Veículo: Valor Econômico
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Data: 04/02/2026

Editoria: L-Founders, Shopee/Shein
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Shein tentou transformar o Brasil em polo de fabricação, mas encontrou resistência nas confecções

A varejista teve dificuldade com as rígidas regulamentações trabalhistas e os impostos locais, entre outras questões; “Trabalhar no Brasil é diferente de trabalhar na China”, disse o diretor-superintendente da Abit

Por Luciana Magalhães e Helen Reid, Em Reuters — Natal (Brasil)
04/02/2026 15h22 Atualizado agora

Site e app da Shein, varejista chinesa de fast fashion, casa e decoraçãoSite e app da Shein, varejista chinesa de fast fashion, casa e decoração — Foto: Justin Chin/Bloomberg

Em 2023, enquanto a Shein conquistava o Brasil com preços baixos e o apoio de megaestrelas como Anitta, a empresa fez uma promessa audaciosa de transformar o país em um polo de fabricação para toda a América Latina.

A varejista de fast-fashion fundada na China prometeu investir US$ 150 milhões em parcerias para produzir roupas em 2.000 fábricas locais, criando 100.000 empregos na indústria da moda no Brasil até 2026.

A Shein começou em ritmo acelerado, anunciando parcerias com 336 fábricas brasileiras até o fim de 2023. Desde então, o progresso estagnou à medida que a Shein exigia que os fornecedores locais baixassem os preços e entregassem os pedidos mais rápido do que conseguiam, de acordo com uma dúzia de ex-fabricantes de sua cadeia de suprimentos, autoridades do setor e líderes sindicais.

“Trabalhar no Brasil é diferente de trabalhar na China. O Brasil tem marcos regulatórios e padrões muito diferentes”, disse Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), que representa mais de 25.000 empresas em todo o Brasil. “Lamento que não tenha dado certo.”

A Shein enfrentou dificuldades com transporte e logística na maior economia da América Latina, um país vasto com mais de 200 milhões de habitantes, devido à localização no interior de algumas das fábricas parceiras, bem como às rígidas regulamentações trabalhistas, incluindo controle de jornada de trabalho e impostos elevados, disseram as fontes.

Dois executivos familiarizados com a estratégia da Shein no Brasil, que pediram para não serem identificados, confirmaram que a produção local ficou aquém das metas originais da empresa, sem fornecer números.

“Em comunicado por escrito, a Shein admitiu que a iniciativa não saiu como planejado. “A produção no Brasil exigiu tempo para amadurecer, e, logo, as diferenças nos negócios e na infraestrutura industrial tornaram-se aparentes”, disse a empresa. “Dessa forma, o progresso tem sido mais lento e desafiador.”

Daqui para frente, a Shein afirmou que está adotando uma abordagem mais “seletiva” para aprofundar parcerias com “as fábricas mais capazes”.

A Shein recusou-se a dizer quantos fornecedores locais possui atualmente, mas acrescentou que seu marketplace on-line no Brasil “apoia mais de 45.000 empreendedores e vendedores locais, reforçando o Brasil como um dos mercados mais dinâmicos da empresa em todo o mundo”.

A Reuters apurou com grupos fabris, sindicatos e associações em todos os 12 Estados onde essas fábricas operavam que apenas um produtor ainda fabrica roupas para a Shein, a GB Manufacturing, sediada no Espírito Santo.

O proprietário Marco Britto disse que valoriza o fato de a Shein pagar em 30 dias, em comparação com até 90 dias de outros clientes, e acha o relacionamento com a empresa direto. “Eles são menos burocráticos. É fácil trabalhar com a Shein”, disse ele, acrescentando que dois outros produtores locais também estavam fornecendo para a Shein. Essas empresas recusaram-se a ser entrevistadas e a Reuters não pôde determinar se elas produzem para a Shein.

A Shein não quis comentar sobre sua parceria com Britto ou qualquer um de seus ex-fornecedores.

“Não consigo atender ao seu modelo de negócio”

O esforço da Shein para localizar a produção no Brasil ganhou urgência em 2024, quando autoridades brasileiras, alarmadas com o aumento das importações de roupas ultra baratas, impuseram uma tarifa de 20% sobre compras on-line avaliadas abaixo de US$ 50 ― que antes eram isentas de impostos ―, uma tributação apelidada de “Taxa das Blusinhas” pelos  consumidores.

“O objetivo era promover uma concorrência justa”, disse Uallace Moreira, secretário de Desenvolvimento Industrial do Brasil, em uma entrevista, e equilibrar a disputa entre empresas brasileiras e chinesas.

Seis proprietários de fábricas entrevistados pela Reuters disseram que encerraram suas parcerias depois que a Shein exigiu cortes drásticos de preços e prazos mais apertados que eles consideraram impossíveis de cumprir.

“Para chegar ao preço que eles queriam, teríamos que trabalhar com um tipo diferente de tecido”, disse Januncio Nóbrega de Azevedo, proprietário da Nobre Confecções, uma empresa com 59 funcionários que fazia parte de um consórcio de vestuário no nordeste do Brasil atendendo aos pedidos da Shein no segundo semestre de 2023.

