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Data: 02/04/2025

Editoria: Americanas, L-Founders
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Americanas ameaçou romper com bancos, diz ex-CFO em delação

Fabio Abrate disse que as instituições, em diferentes momentos, teriam cedido para manter o relacionamento com a companhia

Por Adriana Mattos e Talita Moreira — De São Paulo
02/04/2025 05h01 Atualizado há 6 horas

As declarações estão em denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra 13 ex-diretores da Americanas — Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

As declarações estão em denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra 13 ex-diretores da Americanas — Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

A delação premiada do ex-diretor financeiro da Americanas Fabio Abrate, que veio à tona agora, traz declarações do ex-executivo sobre como o comando da varejista teria pressionado os bancos para fechar acordos de antecipação de recebíveis sem informá-los devidamente aos auditores. Ele diz que as instituições, em diferentes momentos, teriam cedido para manter o relacionamento com a Americanas. Os bancos refutam.

As declarações estão em denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra 13 ex-diretores da Americanas. Abrate é um dos três delatores do esquema e que entrou por último no acordo – por isso, precisava tentar mostrar algum avanço nas informações. Além deles, foram colaboradores Marcelo Nunes, ex-diretor executivo financeiro da Americanas, e Flávia Carneiro, ex-diretora executiva de controladoria.

Abrate não entrou no acordo de cooperação incentivada aberto pela varejista. Ele procurou diretamente o MPF na segunda metade de 2024, quase um ano e meio após a descoberta da fraude e quando seu envolvimento já era conhecido. A homologação do acordo foi feita em março de 2025 e demorou mais que a dos dois primeiros delatores. Pelo fato de ter colaborado, Abrate não foi denunciado pelos quatro crimes de organização criminosa, manipulação de mercado de capitais, uso indevido de informações privilegiadas e falsidade documental.

Segundo a procuradoria, os delatores deram “mais clareza” às investigações, mas foram as provas digitais que nortearam o trabalho. Segundo o MPF, a fraude começou em fevereiro de 2016 e foi até dezembro de 2022. A denúncia ainda abre mais dados sobre como era a fabricação de notas falsas de fornecedores, que inflava as verbas de propaganda da empresa. Segundo o MPF, e o conselho também foi ludibriado pelos ex-diretores.

Abrate afirmou que a fraude poderia ter acabado em 2016 se os bancos tivessem se negado a cooperar com a rede a camuflar essas operações, chamadas de risco sacado, e mencionado claramente essas linhas na documentação enviada à auditoria da varejista.

As declarações fazem referência ao episódio em que a varejista – com Abrate à frente desse processo – pediu aos bancos que deixassem de fora das cartas de circularização as referências ao risco sacado (uma operação de antecipação de recebíveis de fornecedores). “Se o banco interrompe naquele momento, a gente não tinha chegado aonde chegou. O banco não apontar na carta de circularização [documento enviado às auditorias] foi decisivo para a perpetuação da fraude”, alega o delator.

Abrate diz que a companhia chegou a ameaçar romper os contratos com os bancos se não tendessem o pedido. Uma vez acertada a forma como seriam escondidos os dados entre o executivo e os bancos, numa negociação “acalorada” entre as partes, diz ele, o modelo criado passou a vigorar entre 2016 e 2022.

Há um momento da delação em que o procurador da República Paulo Sergio Ferreira Filho pergunta a Abrate se ele simplesmente dizia mesmo isso, e com quais bancos isso era tratado. Abrate responde que isso foi dito por ele para Itaú e Santander. Os bancos negam qualquer irregularidade.

“Minha função era muito simples, eu negociava com os bancos. Então, eu falei, se for isso [declarar existência do risco sacado], acabou a operação”, disse Abrate. “Ou não apresenta, ou a gente vai trocar [de banco]”.

A ausência dessa informação nas cartas de circularização ajudou a Americanas a ocultar uma dívida de R$ 25 bilhões.

O Itaú afirma que não aceitou tirar da carta a informação sobre risco sacado. No entanto, a Americanas pediu informações adicionais sobre algumas linhas de crédito, que incluíam o risco sacado, e aparentemente esse material foi usado como carta de circularização pela empresa.

Procurado, o Itaú negou, por meio de nota, qualquer participação, direta ou indireta, na fraude contábil, e afirma que a elaboração dos balanços é de responsabilidade da administração da Americanas. Ainda repudia qualquer tentativa de responsabilização de terceiros por falhas ou fraudes nessas demonstrações. O banco afirma que diretores da Americanas interagiram com representantes do Itaú no sentido de retirar os alertas. Mas o banco nunca concordou com o pedido e, diferentemente do que informou Abrate, manteve o texto que sinalizava a exposição da companhia ao risco sacado.

O banco ainda diz que sempre prestou às auditorias e aos reguladores informações corretas e completas sobre as operações contratadas, conforme legislação vigente e melhores práticas de mercado. Afirma também que os informes enviados às auditorias sempre alertavam para a existência do risco sacado e da exposição de crédito da companhia aos fornecedores, e que chegou a interromper, por mais de seis meses, as operações de risco sacado. O Santander diz, também por meio de nota, que não tem ingerência, supervisão ou responsabilidade sobre as demonstrações financeiras da rede. Afirma que a própria varejista informou em junho de 2023 que os balanços foram fraudados pela diretoria anterior. E que o banco sempre informou os saldos das operações da empresa nas cartas de circularização e ao Sistema Central de Risco do Banco Central.

“O Santander repudia qualquer insinuação contrária à lisura e correção em sua relação com a empresa, reiterando ter sido também vítima das fraudes.”