BTG vê avanço operacional e melhora financeira após Investor Day, mas mantém cautela com juros altos e estrutura de capital

A Casas Bahia (BHIA3) começa a dar sinais mais claros de uma virada de chave depois da crise nos últimos anos. Em relatório após o Investor Day da companhia, o BTG Pactual avalia que a empresa saiu do “modo sobrevivência” e entrou em uma trajetória mais construtiva, com progresso operacional e financeiro tangível.
Segundo o banco, a gestão classificou 2025 como um ano de inflexão, com melhora em crescimento, margens e geração de caixa, mesmo em um ambiente macro ainda complicado. O tom também chamou atenção: menos defensivo e mais voltado à aceleração, indicando uma mudança relevante na narrativa da companhia.
A virada de chave para a Casas Bahia
A Casas Bahia segue apoiada em uma base física robusta, com cerca de 2 mil lojas, 24 centros de distribuição e aproximadamente 29 milhões de clientes ativos, movimentando algo próximo de R$ 45 bilhões em volume geral de vendas.
Com esse tamanho todo, o segredo é buscar vendas em diversos canais. As lojas físicas continuam sendo um diferencial competitivo, sobretudo em categorias como eletrodomésticos, nas quais o atendimento assistido e o acesso ao crédito são determinantes para a conversão. Ao mesmo tempo, a companhia vem ampliando a participação do marketplace, modelo que depende menos de capital, o que reforça o equilíbrio da estratégia omnicanal.
“As lojas físicas continuam sendo uma vantagem competitiva central, particularmente em categorias como eletrodomésticos, onde vendas assistidas e penetração de crédito são críticas”, escreveram os analistas em relatório.
A participação de mercado é particularmente forte no Sudeste (cerca de 38–42%), enquanto ainda é fraca em regiões como o Norte (cerca de 9%), Sul (cerca de 9%) e Centro-Oeste (cerca de 17%), o que sugere oportunidades de expansão, diz o banco.
Mas é no balanço que está uma das mudanças mais relevantes. O BTG destaca uma transformação estrutural recente, com iniciativas que incluem a conversão de cerca de R$ 3 bilhões em dívida, a criação de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) de crediário e uma estrutura para financiamento a fornecedores via risco sacado.
Essas medidas devem gerar uma economia estimada de aproximadamente R$ 2,8 bilhões em despesas financeiras ao longo de cinco anos, impulsionada pela redução do custo de funding e pelo alongamento do perfil da dívida, o que reduz a pressão no curto prazo.
“Por exemplo, os custos de financiamento de crediário caíram de cerca de 150% do CDI para cerca de 125%, enquanto eficiências adicionais foram alcançadas no pré-pagamento de cartões de crédito e financiamento a fornecedores”, diz o relatório.
Outro pilar relevante segue sendo o crédito ao consumidor, historicamente uma das principais alavancas da companhia. Em um ambiente de juros elevados e renda pressionada, categorias como eletrodomésticos continuam dependentes de financiamento parcelado.
Nos últimos 12 meses, a Casas Bahia originou cerca de R$ 10 bilhões em crediário, apoiada por melhorias na análise de risco e no uso de dados. A criação do FIDC de crediário reforça essa estratégia ao aumentar a eficiência e a escalabilidade do modelo.
Além disso, a companhia tem avançado na venda de ativos e na geração de caixa, com iniciativas como recuperação de depósitos judiciais e monetização de créditos tributários, combinadas a uma gestão mais rigorosa de capital de giro e custos.
A evolução da estratégia operacional da Casas Bahia
O relatório também chama atenção para a evolução da estratégia operacional, que passou por três fases. Após um período focado na preservação de caixa e corte de custos, seguido por investimentos seletivos, a companhia agora entra em uma fase de aceleração, para destravar crescimento, ainda que mantendo disciplina financeira.
Na estratégia, a Casas Bahia tem reforçado o foco no core, concentrando cerca de 96% da operação em categorias principais, ao mesmo tempo em que escala o marketplace e busca novas alavancas de valor.
A ambição de se consolidar como o principal varejista de eletrônicos no modelo 1P no Brasil segue no radar, apoiada pela integração entre canais físicos e digitais e por parcerias.
Meses depois de anunciar uma parceria de venda de produtos dentro do Mercado Livre, a Casas Bahia (BHIA3) agora tem o reforço de um outro gigante do marketplace: a Amazon.
Segundo Renato Franklin, CEO da Casas Bahia, a entrada da Casas Bahia na Amazon é mais um passo na “construção do maior player 1P omnicanal do Brasil”. A varejista está oferecendo seus principais produtos — eletrodomésticos, eletrônicos e móveis — no marketplace.
“Embora o cenário macroeconômico continue desafiador, a administração está adotando uma postura mais construtiva, tomando decisões voltadas para desbloquear o crescimento em vez de apenas preservar capital”, diz o time de análise do BTG.
O que fazer com as ações?
Apesar dos avanços, o BTG mantém uma leitura cautelosa. O banco reconhece a melhora nos indicadores operacionais e na eficiência de custos, mas avalia que o cenário de juros elevados e a competição acirrada continuam sendo obstáculos relevantes no curto prazo. Além disso, a estrutura de capital ainda segue no radar como um ponto de atenção para a tese.
A recomendação, portanto, permanece neutra. Na prática, a leitura é de que a Casas Bahia já deixou para trás o momento mais crítico, mas ainda precisa demonstrar consistência para sustentar uma recuperação mais robusta ao longo do tempo.