Após produzir para a Shein por apenas seis meses, ele ficou com excesso de material que teve de desovar no mercado local por um valor não revelado. “Eu disse a eles, ‘Olha, infelizmente não consigo atender ao seu modelo de negócio’”, contou ele.

A Shein não quis comentar sobre as questões levantadas por Azevedo.

A cadeia de suprimentos da Shein desafia o modelo tradicional de fast fashion, no qual os varejistas, normalmente, fazem pedidos aos fornecedores na Ásia meses antes e importam as roupas a granel em navios porta-contêineres para suas lojas e armazéns.

Como é na China

A vasta rede da Shein de cerca de 7.000 fábricas na China, a maioria na província de Guangdong, produz pequenos pedidos iniciais e aumenta ou diminui rapidamente a produção com base na demanda, permitindo que a plataforma ofereça uma variedade aparentemente infinita de roupas em diferentes tamanhos e cores.

Seu polo de fabricação em Guangzhou consegue produzir grandes quantidades de roupas baratas graças ao grande número de trabalhadores especializados, tecido de poliéster de baixo custo fabricado na China e à proximidade de fábricas que produzem zíperes, botões e outros produtos.

Os pedidos on-line dos compradores são embalados individualmente na China e enviados por via aérea diretamente para eles, economizando custos tanto porque muitos países dão acesso isento de impostos a encomendas de baixo valor, quanto porque separar e embalar pedidos em armazéns na Europa ou nos EUA é muito mais caro.

Mas o modelo provou ser difícil de replicar fora da China, que possui uma cadeia de suprimentos altamente integrada e eficiente, mantendo os custos baixos.

Em entrevista a vários veículos de notícias brasileiros no início do ano passado, Felipe Feistler, gerente-geral da Shein no Brasil, reconheceu os desafios na aplicação de seu método de produção no país.

“Para crescer, as fábricas precisam mudar a forma como operam, e nem todas podem ou querem fazer isso”, disse ele. “O marketplace, no entanto, já tem uma infraestrutura estabelecida e os vendedores se adaptam mais rápido.”

O presidente da Shein para a América Latina, Marcelo Claure, não respondeu a um pedido de comentário.

Pequenas fábricas enfrentam pressão de preços

Quatro dos seis ex-fornecedores entrevistados pela Reuters em todo o Brasil operam em pequenas cidades onde a produção de vestuário é a base da economia, tornando-os ansiosos para trabalhar com a gigante do fast fashion.

“Tínhamos esperanças muito altas”, disse José Medeiros de Araújo, proprietário da Zaja, uma pequena confecção em Cerro Corá, uma cidade no Nordeste brasileiro com pouco mais de 11.000 habitantes.

Araújo, cuja fábrica de 128 funcionários produz roupas para grandes varejistas brasileiras e para sua própria marca, considerou adicionar 50 empregos para atender aos pedidos da Shein.

Depois de produzir um pedido inicial para a Shein em meados de 2023, Araújo disse que a varejista, repentinamente, exigiu prazos de entrega mais rápidos, reduziu o número total de pedidos e exigiu cortes de preços de até 30%. Araújo disse que a Shein pediu para ele baixar o preço de atacado de uma saia de R$ 50 para R$ 38 reais, e de uma jaqueta de um preço original de R$ 65 para R$ 45 reais.

“O plano era crescer”, disse ele. “Mas, para nós, aqui no Nordeste, não era viável.” Ele não revelou suas margens de lucro nos produtos vendidos para a Shein.

A Shein não quis comentar sobre seu trabalho com Araújo.

Desafios trabalhistas e de logística

As receitas da Shein no Brasil cresceram rapidamente, e o país tornou-se o segundo maior mercado da Shein depois dos EUA em 2025, respondendo por US$ 3,5 bilhões, ou 7% de suas vendas globais estimadas em US$ 48,6 bilhões, de acordo com a Coresight Research.

Como empresa de capital fechado, a Shein não divulga suas finanças e recusou-se a dizer se a estimativa era precisa.

Mercados como o Brasil e a Europa tornaram-se muito mais importantes para a Shein no último ano, à medida que as tarifas dos EUA sobre importações da China tornaram seus negócios lá significativamente mais caros.

A Shein enfrenta adversidades semelhantes na União Europeia e no Reino Unido, que planejam acabar com suas isenções de impostos alfandegários sobre encomendas de baixo valor em 2026 e 2028, respectivamente.

João D’Arru, chefe do sindicato da indústria do vestuário no estado de Pernambuco, disse que executivos da Shein visitaram o local no final de 2024 para avaliar o setor de vestuário, um pilar fundamental da economia local dominado por pequenas e médias empresas.

Após a visita, a Shein convidou um grupo de fabricantes locais para conhecer suas fábricas chinesas, pagando suas passagens de viagem, para mostrar a eles como funciona a produção da empresa na China, disse D’Arru.

Entre os que viajaram estava José Gomes Filho, um confeccionista de Pernambuco, que passou cinco dias visitando fábricas em Guangzhou e Hangzhou.

“A Shein tratou bem a delegação e mostrou grande interesse em estabelecer produção no Brasil”, disse Gomes Filho.

Mesmo assim, ele não assinou contrato porque o menor preço que podia oferecer excedia o que a Shein estava disposta a pagar, disse ele, recusando-se a divulgar números.