Em seu mais novo relatório, que compila informações financeira e de Sustentabilidade, o Grupo Boticário afirma ter avançado em boa parte dos compromissos ambientais e sociais vinculados à sua estratégia ESG e reforçou que a agenda climática passa a ganhar peso crescente na gestão da companhia após a validação de suas metas pela Science Based Targets initiative (SBTi). O tema ganhou relevância adicional nos últimos anos à medida que a empresa passou a atrelar parte significativa de seu endividamento ao cumprimento de indicadores de sustentabilidade.
Atualmente, 65% da dívida corporativa do grupo está vinculada a metas ESG por meio de Sustainability-Linked Bonds (SLBs), títulos cuja remuneração está associada ao desempenho em compromissos socioambientais previamente estabelecidos. Entre 2020 e 2025, a companhia realizou quatro emissões nesse formato, somando R$ 5,775 bilhões.
Durante apresentação do Relato Integrado 2025, em visita de jornalistas à fábrica da empresa em São José dos Pinhais (PR), o diretor de Sustentabilidade e ESG do Grupo Boticário, Luis Meyer, destacou que a companhia vem avançando na maior parte dos indicadores monitorados pelos títulos, mas reconheceu que a descarbonização segue como um dos principais desafios.
Segundo os dados divulgados pela empresa, as emissões diretas e indiretas associadas ao consumo de energia apresentaram redução de apenas 0,2% em relação ao ano-base de 2022. O resultado contrasta com a meta assumida na emissão mais recente de SLB, realizada em 2025, que prevê uma redução de 62% das emissões dos escopos 1 e 2 até 2034.
Meyer atribui a dificuldade principalmente ao ciclo de expansão industrial da companhia, como o projeto da ampliação da fábrica de Camaçari, ocasionando em aumento de consumo.. Segundo ele, embora o grupo já tenha migrado suas unidades industriais e centros de distribuição para energia renovável contratada no mercado livre, reduzindo significativamente as emissões de escopo 2, a substituição de equipamentos que utilizam combustíveis fósseis exige investimentos elevados e obras de infraestrutura. “Eu não consigo tirar uma caldeira e ligar uma nova sem uma obra industrial, sem investimento e sem planejamento de longo prazo”, disse.
Boticário tem 65% das dívidas atreladas a metas ESG
| Ano | Valor | Meta principal | Status |
| 2020 | R$ 1 bi | Energia renovável e resíduos | Cumprida |
| 2023 | R$ 2 bi | Água de reúso e portfólio vegano | Em andamento |
| 2024 | R$ 1,15 bi | Energia renovável nas lojas e Empreendedoras da Beleza | Em andamento |
| 2025 | R$ 1,625 bi | Métodos alternativos e emissões | Em andamento |
Ainda assim, o executivo ressaltou que o negócio cresceu de forma significativa desde 2022 e que a estabilidade das emissões ocorreu em um contexto de aumento da produção. “Mas quanto mais tempo eu passar em zero, maior será o desafio”, acrescentou.
Emissões estão fora dos muros da empresa
Se a redução das emissões operacionais já representa um desafio, o quadro se torna ainda mais complexo quando se considera o inventário completo de carbono do grupo. Segundo Meyer, cerca de 98% das emissões de gases de efeito estufa da companhia estão concentradas no escopo 3, categoria que engloba fornecedores, transporte, matérias-primas e outras atividades da cadeia de valor.
“Não somos uma empresa intensiva em carbono dentro da operação. O grande desafio está na cadeia. Precisamos trazer os parceiros junto conosco nessa jornada”, afirmou.
A dimensão do desafio reflete o modelo de negócios da empresa, que opera milhares de pontos de venda e revendedores em todo o país e depende de uma extensa rede de fornecedores de insumos e logística.
Para enfrentar essa questão, o Grupo Boticário publicou no ano passado seu Plano de Transição e Adaptação Climática e teve aprovadas pela SBTi suas metas de curto, médio e longo prazo para redução de emissões. Segundo Meyer, a companhia foi a primeira empresa brasileira do setor de cosméticos a validar simultaneamente metas intermediárias e de longo prazo junto à iniciativa internacional.
