Veículo: O Globo
Clique aqui para ler a notícia na fonte
Região:
Estado:
Alcance:

Data: 10/03/2026

Editoria: Sem categoria
Assuntos:

Dona do supermercado Pão de Açúcar fecha acordo para recuperação extrajudicial

Por João Sorima Neto — Rio de Janeiro e São Paulo

10/03/2026 09h01  Atualizado agora

A Companhia Brasileira de Distribuição (GPA), dona do supermercado Pão de Açúcar, informou nesta terça-feira ter fechado acordo com credores para apresentar um plano de recuperação extrajudicial. De acordo com o comunicado, o plano abrange dívida sem garantia de aproximadamente R$ 4,5 bilhões. Ficam de fora fornecedores, parceiros, clientes e trabalhadores. Ou seja, esses grupos não serão afetados pelo plano.

Após a notícia, as ações do GPA abriram em queda de 8,8%. Poucos minutos depois, a desvalorização cedeu para em torno de 4%, segundo maior recuo do Ibovespa nesta manhã. No ano, os papeis acumulam desvalorização de cerca de 30%.

A recuperação extrajudicial, como o próprio nome diz, não precisa de aval da Justiça. Ela é negociada diretamente com os credores e visa a reestruturar a dívida de uma empresa. A companhia suspende o pagamento dos débitos por um tempo para ganhar fôlego e manter as operações.

O plano foi firmado com credores que detêm 46% dos R$ 4,5 bilhões. O percentual mínimo legal para aprovação da reestruturação é de um terço dos créditos afetados.

“O plano tem efeitos imediatos, prevê a suspensão das obrigações da companhia junto aos credores afetados e cria um ambiente seguro e estável para a continuidade das negociações por 90 dias”, disse o GPA em nota.

Ao longo desse período, o grupo vai buscar o apoio do restante dos credores e “espera chegar a uma solução estruturada que resolva simultaneamente a liquidez de curto prazo e a sustentabilidade financeira de longo prazo”.

Aumento de capital

O GPA tem dívidas de R$ 1,7 bilhão (sem contar juros e outras amortizações) vencendo este ano e um capital circulante negativo de R$ 1,22 bilhão. Isso sinaliza que a empresa, além de renegociar com os credores, terá que buscar empréstimos, fazer aumento de capital ou vender mais ativos, além de buscar a adesalavancagem, segundo analistas.

De acordo com a empresa, o plano de recuperação representa “um passo importante” para fortalecer o balanço, melhorar o perfil do endividamento e posicionar a companhia para o futuro”.

GPA, gigante de supermercados brasileira, é dona do Pão de Açúcar e do Extra — Foto: Tuane Fernandes/Bloomberg
GPA, gigante de supermercados brasileira, é dona do Pão de Açúcar e do Extra — Foto: Tuane Fernandes/Bloomberg

O comunicado diz que não há mudanças na operação das lojas, que deverão seguir funcionando normalmente. O GPA informou ainda está em dia com suas obrigações junto a fornecedores, clientes e parceiros. Fundada em 1948 e presente em todo o território nacional, o grupo tem mais de 728 lojas e 37 mil colaboradores diretos.

Segundo o fato relevante, a decisão teve autorização unânime do Conselho de Administração da empresa. O documento é assinado por Pedro Vieira Lima de Albuquerque, vice-presidente de Finanças e diretor de Relações com Investidores.

Para Júlio Moret, CEO da Neot, empresa de tecnologia que oferece soluções digitais e inteligência artificial para gestão de recuperações judiciais e falências, a situação atual do GPA é fruto de três fatores. O primeiro, e mais estrutural, é o ambiente macroeconômico adverso.

Com a taxa Selic a 15% ao ano, as despesas financeiras da companhia saltaram de R$ 580 milhões em 2021 para R$ 1,679 bilhão em 2025, consumindo boa parte da geração de caixa operacional, que ficou em apenas R$ 699 milhões no último exercício.

— O segundo fator é a concentração de vencimentos relevantes no curto prazo, com um passivo de R$ 4,5 bilhões e obrigações que chegam a R$ 2,1 bilhões em 2026, considerando dívidas, juros e penalidades contratuais — explica Moret.

