Por Isadora Camargo — De São Paulo
30/12/2025 07h23 Atualizado há 2 dias
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O ano de 2026 terá dez feriados nacionais, nove deles prolongados, quando há emenda com final de semana, segunda-feira ou sexta-feira, e apenas um da lista cairá num domingo. O número é maior que em 2025 e em 2024, quando foram seis e três feriadões nacionais, respectivamente.
Além dos obrigatórios, o próximo ano também terá pontos facultativos com possibilidade de emendar folgas, como Carnaval, Corpus Christi e as vésperas de Natal e Ano Novo. Tudo isso se soma às eleições para presidente e governadores e à Copa do Mundo, que devem afetar operação, decisões estratégicas, geração de negócios e o planejamento das empresas, alertam especialistas.
Alguns setores da economia sofrem mais, especialmente em meses com forte redução de dias úteis, como fevereiro e dezembro que, outros tendem a se beneficiar dos momentos extras de lazer e consumo, caso do varejo, hotéis, bares e restaurantes.
O diretor-geral da Michael Page no Brasil, Ricardo Basaglia, destaca que o problema não é o número de feriados, mas a “fragmentação da agenda produtiva” decorrente de todos os eventos de 2026. “Vivemos um ambiente de atenção intermitente, com horários irregulares, seja por eventos como Copa do Mundo, seja por ciclos eleitorais, que geram ruído político e fazem com que decisões importantes sejam postergadas”, avalia.
A previsão é de ritmo de trabalho menos contínuo, com mais quebras cognitivas. Em ano eleitoral, afirma, o maior risco para as empresas não é a improdutividade, mas a perda do foco coletivo e do ritmo de decisão.
Segundo Fernanda Azzi, diretora de Recursos Humanos da Fesa Group, empresa brasileira de gestão de pessoas, anos com muitos feriados prolongados tem como principal efeito uma reorganização de metas, acordos com clientes e continuidade da operação com menos dias úteis.
O ponto facultativo, apesar de ser utilizado como folga no serviço público, fica a cargo dos acordos coletivos no setor privado.
Segmentos como indústria, logística e operações contínuas sentem mais dificuldade em lidar com interrupções. “Nesses setores, o desafio não é contratar mais, mas segurar o colaborador e manter o ritmo produtivo. A produção não pode simplesmente parar”, explica Azzi. E as comunicações exigem rapidez, em especial nas situações de ponto facultativo, quando cabe à companhia ou repartição adotar ou não a folga.
A executiva acrescenta que alguns setores levam vantagem para geração de receita em anos com muitos feriadões, como turismo, hotelaria, bares e restaurantes, especialmente quando combinados a grandes eventos esportivos.
“Mesmo sem Copa do Mundo, o Brasil tem uma cultura forte ligada ao esporte. Esses segmentos costumam reforçar contratações temporárias para atender picos de demanda, independentemente de jogos específicos”, diz.
Para as lideranças dentro das empresas, Azzi e Basaglia lembram que as lideranças das empresas precisarão estar ainda mais próximas da operação em 2026 para não deixar passar combinados e flexibilizar as cobranças. “Não dá para cobrar o mesmo nível de entrega de um mês com 22 dias úteis em outro com 18, 17. Isso precisa estar claro desde o planejamento”, pondera a diretora de RH do Fesa.
Entre as principais estratégias, estão as escalas e rodízios de funcionários, além de desdobramento de grandes metas em entregas menores, permitindo que a produtividade seja mantida mesmo com interrupções frequentes.
Mesmo assim, ano de feriado não deve ser ano de menor produtividade, atenta Caroline Sciarotta Gonçalves, gerente de Pessoas e Cultura no Briganti Advogados. O escritório atende clientes estrangeiros e tem de pensar um calendário próprio que não pode se pautar apenas nos feriados brasileiros.
“No jurídico, os prazos não param, as demandas nem sempre são previsíveis, e os clientes seguem com expectativas altas, independentemente do calendário. Por isso, A gente começa o ano já olhando o calendário de feriados nacionais, estaduais e municipais, cruzando isso com prazos legais, sazonalidades do negócio e períodos historicamente mais críticos”, explica.
A especialista em recursos humanos salienta que os setores precisam se preparar para mudanças repentinas da realidade, pois além do impacto operacional, um ano com muitos feriados pode afetar de forma relevante a geração de negócios, afirma Sciarotta. “Dependendo do setor em que os clientes atuam, do momento econômico e do próprio planejamento das empresas, decisões estratégicas acabam sendo adiadas à medida que se aproximam períodos de recesso”.
Basaglia acrescenta que, por isso, empresas mais maduras já trabalham com três ou quatro cenários diferentes para um ano como 2026 a fim de não serem pegas de surpresa, além das folgas prolongadas.
Em relação às receitas anuais das empresas, os especialistas destacam que podem haver alterações, custos de mão de obra diferenciados e margens menores, mas que são anos cíclicos que precisam fazer parte do calendário financeiro das corporações para que haja compensação de eventuais perdas.
Feriados prolongados não são regra de menor lucratividade, ou prejuízo, assegura Azzi, mas é comum que algumas empresas adotem uma postura mais cautelosa no início do ano, observando como o mercado reage aos primeiros feriados prolongados — especialmente em um contexto que inclui o fim do primeiro semestre e o início do segundo marcado por eleições.
“Se a empresa ainda não tem uma política clara de ponte de feriado, 2026 é um bom momento para estruturar isso”, conclui.