Pressão sobre margens, desafios na precificação, complexidade na gestão multicanal e maior exigência por dados integrados. Esses são alguns dos principais pontos de atenção para o varejo brasileiro diante da implementação da Reforma Tributária.
O setor, que já opera com margens apertadas e sob pressão de custos, tem pouco espaço para falhas operacionais ou tributárias, o que amplia a necessidade de planejamento, simulações fiscais e revisão de processos internos, imediatamente.
O período de transição começou neste ano e se estenderá até 2033, quando todas as regras do novo modelo estarão totalmente implementadas. Até lá, as empresas terão de conviver com dois modelos tributários simultaneamente, o atual e o novo, o que aumenta a complexidade operacional.
“Essa mudança não é apenas regulatória. Ela impacta dados, tecnologia, arquitetura sistêmica, produtividade e governança, e exige um olhar orientado ao futuro”, diz Ana Anaia, Presales Tax Manager na Thomson Reuters.
A reforma vai inaugurar um modelo baseado em IVA, substituindo ICMS, ISS, PIS, Cofins e IPI por IBS e CBS. A transição exigirá das empresas adaptações imediatas em sistemas, cadastros e processos internos. A primeira grande mudança vai ocorrer em janeiro de 2027, quando entram em vigor novas regras para PIS e Cofins.
“Não dá para esperar ou deixar para depois. Este ano de transição deve ser usado para fazer ajustes, integrar as equipes e buscar soluções que, muitas vezes, não estão apenas dentro de casa”, afirma Edinilson Apolinário, Corporates Director LatAm & Tax Reform Leader na Thomson Reuters.
Varejo terá de rever sistemas e contratos
Entre os principais desafios estão a necessidade de revisar estratégias de preço, lidar com uma maior complexidade na gestão de operações multicanais e garantir dados consistentes ao longo de toda a cadeia de vendas.
“O aumento de volumetria também é um ponto de atenção. Com isso, vão surgir novas emissões, maior exigência de consistência de dados e integração com sistemas mais complexos”, afirma Francisco Ritondaro, CEO da Gouvêa Malls.
Outro desafio importante envolve a cadeia de fornecedores. Mesmo empresas que estejam preparadas internamente podem enfrentar dificuldades se parceiros comerciais não estiverem adaptados ao novo modelo.
“Diversos clientes nos procuraram para trabalhar no processo de capacitação, no entendimento de onde a empresa seria impactada e como ela precisaria estar preparada”, afirma Apolinário.
Isso inclui desde ajustes em sistemas até mudanças na forma como contratos são estruturados. Com a reforma, empresas tendem a revisar contratos com fornecedores, parceiros logísticos e prestadores de serviço, para alinhar responsabilidades tributárias e evitar riscos futuros.
A necessidade de adaptação tecnológica também exige uma revisão da forma como as empresas estruturam suas operações, especialmente com o uso de soluções em nuvem. “Eu diria que trabalhar em nuvem é um grande diferencial. Quando bem implementada, ela traz escalabilidade e permite reagir mais rápido às mudanças”, diz Ritondaro.
Empresas em estágios diferentes de preparação
Uma pesquisa do Thomson Reuters Institute, realizada em 2025, mostra que o nível de preparação das empresas para a Reforma Tributária ainda é desigual.
Cerca de 35% das companhias estavam em estágio avançado de adaptação, já participando de programas piloto e avaliando os impactos financeiros da mudança. Outros 33% se encontravam em estágio intermediário, enquanto 25% ainda adotavam uma postura mais passiva, apenas acompanhando a evolução da legislação.
Segundo Apolinário, esse atraso pode se tornar um problema à medida que os prazos se aproximam.
“As empresas precisam olhar agora para como vão atravessar a virada de 2027. A tecnologia será fundamental para automatizar processos, reduzir riscos e permitir que essa transição aconteça dentro do prazo, considerando o tempo de implementação das soluções escolhidas”, afirma.