Além disso, uma sentença arbitral, proferida em dezembro de 2025, condenou a empresa ao pagamento de R$ 170 milhões ao Grupo Casas Bahia, com prazo de cumprimento até 11 de março de 2026. A companhia declarou expressamente não ter condições de honrar esse pagamento sem comprometer suas operações.

O plano de recuperação extrajudicial abrange todos os créditos quirografários (sem garantia) não decorrentes de operações correntes com fornecedores, locadores ou prestadores de serviço. Isso sinaliza, segundo Moret, que o dia adia da empresa não será afetado.

Os principais credores incluem o Itaú Unibanco (titular de debêntures da 20ª emissão, com saldo de R$ 707,7 milhões), o banco holandês Rabobank (com dois contratos em euro que somam aproximadamente R$ 917 milhões em R$), a Vórtx como agente fiduciário das debêntures da 18ª emissão (R$ 994,7 milhões), o BTG Pactual (R$ 225,7 milhões), o HSBC (R$ 206,3 milhões) e a Pentágono como agente fiduciário de CRIs totalizando R$ 563,8 milhões.

Credores como a Vórtx, o Itaú Unibanco Asset Management e a Pentágono ainda não haviam aderido o acordo, e sua participação será determinante para que o GPA atinja o quórum de maioria absoluta no prazo de 90 dias.

— Chama atenção que os credores são exclusivamente instituições financeiras de grande porte — Itaú Unibanco, Rabobank, BTG Pactual e HSBC —, o que reflete o perfil predominantemente bancário e de mercado de capitais da dívida a ser reestruturada — avalia Moret.

A opção pela recuperação extrajudicial em vez da recuperação judicial mostra que o desenho da reestruturação está maduro, diz o especialista. Ele explica que a recuperação extrajudicial oferece uma série de vantagens práticas para uma empresa do porte e do perfil do GPA. Primeiro, ela afeta apenas os credores sujeitos ao plano sem arrastar para o processo os fornecedores e demais parceiros comerciais correntes. Isso preserva as relações operacionais da companhia e reduz o risco de ruptura na cadeia de abastecimento — algo absolutamente crítico para um varejista de alimentos com mais de 3 mil fornecedores.

E a recuperação extrajudicial tem um impacto reputacional significativamente menor do que a judicial, já que envolve um administrador judicial, assembleia geral de credores, o que tende a gerar maior incerteza no mercado, impactar contratos com cláusulas de vencimento antecipado e dificultar o acesso a novas linhas de crédito.

Incerteza sobre a continuidade da operação

No início do mês, a empresa já tinha comunicado ao mercado que se encontrava “em negociações construtivas com determinados credores para repactuação de dívidas financeiras e outras obrigações de curto prazo não relacionadas à operação”. O Pão de Açúcar contratou o escritório de advocacia Munhoz Advogados, especializado em reestruturação de dívidas para assessorar o processo.

Varejistas do país têm sido impactados com as altas taxas de juros e o endividamento. O GPA vem enfrentando dificuldades para reestruturar seu principal negócio de alimentos, segundo informou em fevereiro, durante a divulgação de seu balanço de 2025.

Na época, o grupo informou nas notas explicativas do balanço que há “condições (que) indicam a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia”.

O GPA também vem renegociando contratos com credores, freando investimentos e até mesmo se desfazendo de imóveis entre as estratégias para buscar o reequlíbrio financeiro.

Dificuldades desde 2001

O Grupo Pão de Açúcar vem passando por um processo de reestruturação desde 2021, focado em vender ativos não essenciais, para reduzir seu endividamento e simplificar a operação.

Vendeu 71 pontos comerciais do Extra para o Assaí, sua participação no Grupo Éxito, da Colômbia, e se desfez de imóveis e postos de combustível, arrecadando mais de R$ 1,5 bilhão neste processo.

No entanto, o desinvestimento não foi suficiente para tirar a empresa da crise. Para os analistas da XP Investimentos, o GPA não resolveu seu principal gargalo, que é a geração de caixa após o pagamento dos custos financeiros. Daí o caminho da recuperação extrajudicial.