Taxas de debêntures negociadas indicam que ao menos 16 empresas deixam analistas em alerta

A eclosão do conflito entre Estados Unidos e o Irã lançou dúvidas sobre o eminente ciclo de corte de juros que se desenhava no País, já considerado prolongado na avaliação de analistas. Na mesma semana, a Raízen (RAIZ4) e o Grupo Pão de Açúcar (PCAR3) entraram em recuperação extrajudicial, secando a demanda por títulos de crédito privado. Esse cenário levou a um ajuste de preços, diante de um risco mais elevado, e pressionou para baixo as taxas da maioria das debêntures.
Alguns títulos, porém, sofreram quedas bem acima da média, especialmente os de empresas mais endividadas ou com dificuldade para refinanciar suas dívidas em um cenário de juros altos, que pressiona o caixa e pode comprometer a operação. Hoje, pelo menos 13 companhias já acendem um sinal de alerta, com papéis mais pressionados do que o restante do mercado, segundo dados da plataforma da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
A maioria delas está em situação mais crítica, no chamado sinal vermelho, como Aeris (AERI3), Ambipar (AMBP3), Casas Bahia (BHIA3), Alliança Saúde, ex-Alliar (AALR3), Grupo Pão de Açúcar (PCAR3), Kora Saúde (KRSA3), Braskem (BRKM5), Elfa Medicamentos (ELFA3), Light (LIGT3) e Raízen (RAIZ4). Já três estão em alerta amarelo, sob monitoramento mais próximo de analistas, estão CM Hospitalar (VVEO3), CSN (CSNA3) e Hapvida (HAPV3).
Existem ainda empresas que estão com tantos problemas que não conseguem nem mesmo emitir debêntures no mercado financeiro. Ou seja, as empresas citadas são os piores casos apenas entre as companhias que emitiram dívida recentemente.
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Juros têm papel primordial na dificuldade das empresas
Os valores foram coletados no dia 1º de abril. Algumas empresas têm debêntures com diversos vencimentos e algumas podem estar fora do radar do mercado, enquanto outras não. Nestes casos, o levantamento traz as de vencimento mais longo, pois refletem melhor o risco.
O porcentual de desconto de um título no mercado secundário em relação ao seu valor de face funciona como um termômetro da saúde financeira da empresa.
Quando os papéis são negociados com descontos de 10% a 20%, ou seja, valem de 90% a 80% de seu valor original, entram em uma zona de “revisão negativa”. Já descontos de mais de 20% a 50%, que valem de 80% a 50% de seu valor cheio, já acendem um sinal amarelo sobre o negócio e a confiança dos investidores. Títulos negociados com mais de 50% de desconto colocam a empresa na categoria considerada “problemática” pelo mercado.
Como o mercado está estressado pelo anúncio das recuperações extrajudiciais da Raízen e do GPA, a apuração adotou o caminho conservador ao analisar títulos com descontos de 20% ou mais. Foi considerado também apenas aqueles indexados ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI), que são a maioria dos descontados no mercado, já que neles olhar a deterioração via desconto do preço tem menos distorções.
No caso de descontos maiores do que 50% fica mais difícil “ranquear” os casos: todos os papéis abaixo dessa linha não costumam ser negociados, o que torna mais difícil ter uma indicação de qual está mais descontado de fato. Em resumo, ativos que cruzam essa linha são considerados pelo mercado financeiro como empresas com problemas evidentes.
Mas como elas chegaram até esse patamar?
O papel dos juros altos é central para a situação atual da maior parte dessas empresas, analisa Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos. “Se olharmos os balanços do terceiro trimestre de 2024 (3T24), vemos que o cenário mais pessimista das empresas era que os juros chegassem a 12%. Ninguém imaginava que ia chegar em 15% e ficar nesse patamar por muito tempo”.
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Muitas empresas tomaram dívida atrelada ao CDI durante a pandemia porque a taxa de juros, que chegou a 2% ao ano, era favorável na época. “Acredito que muitas foram irresponsáveis por fazer isso. Recomendamos aos empresários a sempre diversificar indicadores, mas muitos vão com tudo em um só tipo de título. As empresas precisam sofisticar mais a administração de seus recursos”.
Casos problemáticos: Braskem preocupa o mercado

Entre os negócios considerados problemáticos com base nos preços da debêntures no mercado secundário (descontos de mais de 50% do seu valor de face) estão empresas que já anunciaram reestruturações de dívidas, estão a ponto de anunciar ou já pediram recuperação extrajudicial antes:
- Aeris (86,87% de desconto)
- Ambipar (85,45% de desconto)
- Casas Bahia (77,06% de desconto)
- Alliança Saúde (antiga Alliar) (73% de desconto)
- Grupo Pão de Açúcar (69,33% de desconto),
- Kora Saúde (61,77% de desconto),
- Braskem (57,19% de desconto)
- Elfa Medicamentos (56,32% de desconto)
- Light (55% de desconto),
- Raízen (55% de desconto),
Alavancagem é o problema
Marcos Piellush, professor de finanças da FIA Business School, levantou os indicadores financeiros de algumas das empresas que ganharam sinal vermelho e amarelo do mercado e conclui que os casos de maior risco combinam três elementos: alavancagem elevada, baixa cobertura de juros e fragilidade de liquidez.
