Nos últimos meses, três temas passaram a ocupar espaço constante nas reuniões de executivos do varejo: a reforma tributária, a revisão da escala 6×1 e novas regulamentações trabalhistas como a NR-1. Cada um deles traz impactos diferentes – fiscais, trabalhistas e operacionais –, mas todos têm algo em comum: exigem uma mudança de mentalidade na forma como os negócios são geridos no dia a dia.
Muitos varejistas têm reagido a essas transformações com preocupação. E é compreensível. Mudanças regulatórias costumam gerar insegurança, dúvidas jurídicas e, principalmente, impactos na operação. Mas há uma diferença importante entre empresas que sofrem com mudanças regulatórias e aquelas que usam essas mudanças como oportunidade para evoluir a gestão.
O ponto central não está apenas em entender a legislação. Está em revisar práticas, rotinas e hábitos de gestão que muitas vezes já estavam ultrapassados.
Para te ajudar a encarar a questão com mais leveza, direcionamento, propósito e pratricidade, listei algumas ações práticas que podem auxiliar o varejista a lidar melhor com esse novo cenário, adotando uma nova perspectiva e transformando o desafio em oportunidade. Vamos lá:á!
Transforme mudanças legais em agenda estratégica, não apenas jurídica
Um erro comum nas empresas é tratar temas como reforma tributária ou novas regras trabalhistas exclusivamente dentro do departamento jurídico ou contábil. No varejo, isso não funciona.
Essas mudanças impactam diretamente os indicadores e a gestão de vendas do negócio. Você vai precisar repensar todo o seu sistema de precificação e de markup, a avaliação de margem, as escalas de trabalho, a produtividade da loja, a jornada dos colaboradores e o planejamento operacional, só para mencionar algumas frentes.
Por isso, a primeira atitude gerencial importante é trazer esses temas para a mesa da liderança operacional. Uma prática simples e eficiente é criar um pequeno comitê interno de adaptação regulatória, envolvendo todas as áreas impactadas por esse processo, como as financeira, RH, operações, comercial e jurídica.
O objetivo não é discutir leis, mas responder perguntas práticas como:
- Como isso muda nossa operação de loja?
- O que precisa ser ajustado na rotina?
- Que indicadores precisamos acompanhar?
- Como vamos nos planejar para suprir impactos financeiros de forma prática, no dia a dia do negócio?
Quando a gestão assume protagonismo nesse debate, as decisões passam a ser mais rápidas e alinhadas com a realidade da operação. E é isso que vai te fazer ganhar o jogo.
Revisite a produtividade das equipes antes de discutir aumento de quadro
Mudanças na escala de trabalho, como as discussões sobre o modelo 6×1, costumam gerar preocupação imediata com o aumento de custos de pessoal. Mas, antes de partir para essa conclusão, existe uma pergunta essencial: a produtividade atual da loja está sendo bem utilizada?
Em muitos casos, o problema não é a escala, mas a forma como o tempo das equipes é usado. Algumas ações simples ajudam muito nesse diagnóstico:
- Mapear horários de maior fluxo de clientes;
- Ajustar escalas com base em dados de venda por hora;
- Eliminar tarefas operacionais desnecessárias;
- Redistribuir atividades entre equipe de vendas e suporte.
Muitas operações ainda funcionam com escalas definidas por hábito, e não por análise de demanda. Já passou da hora de abrir mão do “aqui sempre fizemos assim”. O que te trouxe até aqui não é o que vai te levar adiante. O mundo mudou e, com ele, mudaram as relações pessoais e no trabalho, os hábitos de consumo e a forma atender e entender o cliente. Quem já entendeu que inovar está em olhar os detalhes e pensar o que pode ser feito melhor, mais rápido e diferente vai sofrer menos no processo.
Quando a empresa passa a organizar as jornadas com base em dados reais de fluxo e conversão, os ganhos de produtividade compensam boa parte do impacto das mudanças trabalhistas.
Simplifique processos para reduzir pressão operacional
Mudanças regulatórias costumam aumentar a complexidade administrativa. Se a empresa não revisa seus processos, há o risco é de a operação se tornar cada vez mais pesada.
Uma pergunta simples ajuda muito nesse momento: auais atividades da loja realmente geram valor para o cliente? Tudo o que não gera valor precisa ser revisto. Alguns exemplos práticos:
- Digitalizar checklists operacionais;
- Automatizar controles administrativos;
- Reduzir relatórios que ninguém usa;
- Centralizar tarefas burocráticas fora da loja.
Cada processo simplificado significa mais tempo para vender, atender e gerar resultado. Muitos procedimentos são mantidos por “apego emocional” ou por falta de questionamento sobre o que, de fato, seria mais produtivo.
O processo de transformação e implementação pode até levar um tempo considerado longo, mas a ideia é que, uma vez consolidado, gere aumento de produtividade. Se você não dedicar um tempo para resolver esse problema agora, ele irá se agravar e o preço a ser cobrado pode ser alto ou tarde demais. Não adie decisões que podem trazer aumento de performance, receita, produtividade e resultados. São pontos essenciais que não devem ser avaliados de forma isolada.
Em um cenário de novas exigências legais, a eficiência operacional deixa de ser apenas uma vantagem competitiva e passa a ser uma condição de sobrevivência.
Invista mais na formação dos líderes de loja
Outro impacto indireto dessas mudanças regulatórias está na responsabilidade gerencial dentro das lojas. Gerentes e supervisores passam a lidar com temas cada vez mais complexos, como gestão de jornada, compliance trabalhista, controle de indicadores de produtividade e organização da equipe.
Se esses líderes não estiverem preparados, a empresa corre o risco de enfrentar problemas operacionais, conflitos internos e até passivos trabalhistas. Por isso, um dos investimentos mais inteligentes neste momento é fortalecer a formação gerencial da linha de frente. Isso inclui desenvolver competências como gestão de indicadores, organização de escalas, liderança de equipes multigeracionais e tomada de decisões baseadas em dados.
Quando o líder de loja ganha maturidade de gestão, a implementação de qualquer mudança se torna muito mais fluida.
Fortaleça a cultura de adaptação contínua
O varejo sempre foi um setor de mudanças rápidas. Tecnologia, comportamento do consumidor e novos modelos de negócio já exigiam adaptação constante. Agora, as transformações regulatórias passam a fazer parte desse cenário de forma mais intensa.
Empresas que conseguem atravessar esses momentos com mais tranquilidade são aquelas que desenvolveram uma cultura baseada em três pilares:
- Aprendizado contínuo;
- Processos bem definidos;
- Lideranças preparadas.
Negócios que operam apenas com base no improviso tendem a sofrer mais quando o ambiente externo muda. Já organizações com disciplina de gestão conseguem transformar mudanças em evolução.
O varejo sempre evolui na pressão
A história do varejo mostra algo curioso: muitas das evoluções mais importantes do setor surgiram justamente em momentos de pressão. Foi assim com a digitalização, com o omnichannel e com novas formas de gestão das lojas.
Agora, diante de mudanças como a reforma tributária, debates sobre jornada de trabalho e novas regulamentações, o setor tem novamente a oportunidade de revisar práticas antigas e construir operações mais eficientes.
Mais do que entender leis, o desafio está em aprimorar a forma de gerir pessoas, processos e resultados. E, no varejo, quem aprende a evoluir em meio às mudanças costuma sair mais forte do outro lado.