Antes mesmo da estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026, parte das coleções temáticas lançadas por grandes varejistas de moda já aparecia como esgotada em lojas físicas e canais digitais. Em visitas a shoppings de São Paulo e consultas a sites e aplicativos, o Valor verificou que itens de Renner, Youcom e Riachuelo estavam indisponíveis para compra.
O movimento ocorre no momento em que o setor busca recuperar o ritmo de vendas em meio ao consumo mais contido e o avanço da concorrência de plataformas internacionais.
Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o segmento de moda é o único entre os analisados pela entidade a registrar retração real nas vendas em relação à Copa de 2022, com queda de 9,9%. O volume comercializado ainda está cerca de 18% abaixo do patamar pré-pandemia, comparando março de 2026 com fevereiro de 2020.
O torneio surge, portanto, como uma das principais apostas do setor para recuperar fôlego. O Iemi – Inteligência de Mercado estima que produtos ligados à Copa podem gerar até R$ 10 bilhões em receitas adicionais para o varejo.
A Renner apostou em coleções de edição limitada e parcerias com marcas conhecidas para a Copa. Por meio das marcas Renner e Youcom, lançou coleções criadas em parceria com o Guaraná Antarctica, marca da Ambev, tendo como eixo temas ligados ao futebol, à brasilidade e à nostalgia. A coleção reúne 21 peças entre camisetas, polos e acessórios inspirados em momentos históricos do futebol brasileiro. Na Youcom, a parceria resultou em cinco itens, incluindo camisetas, blusa, boné e meias.
Os produtos foram lançados em edição limitada, sem previsão de reposição. A Renner atribuiu o esgotamento dos itens nas prateleiras à essa estratégia e ao fato de que as peças foram desenhadas para ser usadas além do período da competição.
A Riachuelo lançou 70 modelos na linha “Torcida Incrivelmente Brasil”, além de uma colaboração com a marca de streetwear Piet. Segundo a empresa, a venda de quase todo o estoque já estava contemplado na planejamento da operação.
A companhia, que estabeleceu como meta vender 80% da coleção, afirma que sua estrutura fabril verticalizada permite ajustar volumes e abastecimento mais perto do evento, aumentando a capacidade de resposta à demanda.
A C&A também registrou itens esgotados em lojas e no site, mas não comentou o assunto até o fechamento desta edição.
Os dados da CNC mostram que o setor ainda opera abaixo do patamar pré-pandemia, o que ajuda a explicar a opção das varejistas por coleções de edição limitada e estoques mais enxutos. Segundo o economista-chefe da confederação, Fábio Bentes, a recuperação do segmento de vestuário segue incompleta, apesar de os preços da categoria terem acumulado alta inferior à inflação nos últimos anos.
“O setor de vestuário tem sentido uma grande dificuldade em reaver o nível de receitas pré-pandemia. O apelo do preço menor [das plataformas asiáticas] é o que explica o desempenho sofrível do varejo de vestuário no Brasil nos últimos anos. Podemos apontar o dedo especificamente para essa diferença tributária, que é muito grande”, diz o especialista, referindo-se ao fim do benefício tributário para os importadores que culminou na “taxa das blusinhas”.
Segundo Marcelo Prado, diretor do Iemi, itens de vestuário ligados ao futebol devem registrar vendas entre 80% e 100% superiores às médias históricas da categoria. O instituto estima que o varejo de moda movimente R$ 140,9 bilhões na temporada outono-inverno de 2026, com alta nominal de 3,3% sobre 2025, enquanto o número de peças vendidas deve recuar 0,9%.
“Quando consideramos o impulso dado pela Copa às demais linhas de roupas e calçados, esportivas e casuais, a estimativa é de que outros R$ 8 bilhões a R$ 10 bilhões sejam gerados no varejo”, diz Prado.
Eric Huang, analista do Santander, observa que para redes como Renner, C&A e Guararapes (Riachuelo), o efeito das coleções temáticas é “mais marginal do que estrutural no resultado”. O banco projeta que essas varejistas continuem sendo as mais pressionadas pela dependência de lojas físicas e exposição a vestuário discricionário.
O “grande vencedor” isolado nos modelos do Santander continua sendo o Grupo SBF (Centauro/Nike). Com a demanda por camisas oficiais, o banco projeta uma oportunidade incremental de R$ 390 milhões em vendas para o grupo, sustentada pela encomenda de 850 mil camisas da seleção brasileira.