- Julia Fregonese
- março 9, 2026
Apesar do avanço acelerado do comércio eletrônico nos últimos anos, a categoria de alimentos continua sendo uma das menos digitalizadas do varejo nacional. Estimativas do Mercado Livre indicam que apenas cerca de 3% das compras de alimentos foram realizadas online em 2025 – um número pequeno diante do tamanho do mercado. É justamente nesse espaço que nasce a parceria entre o Assaí Atacadista e o Mercado Livre.
A iniciativa marca a entrada do Assaí no marketplace da plataforma no modelo de fulfillment. O início das vendas está previsto para o segundo trimestre de 2026, começando pela região Sudeste e com expansão nacional até o fim do ano.
Mais do que abrir um novo canal de vendas, o movimento indica uma mudança mais profunda: o encontro entre dois modelos de negócio que, até pouco tempo, operavam em lógicas bastante distintas. De um lado, o atacarejo, conhecido por eficiência operacional e preço baixo. Do outro, o marketplace, impulsionado por logística avançada, dados e experiência digital.
A pergunta que surge é inevitável: o que acontece quando esses dois mundos se encontram?
A nova fronteira do e-commerce alimentar
A parceria entre Assaí e Mercado Livre acontece em um momento estratégico para ambas as empresas e para o próprio varejo alimentar brasileiro.
Para o Mercado Livre, trata-se de acelerar sua presença na categoria de alimentos e bebidas, um segmento essencial para compras recorrentes, mas que ainda possui baixa penetração no e-commerce. Para o Assaí, o marketplace surge como uma forma de ampliar alcance e acompanhar as novas jornadas de consumo.
Na prática, o consumidor poderá comprar produtos do Assaí dentro do próprio marketplace do Mercado Livre, compondo um único carrinho com itens de diferentes vendedores e categorias. A infraestrutura logística da plataforma ficará responsável pela armazenagem, separação, preparação e entrega dos pedidos.
O modelo adotado será o fulfillment. Nele, o Assaí envia os produtos para os centros de distribuição do Mercado Livre, que assume toda a operação logística até a entrega ao cliente final.
O mix inicial prioriza categorias não perecíveis, como mercearia seca, limpeza, bebidas e alguns itens não alimentares. São produtos com maior recorrência de compra e maior tíquete médio.
Além do canal de vendas, a parceria inclui ainda uma frente B2B. As 312 lojas do Assaí em todo o Brasil poderão utilizar o Mercado Livre Negócios para aquisição de suprimentos e insumos operacionais.
Do crescimento físico ao ecossistema digital

Foto: Germano Lüders.
Para o Assaí, a entrada no marketplace acontece em um momento de transição estratégica.
Após um ciclo intenso de expansão física – com 140 aberturas de lojas nos últimos cinco anos – a companhia passa agora a explorar novas avenidas de crescimento. Entre elas, os canais digitais.
“A parceria com o Mercado Livre faz parte de uma evolução da jornada de serviços que temos oferecido no Assaí”, afirma Julio Gentilim, diretor-executivo de Planejamento Estratégico e Digital do Assaí.
Segundo o executivo, o movimento está conectado à criação do Assaí Digital.
“Esse ecossistema reúne frentes complementares: as parcerias de last mile, como iFood e Rappi; o marketplace, com a entrada no Mercado Livre; e o desenvolvimento das nossas plataformas próprias de relacionamento com o cliente, como o App Meu Assaí, que já conta com mais de 16 milhões de clientes.”
A lógica é clara: partir da força das lojas físicas para acompanhar o consumidor em diferentes jornadas de compra.
“O Assaí Digital permite acompanhar o cliente nas diferentes formas como ele decide comprar, ampliando conveniência e frequência de relacionamento”, explica Gentilim.
O desafio de levar o atacarejo para o digital
Levar o atacarejo para o ambiente digital, no entanto, não é uma tarefa trivial.
Historicamente, o modelo se construiu sobre pilares muito claros: eficiência operacional, escala e preços baixos. No e-commerce, porém, entram novas variáveis – como custos logísticos, comissões de marketplace e complexidade operacional.
Para Gentilim, a chave está em preservar a vantagem estrutural do modelo.
“O digital possui uma lógica própria de precificação, considerando comissões e custos logísticos. Ainda assim, nossa vantagem estrutural permanece: operamos com um modelo altamente eficiente e com uma estrutura de custos enxuta.”
Segundo ele, o objetivo é levar para o digital as mesmas fortalezas que sustentam o negócio no mundo físico.
“Preço competitivo continuará sendo nosso diferencial, independentemente do canal escolhido pelo cliente.”
Last mile como extensão da loja
A parceria do Assaí com o iFood também foi ampliada. Desde janeiro, a rede passou a oferecer a opção de compras com entrega em casa em mais 50 lojas, elevando para 104 unidades a presença do Assaí na plataforma. O número é equivalente a cerca de um terço do parque de lojas da companhia.
