Empresas adotam táticas opostas no país em momento de competição dura; reajustes vêm após cobranças por rentabilidade
Por Adriana Mattos — De São Paulo
18/02/2026 05h01 Atualizado há um dia
Mercado Livre muda tarifa e passa a considerar peso, dimensões e preço do pacote — Foto: Vinicius Stasolla
Mudanças na relação com lojistas abrem um novo capítulo na dura disputa entre os grandes marketplaces do país. O Valor apurou que, enquanto Mercado Livre e Shopee irão reajustar as tarifas cobradas das lojas a partir do início de março – chegando, inclusive, a mudar antigas regras -, a Amazon vai na contramão, com isenção de tarifas em fevereiro e lançou promoções aos vendedores até julho.
No fim das contas, isso pode ter impacto no preço ao cliente, que é definido pelo vendedor, e não pela plataforma. Apesar de os marketplaces terem ampliado a base de lojas para criar concorrência interna, e evitar que reajustes cheguem aos consumidores, os pequenos comerciantes têm pouca margem tudo de manobra. Isso ocorre principalmente quando são mudanças profundas, como as atuais.
Entre lojistas ouvidos, chamou a atenção o fato de Shopee e Mercado Livre lançarem tabelas novas quase juntos – o primeiro em 1º de março e o segundo, no dia 2. O Mercado Livre comunicou aos lojistas no dia 20 de janeiro, e a Shopee fez o mesmo no dia 6 de fevereiro.
As duas empresas também fizeram reajustes no ano passado e, desde então, certos custos logísticos, como diesel, caíram, mas houve aumento de investimentos em frete e marketing, e as plataformas querem dividir essa conta.
O Valor apurou que o Mercado Livre mudou seu modelo de cálculo de fixo para variável para quem usa o envios “full”, o mais estratégico do grupo (empresa armazena, embala e envia os produtos), em entregas de até R$ 79. De forma inédita, a empresa passou a incluir no cálculo, ao mesmo tempo, peso, medidas e preços das mercadorias.
Até 2 de março, a cobrança tem sido feita com base no custo fixo por unidade, dividida em três valores fixos: tarifa de R$ 6,25 (envios de até R$ 29), R$ 6,50 (envios de R$ 29,01 a R$ 50) e R$ 6,75 (R$ 50,01 a R$ 79).
“Até então, para envios até R$ 79 existiam as três faixas, e não importava o peso. Agora, há três faixas de preço e 29 faixas de peso, o que encarece o envio e torna mais complexa a gestão da logística”, diz um lojista de roupas da plataforma.
Em grupos de mensagens de vendedores a que o Valor teve acesso, esta foi citada como a mudança mais controversa. Na nova tabela, há, por exemplo, 15 faixas de preços de produtos com até dois quilos de até R$ 79 e, destes, 11 estão acima dos preços fixos existentes hoje.
Já o envio de um produto de um quilo de R$ 50 sairá por R$ 8 – e hoje custa R$ 6,50, aumento de 23%. Se elevar o peso, o reajuste cresce: de 9 a 11 quilos, o envio sobe de R$ 6,75 para R$ 10,95, repasse de 62%.
Em relação aos envios acima de R$ 79, também foram reajustados os valores e foram criadas novas faixas. O Valor comparou as tabelas atuais e as novas e verificou aumentos mais brandos, de 3% a 5%.
Também subiram as tabelas para envios no modelo “flex” (permite a entrega do próprio vendedor) ou para quem retira o item direto no lojista. Foi reajustado o valor fixo por unidade vendida entre cerca de 2% e 15%.
Os últimos aumentos da empresa foram em janeiro de 2025, e em junho a plataforma lançou a política de frete grátis nas vendas acima de R$ 19 no Brasil, o que poderia ter impacto em custo de transportes. Mas houve um aumento na receita total, disse o comando, de modo a compensar o impacto.
Só que no material enviado a lojistas, que comunica os reajustes, a empresa diz que impulsionou seus negócios com o frete grátis, e para continuar neste caminho e acompanhar a alta dos custos logísticos, precisou atualizar as tarifas.
Alguns componentes das despesas reduziram a pressão no país em 2025 para todas os marketplaces. O diesel teve uma queda de 12% no preço vendido às distribuidoras em 2025, segundo a Petrobras, e parte chegou às bombas. Além disso, em 2025, o dólar desvalorizou-se em 11% frente ao real, o que reduz o custo da moeda sobre insumos como plástico e papelão.
Segundo fontes ligadas às plataformas, mesmo assim, fornecedores reajustaram preços no país em 2025.
Na visão de investidores, as plataformas estrangeiras em geral estariam trocando margem hoje por crescimento no longo prazo, e estariam sendo mais cobradas pelo mercado por rentabilidade no curto prazo. Por isso, elas estariam buscando repartir essa conta com os vendedores. Esse tema tem sido citado em relatórios de bancos.
