‘É hora de baixar as armas’, diz CEO do Grupo Petz Cobasi; código da ação será Auau3
Por Adriana Mattos, Valor — São Paulo
22/12/2025 13h28 Atualizado agora
Paulo Nassar — Foto: Silvia Zamboni/Valor
As varejistas Petz e Cobasi se preparam para o momento mais importante da vida das duas companhias, nas palavras do próprio CEO da empresa combinada, Paulo Nassar. “É hora de depor as armas e marchar como um time. Até porque não vamos só juntar as ‘trouxinhas’, vamos ter que nos transformar”, diz ele, em sua primeira entrevista desde que foi aprovada a união dos negócios, neste mês.
Nassar falou das próximas fases da fusão das duas redes, num momento de mercado muito mais relutante com as integrações de culturas e negócios na área — as dificuldades com a união de Arezzo&Co e Soma acenderam alerta vermelho no setor. Abriu detalhes do planejamento dos primeiros dias da organização, da negociação para a nova diretoria e dos planos para 2026.
Também disse que há uma terceira varejista interessada nas 26 unidades que a empresa precisa vender no Estado de São Paulo, como determinou o Cade, o orgão antitruste, para a aprovação da fusão das companhias — numa sinalização de concorrência disputada pelos ativos na região. Dez unidades das 26 estão na capital.
A empresa surge com o novo nome de Grupo Petz Cobasi e, a partir do dia 5 de janeiro, entra o novo código de negociação das ações — sai Petz3 e entra Auau3. Antes disso, no dia 2, é a data do “closing” da operação, em que as redes passam a ser uma companhia única.
Além disso, até o fim do mês, a empresa deve fazer uma reunião com analistas, quando divulgará os nomes da nova diretoria, a formação do conselho de administração e a captura de sinergias, já atualizadas. Também já está definido que as marcas Petz e Cobasi serão mantidas e devem fazer parte dos planos de expansão orgânica.
Ao Valor, Nassar disse esperar ajustes nas economias geradas, mas acredita que as sinergias de lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação (Ebitda, da sigla em inglês) devam ficar entre R$ 200 milhões e R$ 300 milhões em até cinco anos, dentro da faixa inicialmente estimada de até R$ 330 milhões.
Uma equipe de integração com 60 pessoas — 30 de cada empresa — formada em agosto do ano passado operou até maio deste ano. Depois, o grupo ficou com os trabalhos paralisados, quando o caso subiu para o Cade, e agora ele volta a operar com apoio da consultoria McKinsey.
“Um software mapeou 3 mil atividades para determinar o que nós vamos fazer, como vamos fazer no dia 1, no dia 30, nos primeiros 100 dias, primeiros seis meses, e anualmente, o que precisamos capturar até o quinto ano, quando termina esse processo. Haverá atualização dos valores [de sinergia], mas acredito que deverá ficar de R$ 200 milhões a R$ 300
Auau3 no lugar da Petz
A definição do “ticker” Auau3, um código mais universal, deixando de lado a simbolização de um negócio apenas, representa o espírito que Nassar quer passar ao mercado.
O executivo diz que já decidiu quais serão os nomes que integrarão o comando, que trata-se de uma mistura de diretores das duas cadeias, após avaliação de 27 pessoas na Petz e na Cobasi, com apoio da consultoria Korn Ferry. Mas evita abrir antes de comunicar internamente. Um dos que deve permanecer é Caio Bernardo, diretor comercial e de marketing da Cobasi, presente na conversa com o Valor.
O CEO diz que fez suas escolhas, mas as levou para dividir com Sergio Zimerman, fundador da Petz, que será o presidente do conselho de administração. “Eu escolhi, pois a prerrogativa é minha, mas consultei o Sergio, que me deu muitos ‘inputs’, muitas opiniões, de como é que é o time dele, quem é quem, e quem eventualmente eu deveria considerar”, diz.
