Veículo: Valor Econômico
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Data: 11/11/2025

Editoria: Shopping Pátio Higienópolis
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Azzas 2154 tem balanço fraco no 3º trimestre; ex-Schutz vai liderar a Hering

Num ano em que a Azzas 2154 continua na tarefa de casa de melhorar resultados, o grupo publicou nesta segunda-feira (9) dados fracos no terceiro trimestre, como o mercado já esperava, mas alguns um pouco abaixo do esperado. O lucro líquido contábil caiu 20% e o recorrente avançou 23%, após efeito positivo de imposto de renda e contribuição social.

A companhia já trocou chefes de todas as unidades do grupo desde anúncio da fusão de Arezzo&Co e Soma em 2024 (moda masculina, moda básica, calçados/Arezzo, e criou co-gestão em moda feminina/masculina), e está em plena restruturação de Hering, ponto-chave desse processo. “A Hering tem um trabalho de transformação de cultura mais profundo do que o que estávamos vendo”, disse em entrevista, o diretor-presidente da Azzas, Alexandre Birman.

Sobre o balanço do trimestre, a receita líquida recorrente recuou 2,3%, para R$ 2,96 bilhões (XP estimava queda de 1% e JP Morgan e Bradesco BBI previa estabilidade) e as vendas brutas subiram 1,2%. Para as marcas em operação, o valor bruto cresceu 4,4% (Bradesco BBI projetava alta de 6%).

A diferença de líquido e bruto refere-se a uma alta nas devoluções de itens de coleções passadas, num acerto deliberado da Azzas por conta de dificuldades de certas franquias de Arezzo e Schutz, algo que analistas vinham contabilizando em seus modelos, mas ainda houve diferença de estimativas. O número recorrente exclui impactos pontuais e extemporâneos.

Segundo Birman, houve um desempenho misto do grupo no trimestre, com moda masculina e feminina em trajetória de crescimento e de rentabilidade, enquanto calçados e bolsas estão num “momento de transformação”. Desde agosto, o ex-diretor financeiro Rafael Sachete, lidera a área para tentar dar novo rumo ao segmento.

Essa unidade caiu 5,6% em vendas (no ano, recua 0,4%), e o braço de básicos, com marcas Hering, reduziu 4,2%. Moda feminina (com efeito da Farm) e masculina subiram 18,2% e 5,4%, respectivamente, versus o terceiro trimestre de 2024.

O detrator de crescimento em calçados foi a marca Vans, que encolheu 16,1% e com decréscimo de venda no exterior e isso afetou também a operação local.

Sobre rentabilidade, as margens da Azzas subiram e vieram em linha ou um pouco menores que o estimado pelo mercado. Esses números levam em conta os dados combinados de Arezzo e Soma em 2025 e no ano anterior (pro forma) para melhor comparação.

A margem bruta cresceu de 54,4% para 54,7% no intervalo — a XP projetava 55% devido a comparações fracas do ano passado. Sem a Hering, o índice seria de 58,7%.

No mesmo período, a margem ebitda recorrente passou de 15,7% para 16,1%, avanço que refletiu a expansão da margem bruta. O ebitda mede lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação.

Já o lucro líquido consolidado, de cerca de R$ 165 milhões, recuou de 20,2% sobre o ano anterior. Mas ao se considerar a base “pro forma”, com as empresas combinadas, subiu de R$ 83 milhões para quase R$ 165 milhões, dobrando de valor.

Sobre essa soma pro forma, ela ficou aquém na visão de alguns analistas. O Citi era mais otimista e vinha projetando um operacional melhor, o que o levava o banco a estimar um lucro final de R$ 208 milhões, alta de 151%.

A empresa ainda publicou o lucro recorrente, que exclui impactos eventuais, de R$ 201,3 milhões,  alta de 22,9% — a soma ficou dentro do consenso do mercado, em R$ 201 milhões.

Houve efeito de Imposto de Renda (IR) no consolidado, com saldo de R$ 108,8 milhões (ela pagou R$ 131 milhões um ano antes). O grupo afirma em balanço que, a partir do segundo trimestre, não provisionou mais o IR e a contribuição social sobre o lucro (CSLL) para subvenções de imposto, o que ajuda no resultado final.