A meta de médio prazo prevê redução de 67% das emissões até 2035. Já o compromisso de longo prazo estabelece a eliminação das emissões operacionais dos escopos 1 e 2 e a redução de aproximadamente 90% das emissões de escopo 3 até 2050, alinhando a companhia à trajetória de net zero. “A jornada climática passa a ser pública e baseada na ciência. Os compromissos que tínhamos anteriormente continuam importantes, mas agora temos metas validadas externamente”, afirmou.
Dívida ligada à sustentabilidade
Ao todo, o grupo fez quatro emissões de dívida atrelada a metas de sustentabilidade, pelo intrumento de Sustainability-linked Bond (SLB). A primeira emissão de SLB do Grupo Boticário ocorreu em 2020, quando a companhia captou R$ 1 bilhão. As metas vinculadas ao título — uso de energia renovável em fábricas e centros de distribuição e reciclagem de resíduos sólidos industriais — já foram cumpridas, de acordo com o executivo.
Em 2023, o grupo realizou uma nova emissão de R$ 2 bilhões, vinculada a compromissos relacionados à água e biodiversidade. Entre os indicadores acompanhados estão a ampliação do uso de água de reúso na fábrica de São José dos Pinhais e a transformação do portfólio em produtos veganos. Segundo a companhia, 98,4% dos produtos já são veganos e a expectativa é atingir 100% ainda este ano. Já o uso de água de reúso alcançou 34,2% em 2025, ante uma base próxima de zero quando a meta foi estabelecida.
A emissão de 2024, de R$ 1,15 bilhão, incorporou um componente social. Entre os compromissos assumidos estão ampliar para 75% a participação de energia renovável nos pontos de venda próprios até 2030 e alcançar 1 milhão de oportunidades geradas pelo programa Empreendedoras da Beleza. Criado para capacitação profissional e geração de renda, o programa já contabiliza mais de 788 mil oportunidades desde 2021. Segundo a companhia, 57% das participantes relatam aumento de renda após a participação nos cursos.
Já a emissão mais recente, de R$ 1,625 bilhão, realizada em 2025, passou a vincular o financiamento a metas relacionadas à ampliação de métodos alternativos para testes de produtos cosméticos e à redução das emissões de gases de efeito estufa. Atualmente, a empresa utiliza 59 métodos alternativos de testes e pretende chegar a 70 até 2030.
Avanços em água, resíduos e fornecedores
Além dos indicadores associados aos títulos sustentáveis, o Relato Integrado 2025 mostra avanços em outras frentes da agenda ESG. Na gestão da água, 91% do portfólio da companhia já passou pela metodologia IARA, sistema próprio de avaliação de impacto ambiental validado pelo Inmetro. O grupo também monitora atualmente quatro mananciais considerados críticos e pretende ampliar esse número para seis até 2030.
Na cadeia de suprimentos, 89% das matérias-primas utilizadas já possuem origem renovável ou sustentável, comprovada por certificações, enquanto 63% dos fornecedores estratégicos têm sua performance em sustentabilidade avaliada regularmente. A meta é atingir 75% até o final da década.
A companhia também informou ter superado antecipadamente a meta de reciclagem de resíduos industriais e logísticos, alcançando índice de 96%, acima dos 95% previstos para 2030.
Para Meyer, a proximidade do prazo das metas torna a execução cada vez mais relevante. “[O ano de ] 2030 parece longe, mas está muito próximo quando falamos de transformação industrial, investimentos e mudanças estruturais dentro de uma organização do nosso porte”, disse.
Com a maior parte das emissões concentrada fora de suas operações e quase dois terços da dívida vinculados a indicadores ESG, a empresa terá de acelerar o engajamento de fornecedores e parceiros nos próximos anos para cumprir os compromissos assumidos junto ao mercado.