Veículo: Seu Dinheiro
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Data: 25/03/2026

Editoria: L-Founders, Pão de Açúcar
Assuntos:

Raízen (RAIZ4), GPA (PCAR3)… pedidos de recuperação de empresas devem piorar em 2026, e corte da Selic não faz nem cócegas na dívida

Empresas já estão renegociando dívidas com credores há muito tempo, mas, para algumas, o fôlego acabou. Guerra e juros altos podem levar a uma piora do cenário corporativo, segundo especialistas consultados por Seu Dinheiro

Karin Salomão
Karin Salomão
25 de março de 2026

 6:25 – atualizado às 16:25

calculadora, empreendedora, contas, dívidas – Imagem: iStock
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As recuperações extrajudiciais bilionárias do Grupo Pão de Açúcar – GPA (PCAR3), de R$ 4,5 bilhões em dívidas, e da Raízen (RAIZ4), de R$ 65,1 bilhões em dívidas, chamam a atenção pelo tamanho das empresas e a magnitude do endividamento. O pedido da fabricante de açúcar e etanol, por exemplo, foi o maior desse modelo da história do país.

No entanto, esses não são casos isolados e mostram a dificuldade das companhias brasileiras de continuarem a operar em um cenário de juros altos. Elas já vêm renegociando com credores, alongando seu perfil de dívida ou convertendo créditos em ações há algum tempo.

Mas, para algumas, o fôlego acabou. Se em 2025 houve um número recorde de empresas em recuperação judicial, a situação pode piorar ainda mais neste ano. E, segundo especialistas consultados por Seu Dinheiro, nem o início do ciclo de cortes de juros deve mudar essa situação. Veja o que deve afetar as companhias neste ano.

 

2026 pode ser ainda pior

O aumento dos pedidos de socorro das empresas não é visto com surpresa por quem acompanha esse setor de perto. “Nós já estávamos prevendo um grande número de RJs e REs há pelo menos um ano e meio”, afirma Ricardo Jacomassi, sócio da TCP Partners, consultoria de gestão e reestruturação afiliada ao BTG Global Advisory.

O que surpreendeu, no entanto, foi o momento para esses pedidos: na avaliação da TCP, a alta foi adiantada em seis meses. A expectativa, pelo menos até o fim do ano passado, era de que os juros começassem a cair já em janeiro, o que também poderia ajudar a aumentar a flexibilidade de credores para renegociações.

Além disso, o cenário internacional, com a guerra no Oriente Médio, adicionou ainda mais pressão sobre as empresas, com aumento do dólar e do custo do combustível.

Em um ano eleitoral, os gastos do governo costumam aumentar, o que eleva o risco fiscal. Ou seja, a Selic, que mal começou a cair, pode ter um ciclo de cortes mais curto.

Os pedidos de renegociação de dívidas — e a pausa que as empresas ganham em seus compromissos — levam a um ciclo vicioso na economia. Suspensões de pagamentos para fornecedores, por exemplo, geram problemas em outras cadeias, o que pode aumentar ainda mais as dificuldades.

Ao fim do ano passado, o país tinha 5.680 empresas em recuperação judicial, segundo dados da consultoria RGF compilados com a Receita Federal, o que representa um crescimento de 7,5% em relação ao trimestre anterior e de 24,3% na comparação anual.

Desde que a RGF começou a acompanhar esse dado, em 2023, o número só vem aumentando. Esse cenário reflete, em grande medida, o impacto acumulado de um ciclo prolongado de custo financeiro caro para as empresas, diz a consultoria.

Apenas no agro, foram 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, 56,4% a mais que em 2024, segundo a Serasa, que não divulga o cenário geral desde o primeiro trimestre de 2025.

Pequenas e médias empresas seguem mais expostas, mas o cenário também afeta grupos de maior porte, especialmente aqueles que operam com maior endividamento e operações intensivas em capital.

Queda da Selic não faz nem cócegas no custo das empresas

Mesmo o início do ciclo de juros, com o corte da Selic em 0,25 ponto porcentual para 14,75% ao ano, não será capaz de mudar essa situação. “Ainda que a taxa caia a 12% ao ano, ainda é um custo financeiro alto. Enquanto a taxa não estiver abaixo de um dígito, as empresas terão dificuldades de se segurar”, afirma Rodrigo Gallegos, sócio da RGF.

“Se as grandes empresas já não estão aguentando a situação e pedindo recuperação, imagina as médias, que não têm o mesmo poder jurídico com advogados, força de ativos ou exposição”, diz ele.

Os setores de saúde, principalmente no meio hospitalar, agronegócio e do varejo estão entre os com mais problemas de liquidez. A construção civil também vem enfrentando dificuldades, por perder clientes que não conseguem mais arcar com a parcela do financiamento.

As empresas em dificuldades

Além do GPA e da Raízen, há diversas outras empresas na mesma situação. A Unigel, gigante petroquímica e de fertilizantes, também pediu recuperação judicial, com aprovação em outubro de 2025, com uma dívida declarada de cerca de R$ 5,4 bilhões.

