Veículo: Valor Econômico
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Data: 08/08/2025

Editoria: Shopping Pátio Higienópolis
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Um ano após fim da ‘guerra das blusinhas’, varejo muda o jogo

Passado um ano do fim da isenção do imposto de importação para os sites asiáticos, redes de moda locais batem recordes de resultado ou de clientes ativos, reduzem remarcações de preços e passam a investir em novos modelos de produtos e de lojas.

O rigoroso inverno de 2025, mais longo que nos últimos anos, também favoreceu os negócios, já que a coleção tende a ter rentabilidade mais alta. Mas é fato que se fossem só as temperaturas mais baixas, não daria para registrar um trimestre desse calibre.

Números publicados pela Lojas Renner, Riachuelo e C&A nos últimos dias mostram vendas com crescimento entre 12% e 19% no segundo trimestre, e lucro líquido chegando a dobrar frente a 2024 – caso da Riachuelo – além de endividamento em queda ou até zero alavancagem. Isso num momento em que balanços das companhias abertas já expõe o tamanho do baque da alta taxa de juros (Selic) nos resultados.

É bom destacar que não se trata de uma alta forte porque a base de comparação é ruim – todas cresceram mais de 10% em 2024.

Há o efeito de um menor embate com as plataformas da China, algo que afetava vendas e margens, mas também houve ajustes necessários em gestão e estratégias nos últimos anos.

Em parte, há reflexos sendo colhidos de mudanças mais recentes, de 2024 para cá, mas existe efeito de decisões tomadas anos atrás, especialmente no digital, área em que faltava agilidade maior das cadeias de vestuário brasileiras até 2019, afirmam especialistas.

A maior concorrência dos grupos estrangeiros, além do efeito da pandemia, que impulsionou o on-line, obrigou as redes a se mexerem mais rapidamente, e há frutos sendo colhidos ainda desse período.

Controlada pela Guararapes, do empresário Flavio Rocha, a Riachuelo teve o melhor segundo trimestre de sua história em vendas, e apurou a margem Ebitda mais elevada para o mesmo período em sete anos. O índice mede lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação. Para analistas, a rede foi o destaque do período entre as cadeias – a ação ontem fechou em forte alta de 13,58%, a R$ 9,20.

Na rede, a receita líquida total cresceu 13,9%, para R$ 2,6 bilhões, e como a venda cresceu menos que os gastos, e a despesa financeira caiu (mesmo com pressão dos juros), o lucro acabou subindo 151%, para R$ 143,2 milhões. A margem bruta subiu 2,1 pontos, para 53,4%. A varejista tem 436 lojas.

André Farber, diretor-geral da Riachuelo, disse a analistas que as melhorias de margem bruta vieram, em parte, de uma combinação de fatores estruturais, como ganhos de produtividade na fábrica e a redução dos níveis de remarcação de preços. O desempenho reflete, de certa forma, uma dura decisão, em 2023, quando a cadeia fundiu a operação fabril de de Fortaleza (CE) na unidade de Natal (RN), para cortar custos e tentar fazer mais com menos.

“Estamos conseguindo entregar o ‘SKU’ [item] certo da categoria certa na loja certa, num CD muito mais automatizado, no Rio Grande do Norte, e isso teve efeito na nossa produtividade e na margem”, afirmou ele. O grupo ainda lançou, em junho, um novo tipo de camiseta, baseada num tipo de fio da linha “D-Ultras”, com “atributos tecnológicos”. Algo que para alguns, lembra o marketing da japonesa Uniqlo, referência em qualidade, e varejista a léguas de distância de seus competidores globais.

Historicamente mais conservadora e “low profile” que as suas concorrentes, a C&A informou que voltará a acelerar investimentos após o segundo semestre. Pelo menos desde a pandemia, a empresa vinha segurando um pouco o freio de mão, com foco em investimentos em tecnologia de 3 a 4 anos para cá – o que foi fundamental para uma mudança de percepção frente a investidores -, mas ela passou a abrir lojas abaixo do seu potencial.

Paulo Correa, CEO do grupo. disse ontem que a companhia deve fechar o ano com oito aberturas, e a ideia é atingir de 15 a 20 em 2026, um patamar de inaugurações perto daquele dos anos pré-pandemia. “Vamos retomar a dinâmica de abertura de lojas”, disse ele.

Deve ajudar nesse processo o nível de endividamento baixo, em 0,3 vez no segundo trimestre, o menor desde a abertura de capital, em 2019. Além disso, será lançado um plano de aceleração de investimentos logísticos de R$ 200 milhões a R$ 250 milhões em três anos, para a distribuição ficar mais perto das lojas, para cortar prazo de entrega.

A rede também anunciou um novo conceito de loja, mais moderno, que deve ser o padrão para novas unidades e reformas. A primeira unidade será inaugurada no dia 22, um dia antes da abertura da primeira loja da sueca H&M no Brasil, no Shopping Iguatemi, a meca do alto luxo da cidade. A unidade da C&A será no Shopping Center Norte, zona norte de São Paulo.

Os anúncios não animaram muito o mercado, e a ação da C&A fechou em queda de 8,37% ontem. Possibilidade de expectativas muito acima do entregue, e uma diluição menor de despesas podem ter afetado o humor de investidores, mas gestores ouvidos viram uma reação exagerada no mercado. A receita líquida consolidada da C&A cresceu 12,5%, para cerca de R$ 2 bilhões de abril a junho, e o lucro subiu 139%, para R$ 200,3 milhões.

Na noite de ontem, a Renner publicou balanço com receita líquida de varejo de R$ 3,6 bilhões, alta de 18,5%. A venda “mesmas lojas” subiu mais que nas rivais, 18,6%, mas a base de comparação de 2024 da cadeia é menor. A margem bruta subiu quase um ponto, para 58,4%, favorecida pelo mix de inverno, pela redução de remarcações (algo que foi a tônica do setor no trimestre) e pelo repasse da inflação.

O lucro líquido subiu 28%, a menor variação entre as cadeias, mas a Renner lucra bem acima das competidoras – foram R$ 404,5 milhões de abril a junho, com o dobro de margem líquida. Entre as mudanças estruturais, a Renner comunicou que o on-line começou a entregar todos os itens das novas coleções a partir do novo centro de distribuição de Cabreúva (SP), o projeto foco dos últimos anos.

Em parte, são movimentos dentro de um entendimento de que as rivais asiáticas, especialmente Shein e ApliExpress, continuarão pagando imposto de importação de 20%, mais 17% de ICMS em compras de até US$ 50. “Há um projeto de lei para voltar a isenção para elas, mas a direção das empresas não acredita que isso passa pelo Congresso agora”, diz uma fonte.