Pode ser um sinal de bom entendimento, num acordo em que ainda pairam dúvidas no mercado sobre como será o relacionamento entre os sócios, ou seja, se a governança efetivamente funcionará.
No avaliação da equipe de análise da XP, as integrações passadas de fusões e aquisições mostram que geralmente este é um período de transição turbulento, escreveu em relatório publicado neste mês. Nem mesmo Raia e Drogasil, com a RD Saúde, escaparam disso, e em Azzas 2154 (Arezzo e Soma), diferenças de perfil e existência de silos internos atrasaram a fusão.
A XP manteve a classificação neutra para ação da Petz, mas com visão positiva para as sinergias. “Esperamos que o ritmo de ganhos continue desafiado por um cenário competitivo mais acirrado, enquanto aprendizados de integrações passadas de fusões e aquisições mostram que geralmente é um período de transição conturbado”, escreveu Danniela Eiger, analista da XP.
Nassar entende que a empresa vem se preparando para os passos dos próximos meses, apesar da pressão, e sinaliza que quem não estiver no mesmo barco, pode sair. “É do ser humano”, diz ao ser questionado sobre formação de nichos internos entre equipes após fusões. “Mas tem que haver um entendimento para quebrar esses preconceitos, se incorporar, e vir ‘pro’ abraço, e se não vier ‘pro’ abraço , então não venha. A nossa cabeça é tratar todos com cuidado. Porque vamos ter que ter a habilidade de lidar com o pessoal.”
O CEO até admite estar “positivamente contaminado” pelo ambiente, mas também acha que o próprio setor também está influenciado pelo que ele já viu de fusões no varejo. “Claro que a gente vai tropeçar, vai errar, vai corrigir, levantar e segue a vida. É o entendimento dos dois times que até então eram duas empresas concorrentes, e no campo de batalha brigavam por clientes. Tem que ter um desarme disso e teremos.”
Também no dia 5, haverá o que Nassar chama de “ir para a guerra”. Acontecerá o primeiro evento de integração, com Zimerman, os sócios da Cobasi —João, Paulo e Ricardo Nassar —, além de diretores e gerentes das duas companhias, na sede da Cobasi, para começar a falar da nova fase.
Escritório e conselho
A princípio, o escritório das duas varejistas se manterão separados, mas as equipes devem se unir no escritório da Cobasi, na zona oeste de São Paulo, pois já se identificou que há espaço disponível, e desse movimento deve vir parte das reduções do administrativo e das economias de custos.
A definição dos nomes do conselho de administração já estaria, em linhas gerais, pronta, faltando poucos ajustes, segundo fontes. Não há acordo de voto em bloco — acionistas da Petz terão 52,6% do novo grupo e a Cobasi, 47,4%, com necessidade de se entenderem no conselho para que o alinhamento ocorra.
Sobre isso, fontes ouvidas dizem que o fato de o caso ter ido ao Cade deu mais tempo para que os dois lados levassem um “tranco” e amadurecessem mais. “Isso de a Petlove ter entrado com recurso acabou sendo benéfico, eles se uniram ainda mais”, diz uma pessoa que acompanha os bastidores.
“Mas eles vão ter que procurar o consenso, e aparentemente, pelo menos, até agora o cenário atual é tranquilo. E eles tem o Cláudio Ely, ex-RD, no conselho, que passou por tudo isso e pode guiá-los, não são bobos”, diz a fonte.
O tamanho do negócio
Com base nos dados de 2025, o Grupo Petz Cobasi surge com R$ 5,78 bilhões de receita bruta total até setembro, 8,8% de expansão frente a 2024 — se Cobasi avançou mais, 10%, Petz cresceu 7,8%, sendo que a Cobasi é mais rentável.
A margem bruta acumulada de Petz em 2025 está em 39,2%, alta de 0,3 ponto, e na Cobasi, em 45,2%, expansão de 2,7 pontos. A margem Ebitda da Petz em 2025 esta em 7,1% e na Cobasi, 10,1%. Como Petz tem um digital mais desenvolvido, naturalmente isso afeta a rentabilidade, mas é algo que vai acelerar a multicanalidade das duas empresas quando se unirem.