A expansão contempla unidades nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Minas Gerais, Paraíba, Pará, Piauí, Paraná, Maranhão, Mato Grosso, Alagoas e o Distrito Federal. A estratégia reforça o papel do delivery como complemento à operação física, transformando as lojas em hubs de atendimento multicanal.
Segundo o Assaí, o modelo combina a infraestrutura física da rede com a expertise logística do iFood, ampliando a conveniência para o consumidor sem abrir mão da disciplina operacional. O resultado já começa a aparecer nos números: no quarto trimestre de 2025, as vendas via iFood cresceram mais de 60% em comparação ao mesmo período de 2024.
Hoje, o canal representa cerca de 3% do faturamento das lojas físicas, consolidando-se como uma alavanca relevante para atender diferentes momentos de consumo. Especialmente aqueles em que o cliente precisa de uma reposição rápida e não pode ir até a loja.
“Estruturamos a parceria como uma extensão natural da nossa operação física. A loja segue como principal ponto de relacionamento com o cliente, e o digital vem para ampliar conveniência, flexibilidade e recorrência de compra”, afirma Julio.
Evolução do modelo operacional do varejo
Segundo o executivo, a expansão do delivery também contribui para a produtividade das unidades e para a evolução do modelo operacional da companhia.
Para o iFood, o movimento também evidencia o potencial da integração entre capilaridade física do varejo alimentar e infraestrutura digital de logística.
“A parceria com a rede Assaí é um exemplo de como nossa tecnologia e a proximidade física dos consumidores podem transformar a experiência de compra”, afirma Murilo Massari, diretor Comercial para Mercado & Atacado do iFood. “Ao integrar mais lojas do Assaí à plataforma, ampliamos a conveniência e estamos presentes quando e onde o consumidor precisa.”
Na prática, a expansão do delivery reforça que a jornada do consumidor deixou de ser linear.
O consumidor mudou – e a jornada também
Com juros elevados, maior endividamento das famílias e um ambiente econômico mais pressionado, o consumidor brasileiro tornou-se mais seletivo e racional nas compras.
“O consumidor está mais atento ao preço – e esse sempre foi o território natural do Assaí”, afirma Gentilim.
Ao mesmo tempo, as jornadas de compra ficaram menos lineares. Um mesmo consumidor pode alternar entre diferentes canais dependendo da necessidade.
“Hoje, existem momentos diferentes de consumo: a compra maior na loja física, a reposição rápida via last mile ou a compra planejada em um marketplace.”
Nesse contexto, o papel do digital é ampliar a presença da marca nesses diferentes momentos.
“Queremos que o cliente escolha o Assaí onde for mais conveniente para ele – na loja, no delivery ou no marketplace.”
Dados, recorrência e novas oportunidades
Outro efeito importante dessa estratégia está no uso de dados.
Ao expandir sua presença em diferentes canais digitais, o Assaí passa a ter uma visão mais completa do comportamento de compra dos consumidores. Algo essencial para evoluir sortimento, precificação e serviços.
“À medida que ampliamos nossa presença em diferentes canais, também fortalecemos o relacionamento com o cliente por meio das nossas plataformas digitais”, explica Gentilim.
Esse conhecimento abre espaço, inclusive, para novas frentes estratégicas.
“Esse entendimento mais profundo do comportamento do consumidor também cria oportunidades para iniciativas de retail media, conectando ainda mais a indústria às jornadas de consumo dentro do nosso ecossistema.”
O futuro do atacarejo é híbrido
Se por muitos anos o crescimento do atacarejo esteve ligado principalmente à expansão de lojas físicas, o movimento atual aponta para um novo modelo: mais híbrido, integrado e orientado por dados.
Para o Assaí, a parceria com o Mercado Livre é apenas uma das peças desse quebra-cabeça.
Em 2026, a companhia também aposta em outras frentes para ampliar sua relevância na vida do consumidor, como marcas próprias, serviços financeiros e a entrada no segmento de farmácias.
“Seguiremos fiéis à nossa essência – preço competitivo, eficiência operacional e foco no cliente – enquanto construímos um modelo cada vez mais integrado e preparado para o futuro do varejo”, afirma Gentilim. “Essas iniciativas ampliam a relevância do Assaí no dia a dia do consumidor e reforçam o relacionamento com o cliente. Nesse contexto, o Assaí Digital funciona como um amplificador desse ecossistema, conectando produtos, serviços e canais dentro de uma jornada integrada.”
No fim das contas, o movimento revela que até mesmo um dos modelos mais eficientes do varejo brasileiro começa a reconhecer uma nova realidade. Afinal no consumo contemporâneo, preço continua sendo essencial. Mas conveniência, dados e experiência digital passaram a fazer cada vez mais parte da equação.