixou seu emprego na agência governamental foi o receio de que seria mais difícil ser promovido trabalhando remotamente:

— Eu não conhecia ninguém fora da minha equipe de pontes. Qualquer pessoa de fora — em recursos hídricos, transporte, tráfego — eu não tinha relacionamento com eles.

Em sua análise mais recente, Harrington e seus coautores descobriram que o trabalho remoto levou a pelo menos outro grande custo: o aumento do desemprego.

 

Segundo seus cálculos, cerca de dois terços do aumento do desemprego entre recém-formados nos anos após a pandemia podem ser explicados pelo fato de os empregadores estarem menos interessados em contratar trabalhadores jovens para funções remotas ou híbridas, ou para equipes em que muitos funcionários trabalham remotamente. As empresas podem presumir que esses jovens não receberão o treinamento adequado e “decidir contratar pessoas mais velhas”, disse Harrington.

Depois que o JPMorgan anunciou um novo mandato de retorno ao escritório este ano, Jamie Dimon, o CEO, reforçou esse ponto em uma reunião geral. “A geração jovem está sendo prejudicada por isso”, ele disse. “Eles estão ficando para trás.”

Uma pesquisa recente da empresa imobiliária Jones Lang LaSalle constatou que mais da metade das empresas da Fortune 100 pediu que “funcionários de mesa” trabalhassem no escritório cinco dias por semana, em comparação com 5% em 2023.

Forrest Hall, analista de dados que recentemente foi promovido a líder de equipe em uma empresa em Utah, viu o problema de perto. Hall, de 24 anos, trabalhou brevemente no escritório de seu atual empregador — enquanto estava na faculdade, em 2021 — e depois ficou remoto ou majoritariamente remoto por mais de um ano. Ele disse que foi mais fácil navegar o trabalho remoto após ter passado pelo processo de integração pessoalmente.

“Quando eu fazia perguntas, era fácil conseguir que alguém me ajudasse”, disse Hall.

 

Seu primo, no entanto, que pediu para não ser identificado pelo nome para proteger suas perspectivas profissionais, entrou na empresa alguns anos depois e pediu demissão em menos de 12 meses, em parte porque era difícil acompanhar o ritmo trabalhando remotamente. O primo de Hall disse, em entrevista, que obter respostas para perguntas técnicas podia ser um processo demorado e frustrante.

Ainda assim, tanto trabalhadores quanto especialistas em ambiente de trabalho disseram que oferecer mentoria confiável e oportunidades de carreira para funcionários mais jovens não era tão simples quanto obrigá-los a retornar ao escritório.

Vários trabalhadores jovens que responderam ao questionário do Times disseram que foram chamados de volta ao escritório apenas para descobrir que as pessoas de suas equipes ficavam em andares diferentes, em prédios diferentes ou até em fusos horários diferentes. Ficavam frustrados por ter de participar de uma videoconferência depois de vestir roupas de trabalho e enfrentar o trajeto matinal.

— Quando vou ao escritório, sento na minha mesa com fones de ouvido, em chamadas no Teams — disse Abigail Voight, de 29 anos, arquiteta de software em Minneapolis. — Não ganho nada com isso.

Até mesmo Aerlice LeBlanc, que diz que trabalhar no escritório lhe deu vantagem para uma promoção com um aumento de quase US$ 15 mil, afirmou estar ambivalente em relação à decisão da empresa de trazer todos os funcionários assalariados de volta ao escritório por pelo menos três dias por semana.

Quando ela voltou pela primeira vez, era uma das poucas funcionárias juniores no escritório e “eu sentia que tinha uma sala cheia de mentores”, disse. Mas, quando quase todos em seu escritório, com centenas de pessoas, passaram a fazer o mesmo, o clima mudou.

— Havia pessoas que não queriam estar ali— ela disse, “que não queriam conversar com ninguém.”