Pelo ritmo de 2025, a Cobasi consegue se expandir com as despesas crescendo à metade da velocidade da receita, enquanto na Petz as duas linhas avançam quase no mesmo ritmo. Só que a Petz consegue ter peso menor dos gastos na receita (32% versus 35%) porque a cadeia vende mais — R$ 500 milhões de diferença no ano — com quase o mesmo número de lojas. Na Petz, são 264 pontos, e na Cobasi, 254.
Com uma olhada nesses números dá para entender sobre a transformação que Nassar fala, em tentar tirar o melhor de ambas, em até três anos, que é o prazo projetado para a integração. Esse processo envolve ainda medidas comportamentais, pouco detalhadas no anúncio da aprovação da fusão, e que precisam ser respeitadas pelo determinado pelo Cade.
Uma das obrigações é não abrir unidades na região próxima das 26 lojas onde irão desinvestir pelo período de 24 meses, e não fazer, por 12 meses, abordagem proativa de clientes nessas áreas. Também não podem comprar em leilões de buscadores na internet o nome de concorrentes, inibindo o poder de fogo no on-line.
Entre as decisões já tomadas, devem permanecer quatro centros de distribuição, um da Cobasi e três da Petz (com o avanço da reforma tributária, isso pode ser revisto). E o software de gestão a ser utilizado será o Totvs Protheus, usado pela Petz, sendo que a Cobasi usa a linha Totvs RMS — historicamente, a unificação de sistemas gera ruído no dia-a a-dia porque mexe com toda a rotina administrativa das redes.
Planos futuros
As empresas devem segurar um pouco o freio de mão em 2026 em termos de inaugurações, considerando os desafios que vão ter que lidar no começo da integração. A Cobasi abriu dez lojas em 2025, e deve manter esse ritmo no ano que vem.
Sobre a Petz, foram quatro inaugurações em 2025, e Zimerman já disse a analistas, em novembro, que é hora de acelerar expansão em serviços, e menos em lojas.
“Acho que a área de serviços vai ser totalmente reestruturada”, diz Nassar. O executivo conta que a Cobasi é mais estruturada em franquias com a Petanjo, com 150 lojas como franqueadora de salões de estética para cães e gatos e clínicas veterinárias, e a ideia é replicar isso, porque na Petz, o plano de franquia não avançou tanto — a rede opera um piloto.
A previsão é de mais 30 franquias da Petanjo em 2026. Já a Petz é forte em hospitais e isso pode ganhar força — são 14 unidades de internação 24 horas da rede Seres.
Pelo já fechado no acordo da transação, é a Cobasi Investimentos que irá incorporar a Petz Investimentos, mediante a emissão, em favor dos acionistas da Petz, de uma ação da nova empresa, além do valor estimado de R$ 0,71 por ação, corrigidos pela taxa do CDI. Haverá a migração dos acionistas da Petz para a base acionária da Cobasi, e eles passarão a deter 52,6% do capital social, e os sócios da Cobasi ficarão com 47,4%.
É uma virada de página depois do susto tomado quando a fusão subiu para a análise do Cade. O acordo já havia sido aprovado pela superintendência-geral do Cade sem restrições, na metade do ano, até que a Petlove resolveu entrar na briga, com envio de recurso em junho, e a situação se complicou.
Com uma artilharia jurídica pesada, alegou risco ao mercado, com uma concentração que levaria a aumento de preços e efeitos danosos aos médios e pequenos. Sugeriu a venda de 105 das 267 lojas da empresa em São Paulo, e de uma das marcas, e o Cade determinou, no último dia 10 de dezembro, a venda de 26 unidades. Há três interessados nas lojas, a própria Petlove, Petcamp e uma terceira rede. Nassar prefere não abrir este nome.