
Logo do grupo GPA (Crédito: GPA/Divulgação)
11/03/2026 – 7:00
A recuperação extrajudicial anunciada pelo GPA na terça-feira, 10, busca resolver uma crise já acompanhada pelos investidores nos balanços financeiros dos últimos anos. Apenas no 4º trimestre de 2025, foram fechadas 11 lojas do grupo. Desde 2023, 39 unidades deixaram de operar, reduzindo a rede de 767 para 728 lojas. Os números referem-se à soma das quatro bandeiras do grupo: Extra, Mini Extra, Pão de Açúcar e Minuto Pão de Açúcar.
A diminuição da operação é apenas parte dos problemas acumulados pela empresa. Especialistas ouvidos pela IstoÉ Dinheiro apontam que o GPA enfrenta dificuldade para se adaptar em um cenário de grande competitividade no setor do varejo alimentar, com a ascensão dos atacarejos, como Atacadão, Assaí Atacadista e Grupo Mateus.
O cenário de grande concorrência forçou uma redução de margens de lucros. Ao mesmo tempo, a alta dos juros impulsionou o crescimento do endividamento da empresa. O passivo apresentado para a recuperação extrajudicial soma um total de R$ 4,5 bilhões em dívidas.
“Quando uma companhia de varejo alimentar, que tradicionalmente trabalha com margens apertadas, passa a carregar esse nível de alavancagem, o impacto no fluxo de caixa se torna imediato e limita capacidade de investimento e expansão”, afirma o CEO da MA7 Negócios, André Matos.
Na divulgação do balanço mais recente, o presidente do GPA anunciou que a empresa tiraria o foco de sua expansão provisoriamente para focar na melhoria das contas.
O grupo emprega 37 mil colaboradores direitos, além de e outros 10 mil temporários e terceirizados. Atualmente, cerca de 75% das vendas são provenientes do Estado de São Paulo, onde estão 630 das lojas do grupo.
O tamanho atual do GPA:
- Pão de Açúcar: 187 lojas
- Extra Mercado: 166 lojas
- Mini Extra: 155 lojas
- Mini Pão de Açúcar: 222 lojas

Vale lembrar que o grupo já tinha iniciado uma reestruturação em 2021, quando encerrou a operação de hipermercados Extra com o fechamento das 100 lojas, que foram vendidas, convertidas em “Pão de Açúcar” ou fechadas em definitivo.
Plano de recuperação extrajudicial
Em fato relevante, o GPA informou que tem apoio de mais de um terço dos seus credores para suspender pagamentos por 90 dias enquanto estrutura um plano de desalavancagem da empresa.
Segundo a empresa, fornecedores e funcionários não serão afetados, já que os débitos concentram-se em instituições financeiras.
Segundo o GPA, o plano de recuperação extrajudicial abrange obrigações financeiras “sem garantia” que não constituem compromissos correntes ou operacionais da companhia. o processo não inclui passivos trabalhistas ou tributários e que não tem relação com discussões antigas envolvendo a operação do Assaí.
O diretor financeiro do GPA, Pedro Albuquerque, que assumiu o cargo na semana passada, afirmou que parte do passivo inclui vencimentos de curto prazo. Segundo ele, cerca de R$ 500 milhões vencem em maio, enquanto entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,3 bilhão têm vencimento previsto para julho.
No entanto, as dívidas são apenas parte do problema da empresa. “Uma simples renegociação ou reperfilamento de dívidas não é suficiente. Mesmo tendo sucesso nesse plano atual, a operação do GPA precisa se tornar mais rentável, sob risco de os problemas financeiros voltarem logo ali na frente”, comenta o especialista em investimentos Ramiro Gomes Ferreira, sócio fundador do Clube do Valor.
Para superar a crise de fato, a companhia precisa encontrar formas de reposicionar suas bandeiras e recuperar rentabilidade das lojas. “Caso contrário, o risco é apenas postergar o problema”, adverte Matos.
Tamanho da crise
Em 2024 e 2025, a companhia direcionou mais de R$ 3,3 bilhões somente para o pagamento de despesas financeiras.
Em 2025, o faturamento do GPA chegou a R$ 20,6 bilhões, mas companhia registrou um prejuízo líquido das operações continuadas de cerca de R$ 651 milhões, encerrando o exercício com uma dívida líquida de R$ 2 bilhões, enquanto a dívida bruta total somava R$ 4 bilhões.
As ações do GPA acumulam queda de mais de 32% em 2026. Em cinco anos, a desvalorização chega a 87%.
Para o analista da Ouro Preto Investimentos, Sidney Lima, o naufrágio da ação indica uma deterioração da confiança dos investidores. “Isso significa aumento do risco de diluição futura, possível alongamento agressivo de passivos e maior incerteza sobre geração de caixa no curto prazo”, conclui.
Além dos problemas financeiros, o GPA passou por mudanças relevantes no ano passado, com o Grupo Coelho Diniz assumindo em agosto do ano passado como principal acionista (24,6%). Outrora controlador, o francês Casino ainda detém uma fatia de 22,5%.
Em outubro, o empresário André Coelho Diniz foi eleito presidente do conselho de administração. Na sequência, o presidente-executivo, Marcelo Pimentel, que estava no cargo desde 2022, renunciou. No começo de 2026, Alexandre de Jesus Santoro foi eleito como diretor-presidente da companhia.
No último balanço, o parecer de auditor destacou “incerteza relevante relacionada com a continuidade operacional”, citando um capital circulante líquido consolidado negativo de R$ 1,2 bilhão, decorrente principalmente de empréstimos e financiamentos de R$ 1,7 bilhão com vencimentos ao longo de 2026.
Com o pedido de homologação do plano de recuperação judicial, a empresa terá um período de 90 dias para avançar nas negociações com os credores, durante o qual as obrigações com os credores afetados ficam suspensas.
“O processo foi estruturado de modo a preservar a operação de suas lojas, que deverão seguir funcionando normalmente. Suas operações são saudáveis, e a Companhia está em dia com suas obrigações junto a fornecedores, clientes e parceiros, os quais estão excluídos e não serão afetados pelo processo de recuperação extrajudicial”, disse o GPA, em fato relevante.