Veículo: Folha de S. Paulo
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Data: 19/02/2026

Editoria: Shopping Pátio Higienópolis
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Joalherias miram os artistas e transformam suas obras em acessórios para o corpo

Pequenas obras de arte ou acessórios para o corpo? Talvez um pouco de cada. Joalherias têm olhado para o trabalho de artistas na elaboração de peças que tentam adaptar para a pele traços dos universos destes criadores, muitas vezes incorporando materiais inesperados em produtos de luxo.

No ano passado, a Sauer lançou uma série feita em parceria com os artesãos da Oficina Francisco Brennand, museu e ateliê dedicado aos trabalhos do mestre recifense da cerâmica, e a designer Paola Vilas pôs nas lojas uma coleção de joias baseada na obra de Lina Bo Bardi, a arquiteta do Masp, o Museu de Arte de São Paulo, e do Sesc Pompeia.

Mulher de pele clara e cabelo preto curto, vestindo roupa preta sem mangas, com bracelete prateado no pulso esquerdo, olhando para o lado direito com expressão neutra, em fundo claro com sombras verticais.
A artista Iole de Freitas veste bracelete da coleção que criou com a joalheria HStern – Renan Oliveira/Divulgação

Nas próximas semanas, a HStern leva às vitrines colares, pulseiras, anéis e brincos que seus designers e ourives criaram em parceria com Iole de Freitas, uma das principais escultoras brasileiras em atividade. E a Talento Joias lança dois braceletes com desenho inspirado pelas linhas sinuosas da cúpula do Theatro Pedro 2º, de Ribeirão Preto, no interior paulista, desenhada por Tomie Ohtake.

Neste namoro entre a arte e o design para o corpo, todos ganham —as clientes, por usarem joias menos óbvias; os artistas, por terem seu pensamento adaptado para algo vestível; e as joalherias, pela aura de sofisticação associada ao mundo da arte.

Antes de desenharem a coleção, designers da HStern passaram temporadas no ateliê de Iole de Freitas no Rio de Janeiro para entender como ela materializa as suas esculturas a partir da torção de grandes placas de materiais industriais, como o aço. O metal, definido pela artista como rebelde e difícil, é a base das joias que ela criou com a firma carioca.

“Para mim era inadmissível compreender a existência de torções no aço nesta escala até o momento em que eu vi os ourives realizarem as joias”, afirma Freitas, em referência ao tamanho reduzido dos acessórios, “algo que tem que ser acolhido por um corpo”.

A linha tem sete joias inspiradas livremente no trabalho da escultora, que exploram o contraste entre os aspectos bruto e luminoso dos materiais dos quais são feitas. É o caso de um anel de aço acetinado ornado com um filete de ouro 18 quilates e diamantes, e de um par de brincos no qual uma chapa retorcida abraça uma fita também de ouro e diamantes.

Foi a primeira vez que a HStern —que já havia lançado uma coleção com a artista Anna Bella Geiger— trabalhou com a combinação de aço e ouro, segundo Roberto Stern, o diretor criativo e presidente da marca. Esta combinação gerou um “amálgama estético inusitado”, diz a artista, acrescentando que a joalheria captou bem o seu pensamento plástico, desenvolvido em mais de 50 anos de carreira.

Do metal para a pedra, da indústria para a natureza. No caso da Sauer, o desafio foi domar a cerâmica, o material de trabalho de Francisco Brennand por excelência. Como dar valor de alta joalheria, com preço na casa das dezenas de milhares de reais, ao barro queimado usado em utilitários como copos, canecas e pratos?

Colar circular dourado com sete pingentes em forma de escaravelhos pendurados, em tons de azul, laranja e bege, sobre fundo escuro texturizado.
Colar em ouro e cerâmica da Sauer com a Oficina Francisco Brennand – Divulgação

Os artesãos da oficina de Brennand, morto em 2019, estudaram protótipos até chegarem ao tempo correto da queima do barro em escala reduzida, conta Stepanhie Wenk, a diretora criativa da Sauer. Ela cocriou a coleção que homenageia o universo fantástico do recifense e que conta, por exemplo, com um brinco com ovinhos de cerâmica pendurados em uma base também de cerâmica com diamante incrustado.