O diferencial está nos fatores qualitativos — empresas com ativos líquidos, acesso a capital e receitas previsíveis tendem a atravessar ciclos adversos. Já aquelas expostas a choques operacionais, passivos extraordinários ou forte dependência de crédito apresentam maior probabilidade de enfrentar situações semelhantes às do GPA e da Raízen.
| Empresas | Dívida líquida/Ebitda nos últimos 12 meses | Dívida líquida/Ebitda anterior aos últimos 12 meses | Ebitda/Despesas financeiras nos últimos 12 meses | Ebitda/Despesas financeiras anterior aos últimos 12 meses | Fluxo de caixa livre nos últimos 12 meses | Fluxo de caixa livre anterior aos últimos 12 meses | Caixa/Dívida | Liquidez corrente |
| Braskem | 96,4 | 16,1 | -0,1 | 0,4 | – 5.830 | – 5.509 | 2,3 | 1,2 |
| Casas Bahia | 4,8 | 6,3 | 0,5 | 0,6 | 14.875 | 13.930 | 0,1 | 0,7 |
| Cm Hospitalar | 4,5 | Ebitda negativo | 1,1 | -0,4 | 613 | 87 | 0,5 | 1,3 |
| CSN | 4,7 | 4,1 | 1,8 | 1,7 | – 7.097 | 242 | 1,4 | 1,1 |
| Hapvida | 2,7 | 2,8 | 1,0 | 1,0 | 3.519 | 726 | 0,5 | 1,9 |
Entre os casos levantados, é possível deduzir pelos números que o caso da Braskem é, realmente, o com risco mais alto e mais próximo de uma reestruturação. O indicador dívida/Ebitda diz, de forma simples, em quantos anos a empresa conseguiria pagar a dívida com o potencial de geração de caixa da operação. Se o indicador é 96, significa que a empresa levaria 96 anos para pagar a sua dívida, caso da Braskem, resultado de um Ebitda muito baixo.
O indicador Ebitda/Despesas financeiras diz o quanto esse potencial de geração de caixa cobre as despesas financeiras. Se o indicador é menor que 1, a situação é muito crítica, pois o Ebitda nem cobre este item do balanço. Novamente, a Braskem se destaca, com o único número negativo do levantamento.
Já a relação entre caixa e dívida mostra a capacidade da empresa em cobrir a dívida com o dinheiro disponível. Se esse indicador é maior que 1, a situação é mais confortável. Caso contrário, o risco aumenta, sobretudo quando aliado a outros indicadores desfavoráveis. É o caso de Casas Bahia, CM Hospitalar e Hapvida,
O fluxo de caixa livre representa o dinheiro disponível para remunerar os investidores (sócios e credores). Se é negativo, significa que a empresa não gera caixa para pagar a dívida nem os sócios. Esse indicador negativo aliado a uma empresa endividada configura uma situação de risco, pois a empresa só deve aumentar seu endividamento. É o caso da CSN.
Risco sistêmico?
Um executivo de uma grande asset aponta que alguns clientes estão querendo vender todos os títulos de crédito privado que têm, mas que o problema não está contagiando o mercado. Contudo, há quem refute essa ideia, dado que o risco aumentou sobremaneira que até mesmo vem impactando novas emissões de títulos de empresas de primeira linha.
Carolina Chimenti, analista sênior da Moody’s Ratings, aponta que quando há calote de grandes empresas, como Raízen, há inevitavelmente um contágio de sentimento para outras empresas brasileiras. “O mercado de crédito no exterior fica fechado, o custo de financiamento sobe. É um combo”.
Independente de casos específicos, é importante levar em conta o mercado como um todo, diz Renato Chanes, analista da corretora Ágora Investimentos. “Em função de juros mais altos e atividade econômica mais lenta, a maior parte das empresas listadas reduziu o seu endividamento. O indicador divida liquida sobre Ebitda do Ibovespa, por exemplo, está abaixo das 2,5x — um patamar considerado saudável do ponto de vista creditício.
O que o investidor deve fazer?
Estar na lista de títulos estressados no mercado secundário não significa que a situação das empresas não têm reversão. “Não é uma sentença de morte”, completa Cruz, da RB Investimentos. Contudo, podem acionar o alerta do mercado sobre futuras emissões.
O estrategista lembra o que aconteceu com títulos do setor de frigoríficos, que passaram por um período de grande alavancagem e desconfiança nos últimos cinco anos. “Atualmente eles voltaram a conseguir se financiar por um prazo longo, mas o ‘alerta’ de problemas vai ficar na cabeça dos analistas por um bom tempo”.
Mesmo com a possibilidade de reversão da situação financeira dessas empresas, Fernando Siqueira, diretor de pesquisa da casa de análises da Eleven, diz que não vale a pena investir nos títulos com mais de 50% de desconto agora.
“Quando os descontos atingem esse nível, é sinal de que há problemas graves na empresa. Se o investidor já possui esses títulos, é importante buscar informações sobre a situação da empresa e ver se é possível sair com perdas menores. Historicamente, quando a empresa pede recuperação judicial, a perda com os títulos é de 80% a 90% do valor de face e o valor residual pode demorar para ficar disponível. Considerando isso, acredito que investir em empresas com risco elevado de recuperação judicial é um mal investimento”.
Já para quem tem títulos com desconto menor do que 50%, vale a pena buscar entender para ver se os riscos são realmente grandes ou não, completa Siqueira. “Em geral, quando o desconto está alto, é sinal de que há grande chance de ter problema. Foi o que aconteceu com Raízen e Pão de Açúcar. Mas podem ter exceções, como foi o caso recente de CSN. É primordial buscar informações”.
Para todos os casos, é importante investir apenas uma fração pequena da carteira em algum título de crédito especifico para que, caso haja perda (recuperação judicial ou algo parecido), a aplicação não tenha um impacto tão grande no portfolio.