A loja de cafés com um bar luxuoso escondido no porão, onde é possível saborear bebidas exclusivas; a loja de artigos esportivos onde o cliente não só joga, como grava o nome no tênis; o supermercado em que a etiqueta de perecíveis muda de cor conforme o produto fica menos fresco —e também mais barato.
Estes são alguns exemplos do que o uso da inteligência artificial pode fazer para atrair o cliente ao ponto de venda. As novidades foram apresentadas na edição deste ano da NRF Retail’s Big Show, o maior evento do varejo mundial, realizado em Nova York, entre os dias 11 e 13 deste mês.
Se em um primeiro momento a tecnologia foi empregada para entender as preferências e hábitos de compra do consumidor, assim como tornar a operação mais eficiente (com o monitoramento de estoques em tempo real, por exemplo), a palavra de ordem agora é usá-la para agregar valor às marcas. A tendência é que o varejo use cada vez mais a IA para criar diferenciais em produtos e serviços, com destaque para a interação nos pontos de venda.
“Muita gente achou que a loja iria acabar a partir do avanço do comércio eletrônico, mas o que se vê é uma relevância cada vez maior do ponto físico, que representa o espírito da marca”, diz o presidente da Renner, Fabio Faccio, que, em 27 anos de varejo, participou de diversas edições da NRF. “A feira deste ano mostrou a necessidade que as pessoas têm de se reconectarem.”
Em um cenário de excesso de informação e ofertas muito semelhantes, as marcas que se destacam são aquelas que oferecem a melhor experiência de compra no ponto de venda, diz Daniel Sakamoto, gerente executivo da CNDL (Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas).
Neste sentido, o uso de inteligência artificial permite não só que o cliente encontre o produto que procura e feche sua compra com facilidade, como esteja em um ambiente mais favorável ao consumo: uma loja sofisticada, aconchegante, que permita a interação com o produto e com os valores da marca.
“A tecnologia sai do campo experimental e passa a estar integrada ao dia a dia das empresas, voltada à conveniência, personalização e redução de fricções, como filas ou conflito de preços”, diz Sakamoto.
‘LUXO VAI SER CONVERSAR COM ALGUÉM DE CARNE E OSSO’
De acordo com Alberto Serrentino, sócio da Varese Retail, a loja aumenta a sua relevância como ponto de experiência da marca, indo muito além de hub logístico (ponto de entrega e troca de produtos comprados online). E isso tem a ver com o avanço da tecnologia e das novas jornadas de compra do cliente.
“À medida que o varejo avança na IA conversacional [chatbots que simulam linguagem humana natural], é preciso preparar a empresa para novas formas de comprar do cliente. Neste cenário, a IA agêntica [que executa uma série de ações com o mínimo de intervenção humana] ganha protagonismo muito maior”, diz ele, se referindo às compras programadas. As lojas físicas entram como contraponto: se de um lado os consumidores terão jornadas digitais mais automatizadas, também vão querer humanização e interação.
Lyana Bittencourt, presidente da consultoria Grupo Bittencourt, concorda. “Em um mundo muito automatizado, o luxo vai ser conversar com alguém de carne e osso”, diz a empresária. O dia a dia será resolvido por robôs, em que o agente de IA pessoal do consumidor vai buscar os melhores produtos, ofertas, preços, condições de pagamento junto aos bots das varejistas, afirma. “Mas quando quero uma curadoria mais personalizada, procuro uma loja.”
O Brasil já tem alguns exemplos dessa nova proposta. Em julho, a Renner reinaugurou sua loja no shopping Morumbi, zona sul de São Paulo, sob o conceito de loja circular. Com investimento de R$ 18 milhões, o ponto de venda foi construído apenas com materiais duráveis e recicláveis, usa 100% de energia renovável e tem consumo reduzido de água e CO2. A loja conta com o coletor EcoEstilo (onde o cliente descarta peças usadas que serão recicladas ou doadas). Hoje, 80% dos itens da Renner já são produzidos com materiais ou processos sustentáveis.
Com 3.800 m² e fachada de telas de LED curvas, o ponto de venda oferece provadores amplos, com lounge para acompanhantes, além de cabine para influenciadores criarem conteúdo. “A gente quer levar essa experiência de provar uma roupa e mostrar para uma amiga, para um acompanhante, para mais lojas, transformar esse provador quase em um camarim”, diz Fabio Faccio.