Outra linha que deve merecer atenção da empresa, e não foi muito bem no trimestre, foi o ciclo financeiro (subindo de 109 dias de vendas para 130 dias).

Isso porque o prazo de pagamentos à indústria caiu 25 dias por causa de uma compra mais conservadora de insumos em Hering. A ideia é mudar essa curva e pagar com prazo maior e receber com prazo menor, e ter menos estoques, para ganhar mais nesse ciclo.

Apesar de ser o dia da publicação das demonstrações, parte do foco do comando ontem estava no anúncio da entrada de David Python no grupo — depois da saída da gestão do último membro da família Hering, Thiago Hering, anunciada em setembro.

A troca teve relação com a manutenção de resultados de vendas ruins na Hering, segundo apurou o Valor, mesmo após mudanças no mix e nas lojas. Neste ano, a Hering sobe 6,5% até setembro para uma inflação de vestuário de 5,7%.

“Foi um trabalho muito bom do Thiago, eu entendo o peso que ele carregava, mas há uma mudança muito grande que a gente tem que fazer, e precisava de uma liderança com capacidade de ação”, disse Birman.

Birman e Python se conhecem desde 2010, depois disso, o executivo foi diretor da Schutz em 2011 (com ele, a Schutz saiu de 4 para 60 lojas em dois anos), e também esteve como diretor na Arezzo, passando cinco anos na empresa, até 2015. Por quase dez anos, Python era CEO da marca de tênis Cariuma, cofundada por ele.

A questão central é que o trabalho de Python terá que ser em várias camadas dentro a empresa ao mesmo tempo, algo que o próprio Birman e o novo executivo citam na entrevista. Balanço do trimestre afirma que será preciso uma revisão do modelo de franquias da Hering, novo reposicionamento de mix, com menos dispersão em moda passageira e maior profundidade em básicos.

Vai tentar, para isso, por exemplo, trabalhar mais itens de “malha diferenciada” e ainda buscar um “minimalista chique” para o dia a dia (já fez isso numa coleção e a venda subiu 58% neste ano).

O material ainda cita duas outras ações básicas para isso dar certo: eficiência industrial e otimização de capital de giro, o que depende da operação no sul do país.

As marcas da Hering venderam R$ 1,8 bilhão de janeiro a setembro, e apesar da força da marca, é pouco mais da metade do que a Azzas vende em calçados e bolsas, que nem é o maior negócio do grupo.

Será preciso foco em fundamentos básicos da Hering antes de acelerar crescimento, e boa parte desse trabalho será feito em Blumenau (SC), que centralizará os ganhos industriais de eficiência. Está ocorrendo mudança das áreas de produto e de gestores para a cidade, aproximando as tomadas de decisão da unidade fabril, algo que inexistia antes.

Segundo Python, está sendo implementada uma lógica que inverte o atual processo de pedidos.

“Nas últimas duas semanas fizemos um lançamento, que não existia no calendário, em que fechamos mediantes pedidos e depois vem a produção, e não a produção antes do pedido”, disse o executivo. É a linha mestra seguida por grandes marcas de roupas no mundo.

A ideia é que, nesse processo, um novo esse ciclo operacional e de planejamento de coleções esteja implementado na primeira metade de 2026 para que possa rodar na segunda metade do ano. “Eu acredito num salto quando a gente refizer a primeira coleção estabelecida sobre essa base, logo, no segundo semestre de 2027”, disse Python.

Birman fala em ter uma marca vendendo mais para pessoas jurídicas e menos para clientes diretos, com mais capilariedade de multimarcas e maior seletividade no comércio on-line, que historicamente tem margens mais baixas

Questionado sobre novas alterações de comando nas unidades de negócios, Birman descartou a possibilidade, e perguntado sobre outras reduções de despesas, como a de fechamento de fábricas já anunciadas — em outubro, foi fechada a fábrica de calçados femininos da Arezzo em Parobé (RS) — ele mencionou que ainda pode ter outras movimentações.