
Os dados finais de desempenho do varejo e do consumo em 2025 serão confirmados nos próximos dias, mas já é possível antecipar que o desempenho real será negativo em relação ao ano anterior. Com exceção de alguns poucos segmentos e categorias, como saúde, beleza e bem-estar e do canal e-commerce, a expansão das vendas não será superior à inflação das respectivas categorias, caracterizando perda real.
Havia expectativa de que a combinação das vendas da Black Friday e, em seguida, do Natal pudesse salvar o ano, mas os indicadores do período, envolvendo tráfego nas lojas, vendas no varejo e o consumo de forma geral, já divulgados, mostram que o desempenho desse período não deverá reverter a mesmice predominante ao longo de todo o ano.
Apesar do conjunto dos indicadores macroeconômicos que impactam diretamente o consumo, como evolução real da massa salarial, a confiança do consumidor e o menor índice de desemprego dos anos recentes, mostrarem desempenho alentador, criando expectativa de que o varejo e o consumo deveriam ter resultados também positivos, isso não se confirmou na prática.
Desempenho, de fato, acima do esperado aconteceu apenas no canal e-commerce e foi ainda beneficiado na reta final do ano, gerando aumento significativo na participação desse canal nas vendas totais do varejo do País.
E, nesse aspecto, o Brasil apresenta comportamento similar ao das maiores economias do mundo, com o maior crescimento da participação desse canal no total das vendas, tendência que se confirma a cada ano.
É verdade que as elevadas taxas de juros, o crédito mais cauteloso, o alto nível de endividamento das famílias, a elevada inflação ao longo do ano, especialmente nos alimentos, e a inadimplência servem de contrapeso à tendência de aumento dos gastos com consumo e no varejo.
Mas podem apostar que esse aparente paradoxo pode ser explicado de forma mais singela.
Envolve a expansão exponencial do negócio das bets no País, drenando renda e recursos, inclusive dos programas sociais, para o jogo. O que já foi caracterizado como “investimento”, não resistiu ao absurdo e hoje está rotulado como “entretenimento”
Um setor que gera muita receita, muita mídia, muita rede social e pouco emprego real, além de contar com tributação incompatível com a realidade de outros setores e segmentos econômicos.
O governo, no apagar das luzes deste ano, acaba de aprovar a elevação da alíquota atual de 12% incidente sobre o GGR (Gross Gaming Revenue), que é a receita bruta depois do pagamento dos prêmios aos apostadores, porém de forma anual e gradual, chegando a 15% até 2028, apesar da existência de diversos projetos que propunham números significativamente superiores.
Como o setor gera muita movimentação financeira, também gera apoio e adesão – quando tem grana, tem cooperação – a ponto de se transformar no quarto B, das bancadas mais relevantes no Congresso. Bala, Bíblia, Boi e Bets.
O macroeconômico conspira a favor
Nos últimos anos, o Brasil tem apresentado indicadores bastante positivos no mercado de trabalho, com a taxa de desemprego recuando para níveis próximos aos menores da história recente e com a geração de emprego atingindo números recordes, refletindo uma melhora estrutural na economia e no rendimento das famílias.
É verdade que, no critério de avaliação de desemprego, são computados os que não estão procurando emprego e que as 20 milhões de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família não podem procurar emprego, sob pena de perder o benefício caso sejam contratados pela CLT. Uma distorção que precisa ser corrigida de imediato, mantendo os benefícios para quem precisa, mas estimulando o emprego com carteira assinada, elemento vital para não complicar ainda mais o já complicado futuro da Previdência.
Ao mesmo tempo, dados oficiais mostram que a massa salarial real, que envolve o poder de compra do rendimento dos trabalhadores, descontada a inflação, cresceu em 2025.
Isso deveria impulsionar o consumo das famílias e o dinamismo do comércio, do varejo e dos serviços pessoais. No entanto, o varejo tem registrado desempenho negativo em termos de volume de vendas reais, repetindo uma tendência dos anos recentes, em que o crescimento foi modesto ou até mesmo negativo quando analisado por segmentos.
A expansão estratosférica das apostas online
O mercado de apostas online no Brasil avançou de forma dramática nos últimos anos e tem sido prestigiado e apoiado de forma ampla pelo volume de recursos financeiros envolvido.
As estimativas apontam que o volume total de apostas online pode variar de R$ 270 a R$ 320 bilhões em 2025.
Só como referência, esses valores são equivalentes a quase todo o valor faturado pelo setor de alimentação fora do lar no Brasil, que inclui bares, restaurantes, padarias, fast-food e delivery, com sua significativa geração de emprego.
Pelos dados do PNAD, do IBGE, o setor de alimentação fora do lar emprega de forma direta perto de 4,8 milhões de pessoas, incluindo formais e informais. Quantas pessoas no Brasil são empregadas por todo o segmento de bets?
Efeitos diretos no consumo e no varejo
Pesquisas com apostadores revelam efeitos objetivos de realocação do orçamento familiar, mesmo considerando que dados de pesquisas diretas com consumidores podem mascarar a realidade em função do sentimento de culpa, por parte desses consumidores em relação ao jogo.
Estudo citado em comissões do Senado indicou que muitos apostadores deixaram de comprar roupas (23%), itens de supermercado (19%), viagens (19%) e serviços de alimentação fora de casa (48%) exatamente por causa das apostas online.
Outros levantamentos mostram que parte da renda que deixaria de ir para a poupança ou para o consumo foi redirecionada às bets, sacrificando gastos essenciais e discricionários que tradicionalmente dinamizam o varejo.
Até o final do ano passado, era possível usar cartão de crédito para apostas nas bets, e o governo ainda tenta cercear o uso dos recursos do Bolsa Família e de outros programas sociais nas apostas online, como se fosse possível controlar, de fato, a economia informal envolvida nessas apostas.
Conclusão
O Brasil vive um momento paradoxal em que indicadores de renda e emprego e a própria economia de curto prazo caminham de forma positiva, mas o varejo e o consumo de produtos e serviços pessoais não crescem com a mesma intensidade. Ao contrário, na média, têm desempenho negativo.
Parte dessa discrepância pode ser explicada por outras questões econômicas, como endividamento, inadimplência, elevadas taxas de juros e crédito contido. Mas, em parcela relevante, por mudanças nos padrões de consumo das famílias, envolvendo maior alocação de renda em apostas online, que crescem de forma acelerada e já representam uma economia paralela equivalente, para fins de comparação, a todo o setor de alimentação fora do lar (foodservice) no País.
Para agravar esse quadro temos um nível de taxação desigual, com elevação gradual e cautelosa, comparativamente a outros segmentos. Há ainda o fato de que se criou um amplo ecossistema que se beneficia dessa nova economia envolvendo clubes esportivos, veículos de comunicação, empresas e negócios ligados ao esporte, artistas, influencers e os próprios atletas profissionais, com um poder de mobilização respeitável e financeiramente muito atraente.
Levantar o tema e advogar uma revisão estrutural, legal e tributária parece ser missão urgente e inadiável para as entidades, associações e confederações que envolvem os setores de consumo, varejo e serviços pessoais, antes que o dano seja ainda maior.