Outro desafio, afirma Wenk, foi mudar a percepção dos consumidores sobre o valor da cerâmica. “A visão das pessoas deste material pode ser utilitário, mas ele é joia.”

Já Paola Vilas usou vidrotil, as pequenas pastilhas de vidro do chão da Casa de Vidro de Lina Bo Bardi, em anéis, pendentes e brincos. A ideia era elevar estes quadradinhos, típicos das construções modernistas de meados do século 20, ao status de gemas preciosas, de acordo com o site da designer.

Feita com o Instituto Bardi, a coleção tem também um anel em que a jaspe vermelha imita o prédio do Masp para recriar o vão livre do museu da avenida Paulista, além de um colar em que os elos vazados reproduzem as formas amebóides das janelas do Sesc Pompeia —todas criações ícone de Lina Bo Bardi.

“As joias ficam no tempo. A ideia é que elas marquem um momento e perdurem”, afirma Vilas, conhecida por seus desenhos com um toque de surrealismo.

Anel de de Paola Vilas em ouro 18 quilates e jaspe vermelha, inspirado no vão livre do Masp, de Lina Bo Bardi – Divulgação

Fora do Brasil, a Bvlgari lançou em outubro do ano passado uma edição de relógios vendida no México que homenageava os dois maiores artistas do país, Diego Rivera e sua mulher, Frida Kahlo. O da pintora tinha um design mais ousado, com duas pulseiras contornando o braço e trechos de uma carta de amor dela para ele gravados nos braceletes em ouro.

Mariana Cerone, professora do núcleo de luxo da ESPM em São Paulo, a Escola Superior de Propaganda e Marketing, afirma que a joalheria sempre esteve na fronteira entre o ornamento e a escultura e lembra das joias criadas pelo surrealista espanhol Salvador Dalí nos anos 1940. Segundo ela, para quem consome luxo, as joias de artista deixam de ser apenas adornos e operam como objetos de discurso cultural.

“Isso muda a lógica da compra. Você não vai comprar um anel, vai comprar o produto que dialoga com o artista que tem uma história. As pessoas querem contar histórias quando elas usam uma peça —o corpo vira uma plataforma de discurso, seja na joalheria ou na moda”, afirma Cerone.

Ser diferente de seus pares também entra nesta conta. Se nos jantares dos endinheirados a pulseira de ouro em formato de prego da Cartier é comum nos braços que seguram taças de espumante, é mais raro se deparar com um bracelete em ouro e águas-marinhas dos anos 1950 assinado pelos irmãos Roberto e Haroldo Burle Marx, argumenta o joalheiro e antiquário Rafael Moraes.

Relógio de pulso dourado com pulseira larga e gravações em relevo, apoiado sobre papel bege. Caneta-tinteiro marrom está ao lado, sobre superfície azul-esverdeada.
Relógio da Bvlgari em homenagem à pintora Frida Kahlo – Divulgação

“Não é uma joia careta, que você vai no shopping e tem um monte”, diz Moraes, com a experiência de 20 anos vendendo joias assinadas por artistas, muitas delas raras, a exemplo da série de anéis e colares em ouro, esmalte e diamante concebidos por Di Cavalcanti e executadas por seu amigo Lucien Finkelsten na década de 1960, que ele expôs na feira SP-Arte do ano passado.

Diferente de joalherias, nas quais a produção tende a ser maior, Moraes trabalha com tiragens mínimas ou mesmo peças únicas. Artistas brasileiros contemporâneos de peso como Laura Lima, Fernanda Gomes e Paulo Bruscky já desenharam joias que ele ajudou a viabilizar por meio de um ourives, e seu arquivo conta com o projeto de um colar nunca executado de Antonio Dias.

“Comprar uma joia de artista é carregar uma obra de arte no corpo. O corpo acaba sendo o meio de mostrar isso”, afirma Moraes. “Você carrega algo que é muito precioso.”