Martin de los Santos, diretor financeiro do Mercado Livre, admitiu, em teleconferência no fim de 2025, que investimentos em frete grátis, logística e cartão de crédito geraram certa pressão em margem, mas que o grupo seguirá com a política para ter crescimento futuro.
Perguntado sobre a mudança nas tarifas, o Mercado Livre informa, em nota, que isso está alinhado com as práticas de mercado e reflete “a evolução estrutural da operação”, que envolve investimentos contínuos em infraestrutura, tecnologia, ampliação de capacidade e qualidade de serviço.
Sobre esses custos, afirma que se referem ao conjunto da operação, incluindo tecnologia, armazenagem, manuseio e transporte. A respeito do novo modelo baseado em peso, medidas e preço, a ideia é tornar a estrutura “mais eficiente e proporcional às características de cada produto e seu respectivo custo de transporte, além de dar mais previsibilidade aos vendedores”.
Ainda afirma que a empresa mantém investimentos contínuos e recordes para melhorar eficiência, e que ajuda a impulsionar as vendas dos parceiros. Também diz que os lojistas têm autonomia para definir sua estratégia comercial.
Pouco mais de duas semanas após o Mercado Livre informar as alterações, o Valor apurou que a rival Shopee enviou aos vendedores comunicado relatando que iria mudar normas de seu programa de frete grátis.
“Não há mais a opção de não fazer parte do programa, o que no comunicado eles chamam de benefício, mas é uma restrição que vai afetar os pequenos vendedores, principalmente. Tem microempresário que vive de vender na Shopee”, diz o diretor de uma consultoria que trabalha para lojistas da empresa.
Nos envios até R$ 79,99, nada muda nas regras (cobra-se 20% do valor da venda mais R$ 4). Mas, nas operações de R$ 80 a R$ 99,99, não se pode mais escolher os 20% de taxa mais R$ 4 fixos, porque a opção acabou.
Após março, em compras nessa faixa de R$ 80 a R$ 99,99, as lojas terão de pagar 14% de taxa e quadruplicou-se o fixo para R$ 16, o que eleva o total final pago. Na faixa de R$ 100 a 199,99, são 14% mais R$ 20, ou seja, o fixo, vai subindo mais.
“Eles também anunciaram um desconto de 5% a 8% ao cliente que pagar usando o Pix. Mas isso é para o consumidor, não para o lojista. Até ajuda na venda, mas o Pix ainda é algo pequeno”, diz o diretor.
Somado a isso, a Shopee informou que, para lojas que vendem usando CPF e emitiram mais de 450 pedidos em 90 dias, será aplicada nova taxa adicional de R$ 3 por item vendido após março.
Em seus relatórios trimestrais, o comando da Sea Limited, holding de Singapura dona da Shopee, tem dito que vem trabalhando para melhorar a sua lucratividade no Brasil. O CEO da Sea, Forrest Li, disse a analistas, em novembro, que tem conseguido registrar lucro operacional ajustado no país.
Questionada sobre o fim da opção aos lojistas de não participarem do programa frete grátis, a empresa respondeu que “expandiu e criou novos benefícios”, e citou cupons subsidiados aos clientes, assim como subsídios de Pix também aos consumidores.
Sobre o impacto da obrigatoriedade de entrada no programa aos pequenos vendedores, a Shopee afirma que, com a entrada deles mais pessoas terão acesso a cupons subsidiados pela Shopee, tornando os produtos locais mais atraentes e, ao mesmo tempo, gerando visibilidade e oportunidades de conversão para lojistas de todos os portes.
A empresa informa que revisa ocasionalmente sua estrutura de comissão para garantir apoio aos empreendedores e que qualquer ajuste tem visão de longo prazo. E que investe de forma constante para ajudar as lojas a crescerem.
Seguindo na contramão, a Amazon anunciou, no mesmo dia em que a Shopee comunicou os lojistas do aumento, que iria fazer uma promoção em suas tarifas.
O Valor apurou que isso acontece meses depois de a operação brasileira ficar sob um diferente guarda-chuva no organograma internacional, sob a gestão de um executivo estrangeiro que tem autonomia para acelerar o crescimento.
A Amazon zerou, em fevereiro, as tarifas para envios acima de R$ 100 para quem estiver no programa Fulfillment by Amazon (FBA), que faz armazenagem, envio e entrega. Para itens acima de R$ 100, serão cobrados R$ 5 por produto.
Após março, o benefício da isenção será estendido até julho para vendedores que atingirem 3,5% de investimento sobre as vendas na plataforma de anúncios da Amazon. Com isso, a Amazon tenta dar um novo gás à sua plataforma Amazon Ads.
Sem considerar esses critérios acima, as condições da Amazon continuam as mesmas aos vendedores desde 2025. A companhia confirmou as ações no começo do mês em comunicado, com a meta de trazer mais lojistas para sua base. No fim do ano, Mercado Livre e Amazon protagonizaram disputa ferrenha por vendas, com altos investimentos em cupons principalmente na Black Friday.