Veículo: Valor - Globo
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Data: 18/06/2026

Editoria: Shopping Pátio Higienópolis
Assuntos:

Copa ajuda varejo de moda, ainda em recuperação

Antes mesmo da estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026, parte das coleções temáticas lançadas por grandes varejistas de moda já aparecia como esgotada em lojas físicas e canais digitais. Em visitas a shoppings de São Paulo e consultas a sites e aplicativos, o Valor verificou que itens de Renner, Youcom e Riachuelo estavam indisponíveis para compra.

O movimento ocorre no momento em que o setor busca recuperar o ritmo de vendas em meio ao consumo mais contido e o avanço da concorrência de plataformas internacionais.

Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o segmento de moda é o único entre os analisados pela entidade a registrar retração real nas vendas em relação à Copa de 2022, com queda de 9,9%. O volume comercializado ainda está cerca de 18% abaixo do patamar pré-pandemia, comparando março de 2026 com fevereiro de 2020.

O torneio surge, portanto, como uma das principais apostas do setor para recuperar fôlego. O Iemi – Inteligência de Mercado estima que produtos ligados à Copa podem gerar até R$ 10 bilhões em receitas adicionais para o varejo.

A Renner apostou em coleções de edição limitada e parcerias com marcas conhecidas para a Copa. Por meio das marcas Renner e Youcom, lançou coleções criadas em parceria com o Guaraná Antarctica, marca da Ambev, tendo como eixo temas ligados ao futebol, à brasilidade e à nostalgia. A coleção reúne 21 peças entre camisetas, polos e acessórios inspirados em momentos históricos do futebol brasileiro. Na Youcom, a parceria resultou em cinco itens, incluindo camisetas, blusa, boné e meias.

Os produtos foram lançados em edição limitada, sem previsão de reposição. A Renner atribuiu o esgotamento dos itens nas prateleiras à essa estratégia e ao fato de que as peças foram desenhadas para ser usadas além do período da competição.

A Riachuelo lançou 70 modelos na linha “Torcida Incrivelmente Brasil”, além de uma colaboração com a marca de streetwear Piet. Segundo a empresa, a venda de quase todo o estoque já estava contemplado na planejamento da operação.

A companhia, que estabeleceu como meta vender 80% da coleção, afirma que sua estrutura fabril verticalizada permite ajustar volumes e abastecimento mais perto do evento, aumentando a capacidade de resposta à demanda.

A C&A também registrou itens esgotados em lojas e no site, mas não comentou o assunto até o fechamento desta edição.

Os dados da CNC mostram que o setor ainda opera abaixo do patamar pré-pandemia, o que ajuda a explicar a opção das varejistas por coleções de edição limitada e estoques mais enxutos. Segundo o economista-chefe da confederação, Fábio Bentes, a recuperação do segmento de vestuário segue incompleta, apesar de os preços da categoria terem acumulado alta inferior à inflação nos últimos anos.

“O setor de vestuário tem sentido uma grande dificuldade em reaver o nível de receitas pré-pandemia. O apelo do preço menor [das plataformas asiáticas] é o que explica o desempenho sofrível do varejo de vestuário no Brasil nos últimos anos. Podemos apontar o dedo especificamente para essa diferença tributária, que é muito grande”, diz o especialista, referindo-se ao fim do benefício tributário para os importadores que culminou na “taxa das blusinhas”.

Segundo Marcelo Prado, diretor do Iemi, itens de vestuário ligados ao futebol devem registrar vendas entre 80% e 100% superiores às médias históricas da categoria. O instituto estima que o varejo de moda movimente R$ 140,9 bilhões na temporada outono-inverno de 2026, com alta nominal de 3,3% sobre 2025, enquanto o número de peças vendidas deve recuar 0,9%.

“Quando consideramos o impulso dado pela Copa às demais linhas de roupas e calçados, esportivas e casuais, a estimativa é de que outros R$ 8 bilhões a R$ 10 bilhões sejam gerados no varejo”, diz Prado.

Eric Huang, analista do Santander, observa que para redes como Renner, C&A e Guararapes (Riachuelo), o efeito das coleções temáticas é “mais marginal do que estrutural no resultado”. O banco projeta que essas varejistas continuem sendo as mais pressionadas pela dependência de lojas físicas e exposição a vestuário discricionário.

O “grande vencedor” isolado nos modelos do Santander continua sendo o Grupo SBF (Centauro/Nike). Com a demanda por camisas oficiais, o banco projeta uma oportunidade incremental de R$ 390 milhões em vendas para o grupo, sustentada pela encomenda de 850 mil camisas da seleção brasileira.