Após uma Black Friday que esfriou depois de um início mais animador no comércio, o mês de dezembro começou em linha com as metas mais conservadoras, e num movimento de vendas ainda morno no mês, segundo fontes do setor consultadas nos últimos dias.
Ocorre que a data comercial batizada 12.12, que seria uma espécie de “esquenta” de Natal, foi afetada pelas tempestades e o vendaval em cidades de parte do país.
Apesar de a ação comercial se concentrar mais no comércio on-line do que em lojas de rua, como problemas derivados da falta de energia ainda se estendiam a diversas cidades durante o fim de semana, o foco da atenção dos consumidores se diluiu na semana passada. Isso reduziu o tráfego nos sites e aplicativos, mostraram as pesquisas de varejistas que mapearam o tema em redes sociais, apurou o Valor.
“Após a hora do almoço na quarta-feira (10) já sentimos tráfego no ‘app’ menor em São Paulo e parte do Sul, com uma ‘barrigada’ mesmo entre a noite de quarta e a tarde da quinta-feira. No dia 12 [data do evento] já veio alguma recuperação, mas aí a gente ‘entra’ atrasado porque não consegue trabalhar melhor as ofertas. Ninguém estava com cabeça para ver promoção de ferro de passar roupa ou air fryer”, disse o gerente de uma plataforma de marketplace.
De acordo com uma segunda fonte da área comercial de um marketplace, as plataformas on-line chegaram a mudar estratégias comerciais na quarta-feira (10).
Ofertas de produtos de Natal na home dos “apps” que dependiam de energia, como celulares e caixas de som, cederam espaço a “powerbanks”, luzes de emergência e até velas, para aproveitar a demanda momentânea gerada. “Quem tinha estoque se deu bem e vendeu rápido”, disse a fonte. Mercado Livre e Shopee trabalharam com descontos de 40% a 50% em powerbanks, por exemplo, liberados a clientes na quarta-feira (10).
Segundo a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), são previstas perdas de R$ 1,5 bilhão com os efeitos climáticos, sendo pouco mais de R$ 1 bilhão no setor de serviços desde a quarta-feira, e R$ 511 milhões no comércio.
Historicamente, a tendência em anos anteriores que iniciaram com dezembro mais fraco é de uma recuperação paulatina nas vendas até as compras de última hora, que ajudam a acelerar a demanda do mês. Ao mesmo tempo, o cenário mais negativo seria se as instabilidades no clima prolongassem o período de chuvas e acabassem “empurrando” as compras do mês para a semana pré-Natal.
Segundo esse executivo, o Natal dá sinais de que haverá crescimento, mas será mais morno neste ano, do que foi em 2024 – no ano passado, a receita nominal cresceu 7,8% frente a 2023, e o volume vendido, 2%, segundo a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) do IBGE. Para ele, a necessidade de os consumidores reduzirem altos níveis de endividamento com a taxa de juros mais elevada pode tirar parte do dinheiro das compras.
Com base em dados publicados pelo Banco Central no fim de novembro, o endividamento das famílias cresceu em 2025, atingindo 49,1% da renda em outubro, 1,1 ponto percentual acima do nível observado um ano antes.
Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) projeta alta real de 2,1% nas vendas de dezembro, para R$ 72,71 bilhões no Natal de 2025. “Entendo que teremos desempenho moderado, porque a sensação é que vivemos em dois Brasis, da renda em crescimento, mas da dívida e da inadimplência em expansão”, disse Fabio Bentes, economista-chefe da CNC.
Segundo o BC, com base em dados de outubro, entre as famílias brasileiras, o atraso nas operações com recursos livres alcançou 6,7%, alta de 1,3 ponto em 12 meses.
Na visão de Bentes, poderá ser um Natal de extremos, com mercado de trabalho pesando de forma favorável, mas o segmento de crédito atuando na ponta negativa, e ainda com efeito inflacionário como fator positivo – por conta da desaceleração dos preços – porém, especificamente com a inflação de serviços ainda pressionando os orçamentos das famílias.
“São muitas variáveis atuando ao mesmo tempo neste ano, o que torna este Natal mais complexo para se mapear, mas acreditamos num período mais morno. Temos que lembrar que, com inflação mais controlada, podemos ter volume melhor, mas receita nominal não fica ‘turbinada’ pela inflação como vimos em outros anos, como 2022”, afirmou.
As projeções do IEMI – Inteligência de Mercado, empresa de dados focada no segmento de moda, são de uma alta de um dígito em volume e valor vendido neste Natal.
O varejo de vestuário deve se expandir 4,7% em quantidade comercializada, e alcançar 957,1 milhões de peças vendidas, e com movimentação estimada em R$ 48,5 bilhões, aumento de 9,4%. Para o setor de calçados, é esperada alta de 4,2% em volume e 9% em valor, para R$ 12,6 bilhões.
Os números são mais otimistas para o comercio on-line, que tem ganhado impulso com a disputa entre as plataformas digitais, especialmente Mercado Livre, Shopee e Amazon, e a oferta mais acelerada de cupons que vão de R$ 10 a R$ 200. Esse varejo responde por 15% do consumo geral – lojas físicas ainda são 85% das vendas no país.
A Abiacom, associação do comércio eletrônico, prevê que o segmento cresça 14,95% na comparação com 2024, quando foram contabilizados R$ 23,33 bilhões entre a semana da Black Friday e 25 de dezembro.
É esperado um ritmo de expansão no total de pedidos de 5%, menor do que no gasto médio, de 9,5% para R$ 700,70 – em parte, efeito da inflação acumulada que encareceu produtos.
Segundo o CEO de uma varejista de eletroeletrônico, as vendas até 11 de dezembro frente ao ano anterior registravam expansão tímida. “Considerando a base 100, estávamos em 101,5 no acumulado, então digamos que está em linha, nem muito forte, nem tão fraco. Se considerarmos os sinais de emprego e renda, poderíamos estar numa venda bem melhor, mas ainda temos duas semanas pela frente.”