O presidente Donald Trump diz que seus anúncios sobre tarifas, previstos para hoje, serão um “Dia da Libertação” para os Estados Unidos. Mas as empresas americanas e os mercados financeiros não serão libertados da incerteza gerada por sua política comercial frequentemente instável.
Algumas questões serão resolvidas quando Trump anunciar o que se espera serem tarifas “recíprocas”, que envolvem o aumento das taxas de importação dos EUA para se equipararem às tarifas que outros países impõem a produtos americanos. As empresas terão uma noção mais clara de quantos países serão afetados e do tamanho das tarifas.
Mesmo assim, economistas dizem que restará dúvidas sobre o comércio e as tarifas nos próximos meses. Mais tarifas estão previstas e poderão atingir setores específicos como o farmacêutico, o de cobre e o de madeira. E os EUA poderão fechar acordos com outros países que poderão alterar as tarifas recíprocas. Além disso, haverá inúmeros detalhes que podem levar meses para serem resolvidos, a fim de determinar com precisão quais importações serão taxadas.
Como resultado, poucos analistas acreditam que o anúncio de hoje traga a certeza que muitas empresas – e os investidores de Wall Street – esperam.
“O dia 2 de abril é quando tudo começará, e não quando tudo terminará”, disse Kelly Ann Shaw, ex-assessora sênior de comércio da Casa Branca durante o primeiro mandato de Trump. “Em algum momento isso vai se estabilizar. Mas, como estamos bem no começo do que será fundamentalmente uma reavaliação total do sistema comercial mundial, haverá muito mais perguntas do que respostas no curto prazo.”
Por enquanto, um índice de incerteza sobre a política econômica mantido por Nicholas Bloom, economista da Universidade Stanford, e dois colegas, encontra-se em seu nível mais alto – com exceção do período da pandemia – desde sua criação em 1985.
Quando as empresas não têm certeza do rumo que a política econômica está tomando, elas ficam mais propensas a suspender grandes projetos de investimentos e desaceleram as contratações, diz Bloom. E quando estão inseguros, os consumidores geralmente adotam uma postura mais cautelosa em relação aos gastos.
“Dois de abril poderia reduzir a incerteza se fosse um anúncio único e definitivo sobre tarifas”, acrescenta Bloom. “Mas suspeito que será um de uma série de anúncios.”]
Trump “tem sido inequivocamente claro há décadas sobre a necessidade de restaurar a grandeza americana”, disse o porta-voz da Casa Branca, Kush Desai. “Os EUA não podem ser só uma montadora de peças de fabricação estrangeiras. Precisamos nos tornar uma potência industrial que domine cada etapa da cadeia de abastecimento de indústrias que são essenciais à nossa segurança nacional e interesses econômicos.”
Randy Carr, CEO da World Emblem, diz esperar que os produtos que ele fabrica no México e no Canadá enfrentarão uma tarifa de 25% a partir de hoje. A companhia já notificou os clientes que elevará seus preços em 8%. A World Emblem produz emblemas, adesivos e etiquetas para empresas, universidades e agências de segurança.
Em fevereiro, Carr suspendeu cerca de US$ 9 milhões em investimentos, a maior parte dos quais ele planejava aplicar em inteligência artificial e comércio on-line. Ele começou a gastar parte desse dinheiro, mas está fazendo isso mais lentamente do que gostaria. “Não sabemos se precisaremos do dinheiro para tarifas. Quem sabe o que vai acontecer nesta quarta!”
Tarifas já foram impostas sobre automóveis, alumínio e todas as importações da China. Pesquisas revelam uma incerteza generalizada entre empresas do setor industrial e até mesmo entre executivos de empresas petrolíferas, que afirmam que os custos mais altos com tubos de aço reduzirão seus lucros.
A Emerald Packaging, que fabrica embalagens para produtos hortifrutigranjeiros e cujos clientes incluem o Walmart e a Kroger, está segurando seus investimentos por enquanto, devido às incertezas.
Haverá muito mais perguntas do que respostas no curto prazo”
— Kelly Ann Shaw
O CEO Kevin Kelly disse que a sua empresa, a Union City, da Califórnia, aprendeu uma grande lição no auge da pandemia. Ela começou 2021 com US$ 7 milhões em caixa, mas esgotou suas reservas no fim daquele ano devido aos custos de lidar com problemas nas cadeias de abastecimento. “Não estamos gastando dinheiro agora. Estamos tentando acumular caixa… porque vamos precisar de reservas”, diz ele.
Um dos motivos pelos quais a perspectiva nebulosa em torno das tarifas deverá permanecer por meses é que Trump quer manter alguma incerteza sobre seus próximos passos como uma estratégia de negociação, diz Shaw.
“A ambiguidade intencional é um componente importante” de sua abordagem às negociações comerciais, continua Shaw. Essas negociações provavelmente começarão após as tarifas recíprocas serem anunciadas e podem levar meses para serem resolvidas.
Ao mesmo tempo, Trump deverá receber uma série de relatórios esta semana sobre as políticas comerciais de outros países, incluindo tarifas, mas também subsídios, manipulação cambial e políticas fiscais que segundo autoridades do governo Trump podem distorcer o comércio. Esses relatórios poderão levar a novas medidas.
Depois, há o amor confesso de Trump por tarifas e sua disposição de usá-las para uma variedade de objetivos políticos, incluindo aumentar a receita, forçar medidas contra o tráfico de fentanil e reerguer o setor industrial americano. A Casa Branca também disse que imporá tarifas de 25% a qualquer país que importar petróleo da Venezuela, embora isso também inclua os EUA.
“Como as tarifas parecem ser uma resposta para todos os problemas, quem sabe o que poderá acontecer em seguida e o que levará a mais uma rodada improvisada de tarifas?”, diz Marc Busch, professor de diplomacia de negócios internacionais na Universidade Georgetown.
Uma grande dúvida para a economia é quanto tempo isso poderá durar. Matthew Luzzetti, economista do Deutsche Bank, diz que mesmo se o anúncio de hoje fosse a palavra final sobre as tarifas, a incerteza em torno das ações do presidente até agora poderá reduzir o crescimento em cerca de 1% por vários trimestres. “Se a incerteza se estender mais, ou permanecer elevada por mais tempo, isso somente amplificaria os efeitos”, afirma Luzzetti.
Neil Bradley, diretor de políticas da Câmara de Comércio dos EUA, diz que mesmo que o anúncio de hoje traga mais certezas, as novas tarifas vão prejudicar a economia. “Na medida em que o dia 2 de abril trouxer alguma clareza, então será possível começar a fazer ajustes e planos. Mas ter certeza sobre políticas economicamente danosas não é algo positivo”, afirma ele.