Casas Bahia (BHIA3) também pediu recuperação extrajudicial, e Oi, Fictor (FICT3), Ambipar (AMBP3), Americanas (AMER3), Agrogalaxy (AGXY3), Dia e muitas outras foram pelo caminho judicial.

Há ainda outra ferramenta que as empresas podem usar: um pedido de tutela de urgência cautelar. É usada para avisar à Justiça que a empresa já está em negociações e evitar uma execução da dívida por 60 dias. Foi o mecanismo usado recentemente tanto pela Lupatech (LUPA3), fabricante para o setor de óleo e gás, quanto pela Alliança Saúde (AALR3).

As dificuldades do GPA e da Raízen

Entre GPA e Raízen, a varejista terá muito mais facilidade de emplacar a sua reestruturação. Isso porque a recuperação extrajudicial é uma conversa mais amigável com os credores, ainda sem um grande corte na dívida (haircut) ou outras intervenções.

E é mais fácil chamar para a mesa poucos credores que detenham uma participação importante na dívida, caso do GPA. Qualquer acordo fechado com esse grupo, contanto que represente mais de 50% da dívida, vale para todos os outros, no caso de uma recuperação extrajudicial.

No caso da Raízen, apenas 50% dos credores são do mercado financeiro, enquanto essa fatia é de 80% no GPA.

Ou seja, se algum credor financeiro da Raízen não topar os termos, a empresa precisa negociar com debenturistas, bondholders e detentores de de CRAs, que já perderam muito dinheiro com a companhia e não estão nada felizes, diz Max Mustrangi, sócio-fundador da Excellance, boutique de gestão especializada em recuperação da performance financeira.

Além disso, a conversão de dívidas em ações também não é uma solução favorável a essas pessoas. “Um debenturista ou bondholder já perdeu dinheiro com a Raízen e dificilmente irá querer entrar como sócio do negócio”, diz Mustrangi.

Como essas empresas chegaram até aqui

Os motivos que levaram as empresas a pedir socorro para a Justiça ou a renegociar com seus credores são inúmeros.

Porém, independentemente do tamanho da empresa em dificuldades e do seu setor, todas têm algo em comum: sofreram com uma alta taxa de juros, que encarece suas dívidas e corrói a geração de caixa.

“Há alguns anos, a dívida era barata para as empresas, que tomaram muito crédito para crescer, com aquisições, novas frentes e aberturas de pontos de venda. Mas esses investimentos não tiveram os retornos em fluxo de caixa esperados”, afirma Mustrangi.

“O dinheiro está caro, e há muito tempo. As taxas de juros estão destruindo as empresas”, diz Jacomassi, citando a compressão de margem e o aumento do custo financeiro das companhias.

Os juros altos pesam sobre decisões de investimento, expansões e aquisições que foram feitas lá atrás, em uma época de juros mais baixos. Foram empresas que se endividaram na época da pandemia, ou para manter o negócio funcionando ou porque encontraram oportunidades para crescer.

Como a maior parte das dívidas é atrelada ao CDI, essa conta foi ficando cada vez mais cara. Para empresas com uma situação financeira saudável, os empréstimos giram em torno de CDI mais 3% a 5%. Já para empresas estressadas, os juros podem ser de CDI + 15% ao ano.

“Que empresa consegue, depois de pagar todas as suas despesas, arcar com uma despesa financeira dessas, de quase 30% ao ano?”, declara Gallegos. Além disso, esse patamar impede investimentos novos. “A taxa de juros destrói a expansão da capacidade futura e desenvolvimento de vários setores”, afirma.

Empresas já vinham renegociando dívidas

As empresas já vêm tentando renegociar suas dívidas há um bom tempo, dizem os especialistas. No entanto, por já estarem com suas finanças sob estresse, o spread cobrado por bancos e fundos especializados em empresas em dificuldade é cada vez maior.

Ao alongar suas dívidas, também acabam tendo um custo maior no longo prazo. Por isso, fica cada vez mais difícil ter uma geração de caixa positiva.

Neste ano, aparece também uma novidade no setor: o refinanciamento do DIP (Debtor-in-Possession Financing), modalidade de crédito especial voltada para empresas em processo de recuperação judicial ou falência.

No caso de uma RJ, essa dívida tem preferência na fila de pagamentos em relação a outros credores. Segundo Jacomassi, a demanda para renegociar esse crédito vem aumentando.

Muitas têm optado por transformar parte das dívidas em ações. Assim, novos sócios entram na companhia nesse processo. É o caso da Azul, Casas Bahia, HyperaSequoia Logística, entre outras.

Para os especialistas ouvidos pelo Seu Dinheiro, essa é uma medida positiva para as empresas. Espera-se que as companhias tenham uma melhora na governança e na eficiência, já que o credor passa a olhar a empresa mais de perto, com exigências maiores.

No entanto, isso só funciona para empresas líquidas, em que o banco consegue vender essa participação com mais facilidade.