
A possível saída da Americanas da recuperação judicial encerra um dos episódios mais emblemáticos do mercado recente, mas deixa um saldo ambíguo, na avaliação do advogado Renato Scardoa, especialista em reestruturação de empresas.
Em entrevista à TV GGN, ele destacou que, embora a recuperação judicial seja “sempre uma solução infeliz para devedor e credor”, o caso da varejista apresentou um desfecho positivo e atípico para pequenos fornecedores.
“Para determinados credores fornecedores, o plano acabou sendo muito positivo. Boa parte dos credores que representamos foi paga na integralidade, sem deságio, e manteve a continuidade do fornecimento. Isso é fora da curva“, afirmou.
Scardoa explicou que atuou principalmente na representação de credores fornecedores de médio porte, organizando esses grupos em estruturas coletivas para fortalecer seu poder de negociação. Diferentemente dos grandes bancos, cujo foco é reduzir prejuízos, esses fornecedores também buscavam manter contratos e garantir a continuidade do fornecimento, o que influenciou sua posição ao longo da recuperação.
Disputa entre gigantes abriu espaço para pequenos
O resultado, segundo o advogado, foi consequência direta da disputa entre grandes atores financeiros ao longo da recuperação. De um lado, estavam os controladores da empresa; de outro, bancos, fundos e detentores de títulos que absorveram os maiores prejuízos. Nesse embate, os fornecedores menores acabaram ganhando poder de barganha.
“Para aprovar o plano, era necessário o apoio desses credores. E, com baixo impacto financeiro, optou-se por oferecer condições mais benéficas para garantir esse apoio”, explicou.
Na prática, isso levou a um rearranjo incomum: fornecedores, que tradicionalmente estariam alinhados contra a empresa devedora, passaram a apoiar o plano.
Relação com fornecedores melhora, mas marca segue abalada
Após a recuperação, Scardoa avalia que houve melhora na relação com fornecedores, especialmente os menores, que foram essenciais para a continuidade das operações. “Houve um reconhecimento do apoio desses fornecedores, principalmente num momento de crise institucional da marca”, afirmou.
Por outro lado, ele ressalta que os danos à imagem da empresa ainda persistem, especialmente no mercado financeiro e junto a grandes credores. “A marca ficou com uma pecha muito ruim. E não houve, até agora, uma repaginação que indique um verdadeiro ‘turnaround’”, disse.
O caso Americanas
O movimento ocorre após a Americanas protocolar, nesta semana, o pedido de encerramento de sua recuperação judicial na 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro. A solicitação foi feita dois anos depois da revelação de uma fraude contábil bilionária que expôs um rombo de R$ 42,5 bilhões, episódio que o Jornal GGN acompanhou desde o início como um marco de falha sistêmica na governança corporativa brasileira. A companhia afirma ter cumprido as obrigações previstas no plano, que também abrange subsidiárias como B2W Digital Lux, JSM Global e ST Importações.
Apesar do desfecho considerado positivo para parte dos credores, a crise da Americanas deixou um rastro de dificuldades entre fornecedores. Em entrevista à TV GGN, o empresário Moacir de Almeida Reis, da Forteminas, relatou o impacto do calote da varejista sobre sua empresa, que acabou não resistindo à crise, um exemplo dos efeitos desiguais provocados pelo colapso