Marca alemã cresce no mundo e expande presença no Brasil, refletindo a virada do conforto para valor estético
Por décadas, a Birkenstock ocupou um lugar quase utilitário no imaginário da moda: calçado funcional, associado a conforto ortopédico e a um certo desleixo estético que poderia até mesmo ser lido como uma negação do estilo. Entretanto, uma virada recente transformou a sandália alemã em um verdadeiro item cult. Ela entrou no guarda-roupa de influenciadores, celebridades e jovens em grandes centros urbanos como emblema de bem-estar, rejeição ao excesso e valorização do simples e funcional. No Brasil, não é diferente.
Antes de virar objeto de moda, a sandália Birkenstock é, sobretudo, um projeto de engenharia do pé. Seus modelos mais populares, como a Arizona (de duas tiras), a Milano (com tira traseira) e o clog Boston (fechado, em formato de tamanco), compartilham um mesmo princípio: palmilha anatômica de cortiça e látex, moldada para acompanhar a anatomia do pé, e cabedal em couro, camurça ou materiais sintéticos.
Polêmica, a sandália da Birkenstock já foi considerada antiestética; hoje, é item de desejo Foto: Claudio Caridi/Adobe Stock
A proposta é distribuir o peso do corpo de maneira mais uniforme e permitir uso prolongado em contextos urbanos, viagens, trabalho e lazer, inclusive em clima quente e úmido. Ao longo dos últimos anos, a marca também ampliou o portfólio com modelos fechados e variações em etileno-vinil-acetato, o EVA (tipo de plástico espumado muito usado em calçados, solados e sandálias), ampliando o uso para praia, chuva e ambientes informais. Esse vocabulário visual – tiras largas, fivelas metálicas, solado espesso – se espalhou de tal forma que hoje o consumidor brasileiro provavelmente já cruzou com releituras mais baratas em lojas de departamento, marcas locais e marketplaces, mesmo sem perceber que estava diante de uma “Birkenstock sem Birkenstock”.
Para Lorenzo Merlino, professor de moda da FAAP, a Birkenstock nunca foi originalmente uma marca de moda. “Ela era uma empresa com um objetivo muito claro de ergonomia e conforto. A virada acontece quando a sandália é introduzida nos Estados Unidos, no fim dos anos 1960, e é absorvida pela contracultura, pelos hippies, como símbolo de rebeldia e questionamento do American way of life”, diz.
A legitimação no sistema de moda veio décadas depois, quando a própria empresa buscou deliberadamente esse reposicionamento. “A Birkenstock foi atrás de parcerias com marcas de luxo, como Celine, Chloé, Valentino, Givenchy e Rick Owens. Isso tirou a sandália desse lugar de contracultura e a colocou no circuito da moda”, afirma.
A virada estética coincidiu com uma expansão empresarial acelerada. Segundo resultados divulgados pela própria companhia, a Birkenstock registrou ⬠2,1 bilhões em receita no ano fiscal encerrado em setembro de 2025 (cerca de R$ 11,3 bilhões, na cotação atual), alta de 16% em relação ao ano anterior. As Américas cresceram cerca de 15%, enquanto Europa, Oriente Médio e África avançaram 14%, e a Ásia-Pacífico, mais de 30%. Os calçados fechados, como o clog Boston, já respondem por aproximadamente 38% da receita global, sinalizando que a marca deixou de ser apenas sinônimo de sandálias.
O sapato clog se tornou um dos principais sucessos da Birkenstock Foto: Divulgação
No Brasil, a marca adotou uma estratégia seletiva. A Birkenstock opera no país em parceria com a Iguatemi, que abriu lojas dedicadas à marca em shoppings de alto padrão, como Iguatemi São Paulo, JK Iguatemi, Iguatemi Campinas e Pátio Higienópolis. Os preços refletem esse posicionamento. Modelos clássicos como a Arizona costumam custar entre R$ 900 e R$ 1.400, enquanto clogs e versões em couro premium podem ultrapassar R$ 1.800 no varejo local.
A presença institucional, porém, é discreta. Não há site oficial brasileiro nem operação direta com comunicação estruturada, o que cria um curioso paradoxo: a marca é forte como estética, mas discreta como empresa. Enquanto isso, sua linguagem visual é amplamente disseminada e reinterpretada por concorrentes nacionais e internacionais.
