Crescimento acelerado, sofisticação do consumo e avanço das experiências reposicionam o país no mapa internacional do setor
O mercado brasileiro de luxo passa a ocupar uma posição cada vez mais estratégica no cenário internacional, impulsionado por um consumidor mais sofisticado, pela expansão da renda nas faixas mais altas e por uma transformação estrutural no significado do consumo premium no País. Essa foi uma das principais conclusões da 15ª edição do LuxuryLab Global Brazil, realizada em São Paulo, que reuniu especialistas internacionais, executivos e lideranças do setor para discutir os rumos da indústria.
Os números ajudam a dimensionar essa mudança. O mercado de luxo no Brasil movimentou cerca de R$ 98 bilhões em 2024 e superou a marca de R$ 100 bilhões em 2025, com projeções que apontam para algo próximo de R$ 120 bilhões em 2026. Entre 2022 e 2024, o setor cresceu 26%, com uma taxa média anual de 12%, ritmo quatro vezes superior à média global, que avançou cerca de 3% ao ano no mesmo período.
No contexto internacional, o contraste é ainda mais evidente. O mercado global de luxo movimenta aproximadamente €1,48 trilhão e atravessa um ciclo de desaceleração, impactado principalmente pela retração da demanda na Ásia, especialmente na China. Ainda assim, segmentos específicos, como bens pessoais de luxo, seguem resilientes e devem ter ultrapassado US$ 280 bilhões em 2025, sustentados pelo consumo de alta renda.
De acordo com dados apresentados no encontro, o Brasil já responde por quase um terço das vendas de luxo da América Latina e se posiciona entre os mercados emergentes de maior crescimento global, ocupando o grupo dos dez países com maior expansão no setor.
Para Thaya Marcondes, cofundadora e diretora de estratégia da LBNHub, especializada no mercado de luxo, esse avanço reflete uma mudança mais profunda no comportamento do consumidor brasileiro. “Hoje o Brasil já não é apenas um mercado aspiracional. O consumidor local demonstra repertório, sofisticação e busca experiências que dialogam com identidade, cultura e propósito. O luxo passa a ser entendido como valor simbólico, memória e construção de pertencimento”, afirmou.
Mais do que o crescimento em volume, o que se destaca é a transformação no perfil de consumo. O mercado brasileiro migra de uma lógica centrada em status para uma relação mais conectada a significado, repertório cultural, experiência e narrativa.
A hospitalidade desponta como um dos principais vetores dessa nova fase. O luxo global avança para modelos híbridos que combinam produto, serviço, experiência e comunidade, tendência que encontra no Brasil um ambiente favorável, impulsionado pelo turismo interno, pelo bem-estar e pela demanda por jornadas personalizadas.
Nesse contexto, o chamado luxo experiencial se consolida como a principal frente de expansão do setor, enquanto novas dinâmicas, como o mercado de segunda mão, ganham relevância global, com crescimento anual próximo de 10% e projeção de atingir US$ 360 bilhões até 2030.
Segundo Thaya, esse movimento exige uma nova leitura das marcas sobre o País. “O Brasil passa a ser estratégico porque reúne três fatores raros ao mesmo tempo: desejo de consumo, potência cultural e capacidade de gerar novas narrativas para o luxo global. Há uma oportunidade concreta para marcas que compreendam o País para além da lógica comercial”, disse.
Outro indicador que reforça esse potencial é o comportamento de consumo doméstico. Mais de 50% do gasto das famílias brasileiras já é direcionado a bens e serviços discricionários, base que sustenta o avanço de categorias de maior valor agregado e amplia o espaço para experiências premium.
Ao mesmo tempo, o setor cresce em um ambiente internacional mais complexo, marcado por tarifas comerciais, tensões geopolíticas e reorganização das cadeias globais de importação. Ainda assim, a perspectiva permanece positiva, sustentada pela criação de riqueza local, pela resiliência do turismo de alto padrão e por uma população jovem com forte aspiração de consumo.
A geração Z assume papel central nesse processo e deve representar entre 40% e 45% do mercado global de luxo até 2035. Mais do que idade ou renda, passam a prevalecer comportamento, repertório e contexto cultural como determinantes das escolhas de consumo.
Nesse novo ambiente, a fidelidade à marca perde espaço para a fidelidade à experiência, enquanto logos ostensivos cedem lugar à curadoria, autenticidade e conhecimento.