Lílian Cunha Colaboração para o UOL
31/03/2025 15h13
Loja Minuto Pão de Açúcar
Imagem: Pão de Açúcar/Divulgação
As ações do GPA Grupo Pão de Açúcar (PCAR3) estão em alta de mais de 10% hoje, passando de R$ 2,72 para mais de R$ 3.
O movimento acontece após o GPA ter divulgado que o fundo Saint German, gerido pela Trustee, do empresário Nelson Tanure, pediu uma reunião extraordinária dos sócios para destituição integral do Conselho de Administração da varejista.
O que está acontecendo?
Possível fusão e mudança no conselho animaram investidores. O mercado gostou das notícias recentes sobre o GPA e, por volta de 14h, as ações estavam em alta de 11,76%, para R$ 3,04. E motivo é a possível fusão da rede Dia com o GPA.
A história toda começou em maio de 2024. Até então, o Grupo Dia anunciou a venda de toda a sua operação no Brasil. A empresa espanhola estava no Brasil há 23 anos e passava por uma recuperação judicial. Fechou 343 lojas e ficou com 244
Em dezembro, por meio do fundo Arila, Nelson Tanure assumiu o controle do grupo. O passo seguinte foi, no mesmo mês, aumentar a participação do fundo Reag Trust no GPA para 9,56%. Em janeiro, a Trustee, de Tanure, passou a gerir os fundos que eram da Reag e que detinham participação no GPA.
O objetivo de Nelson Tanure é realizar a fusão da rede Dia com o GPA. Para isso, Tanure, junto de Ronaldo Iabrudi (ex-presidente e atual conselheiro do GPA e do Casino, que controlou o GPA até março do ano passado), entraram com o pedido de Assembleia Geral Extraordinária dos sócios para destituição do conselho. Três nomes serão mantidos e outros seis novos devem assumir o comando da empresa de supermercados.
Os novos membros seriam:
Helene Bitton, diretora de fusões e aquisições do Casino
Líbano Barroso, ex-vice-presidente e conselheiro fiscal do GPA e também ex-membro do conselho da Casas Bahia (BHIA3) e indicado por Iabrudi
Sebastián Los, ex-presidente e ex-diretor financeiro da Cencosud Brasil
Pedro Borda, membro do conselho da Aliança Saúde, empresa de Tanure
Rodrigo Tostes, diretor financeiro da Light, de Tanure
Eliana Chimenti, conselheira da Hypera (HYPE3)
Ronaldo Iabrudi seria o novo presidente do grupo. Ele ocuparia o lugar de Marcelo Pimentel (que seguiria no conselho, com Cristophe Hidalgo e o próprio Iabrudi)
Quem é Nelson Tanure?
É uma figura polêmica do empresariado brasileiro. Tanure conhecido por comprar empresas em dificuldades para vendê-las mais caro adiante. Natural de Salvador, começou a fazer esse tipo de negócio nos anos 80, com empresas do setor de estaleiros e petróleo.
Fez fortuna ao adquirir a Sequip, de serviços de engenharia voltada para a indústria de petróleo. Na sequência, investiu no setor naval ao adquirir o estaleiro Verolme, que estava em concordata. Nos anos 2000, adquiriu a Intelig por R$ 10 milhões e a vendeu mais tarde para a TIM por cerca de R$ 650 milhões.
Ele também acumula fracassos. Em 2001, assumiu o Jornal do Brasil. Dois anos depois, arrendou a Gazeta Mercantil, jornal de economia fundado em 1920. O JB saiu de circulação em 2018 por sete anos e só voltou ao digital depois de Tanure ceder a marca. A Gazeta foi extinta em 2009.
Hoje, ele é sócio de várias empresas. Dentre elas, a Light (LIGT3), Alliança Saúde (AALR3), Gafisa (GFSA3), PRIO (PRIO3), TIM Brasil (TIMS3), Docas, Sequip e Ligga (energia). “Tanure construiu uma reputação de investidor ousado, que busca reverter situações críticas com estratégias agressivas de corte de custos, venda de ativos e mudança na gestão”, diz Daniela Lopes, planejadora financeira e assessora da Ébano Investimentos.
Por que o mercado reagiu bem?
Pode colocar a ‘casa em ordem’. Ele é visto por parte do mercado como alguém capaz de destravar valor e recuperar empresas enfraquecidas. “No caso do GPA, a presença de Tanure é interpretada como uma tentativa de colocar a casa em ordem”, diz Daniela.
A companhia enfrenta dificuldades operacionais. No quarto trimestre de 2024, o GPA teve prejuízo líquido de R$ 1,1 bilhão, aumento de 264,6% em relação ao mesmo período de 2023.
Possível fusão com a rede Dia poderia fortalecer a competitividade da operação. “Também ampliaria a presença da companhia no varejo alimentar”, diz Daniela.
Para a Ativa Investimentos, entretanto, ainda é cedo para definir se esse movimento é positivo ou negativo. “Esperamos que a companhia não se desvie de seu foco, principalmente pelo fato de o grupo ter marcas fortes e com boa rentabilidade”, publicou a corretora, em relatório sobre o tema. A Ativa não recomenda nem a compra, nem a venda da ação. “Há receios de que decisões mais radicais possam afetar a imagem institucional do GPA ou levar a disputas internas”, completa Daniela.