A Linus é um exemplo de marca brasileira que propõe uma releitura do design da Birkenstock a preços mais acessíveis. Fundada em 2018, a marca adaptou o produto ao clima, ao uso cotidiano e ao poder de compra do consumidor brasileiro, diz Isabela Chusid, fundadora da Linus.
Para a empresária, a inspiração na empresa alemã também foi uma escolha estratégica de design. “Quando falamos de sustentabilidade, é extremamente importante falarmos também de um design sustentável e de um produto atemporal, que não sai de moda”, afirma. “O design da Birkenstock é um design que está no mercado literalmente há centenas de anos e é agênero, atende aos mais diferentes públicos.”
Publicidade
Isabela Chusid, fundadora e CEO da Linus, criou sandálias inspiradas pela Birkenstock, mas com adaptações ao clima brasileiro Foto: Fernanda Corsini/Divulgação
CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE A fundadora diz que a adaptação ao Brasil envolveu preço, clima e rotina. “As nossas sandálias estão na cidade, na praia e no clube, e principalmente nas situações mais comuns do dia a dia, como estar na cidade e não ter medo de usar um produto que estraga se chover”, diz. “Quando você adquire um produto caro e ele não pode molhar, você perde consideravelmente as situações de uso.” A estratégia de venda direta ao consumidor e o posicionamento sustentável permitiram reduzir intermediários e ampliar a base de clientes. Segundo Chusid, mais de 40% das vendas no e-commerce vêm de consumidores recorrentes, e a marca cresceu cerca de 30% em 2025, mesmo em um cenário de estagnação do varejo. Merlino, professor da FAAP, afirma que o contexto brasileiro favorece esse tipo de produto. “O Brasil é um país balneário, com muitas cidades próximas da praia e clima quente. O brasileiro tem uma informalidade grande na forma de se vestir, e a Birkenstock funciona o ano todo nesse contexto”, diz. “Ser copiado é o melhor sinal de que o produto é bom. A cópia traz prejuízo financeiro, mas não prejudica a imagem, desde que o original saiba permanecer original.”
O destaque pelo conforto
O sucesso das sandálias anatômicas também dialoga com uma transformação mais ampla no vestuário contemporâneo. Depois da pandemia, conforto, funcionalidade e versatilidade passaram a ser valores centrais, influenciando desde a alfaiataria relaxada até o boom de tênis esportivos no cotidiano e a consolidação do athleisure.
Publicidade
Em alta Emais Viúva de Henrique Maderite relata últimos momentos antes da morte do influenciador em fazenda de MG Epstein x Luciana Gimenez: o que se sabe sobre a suposta ligação entre apresentadora e bilionário Para Felipe Eiras, professor de moda da Estácio de Sá, a chegada do conforto ao centro do vestuário está ligado a mudanças na própria cultura visual contemporânea. “É muito bom você estar com uma roupa que te abraça, que é confortável, e a Birkenstock acompanha isso. Ela é uma sandália anatômica, o solado dela é confortável, e isso dialoga muito com o que as pessoas estão buscando hoje”, afirma. Embora seja associada a um visual específico, a Birkenstock não inventou esse tipo de sandália, mas sistematizou um design inspirado em tradições europeias de calçados de trabalho e soluções ortopédicas. Fundada em 1774, a empresa começou produzindo palmilhas e calçados voltados ao suporte do pé, consolidando ao longo do século 20 um saber técnico baseado em ergonomia, materiais naturais e durabilidade. Nos anos 1960 e 1970, o calçado foi absorvido por movimentos contraculturais, ambientalistas e por uma estética anti-consumo que rejeitava modismos efêmeros. Hoje, o consumidor aceita códigos antes considerados “antiestéticos” como parte de um novo repertório visual, diz Felipe Eiras. Segundo ele, o fenômeno representa uma reconfiguração do capital simbólico da moda, em que códigos antes vistos como desleixo ou normcore (estética do básico confortável) passam a sinalizar repertório cultural e alinhamento a valores contemporâneos como funcionalidade, sustentabilidade e rejeição ao excesso performático.
“Existe uma mudança geracional na percepção do que é vestir-se bem. Hoje, estar confortável também comunica status cultural e sensibilidade contemporânea”, afirma.
Publicidade
Como a Birkenstock evoluiu ao longo do tempo?