Segundo analistas, alta das ações da varejista está relacionada a movimento de “short squeeze”
Publicado por: Broadcast Exclusivo
4 minutos
Atualizado em
24/03/2025 às 16:17
Por Fabiana Holtz, Gustavo Boldrini e Júlia Pestana, do Broadcast
São Paulo, 24/03/2025 – A surpreendente alta de 202% das ações da Casas Bahia (BHIA3) no mês de março, com disparada de 45% apenas na semana passada, tem chamado a atenção de diversos investidores e suscitado dúvidas sobre as motivações para o movimento. Seria algo somente técnico, ou há algo de mais sólido por trás desse otimismo?
Analistas ouvidos pelo Broadcast citam como principal explicação o movimento técnico conhecido como “short squeeze“, que ocorre quando há um grande volume de investidores posicionados em contratos derivativos de venda (short) para o papel. As ações acabam subindo, e esses investidores precisam desfazer suas posições, o que causa um movimento de forte alta no ativo.
Apenas no mês de março, a ação BHIA3 saltou de R$ 2,65 para R$ 8,00, considerando o fechamento do pregão da última sexta-feira (21). Em 2025, a alta acumulada está em torno de 180%. Na avaliação de analistas consultados pelo Broadcast , há espaço para avanços no preço, mas 2025 continua desafiador para a companhia.
Ninguém quer ficar de fora
Nos primeiros dias do mês, no retorno do carnaval, a varejista conseguiu apagar as perdas registradas em fevereiro em apenas três pregões. No dia 11, ao Grupo Casas Bahia informou em comunicado enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que o investidor Rafael Ferri atingiu participação de 5,11% do capital social da companhia. A aquisição foi feita tanto em posição de pessoa física quanto por meio de empresas sob controle de Ferri. A notícia acentuou a alta do papel e trouxe mais volatilidade.
Pedro Accorsi, analista da Ticker Research, pondera que uma valorização tão expressiva como essa em tão pouco tempo dificilmente se explica por um único fator. Normalmente, é resultado da combinação de diversos elementos – e, no caso da Casas Bahia, não foi diferente.
“O ponto de partida provável desse movimento foi a entrada do executivo Rafael Ferri no quadro de acionistas da companhia, rapidamente alcançando mais de 5% de participação. A abertura de uma nova posição relevante costuma provocar fortes altas na cotação, pois sinaliza ao mercado um possível ponto de inflexão”, observa.
Esse movimento inicial de compra atraiu a atenção de outros investidores, que, temendo perder a oportunidade, passaram a adquirir ações da empresa, amplificando ainda mais a alta. Esse movimento é conhecido pela sigla em inglês FOMO, de “fear of missing out“, ou “medo de ficar de fora” de algo – no caso, de um investimento.
Em paralelo, Accorsi aponta que as ações da Casas Bahia figuravam – e ainda figuram – entre as mais vendidas a descoberto (short) do mercado, com um porcentual elevado de posições apostando na queda do ativo. Diante de uma valorização tão intensa, investidores vendidos são pressionados a encerrar suas posições para limitar prejuízos, recomprando ações a mercado.
Fluxo e melhora de fundamentos, na visão de Hugo Queiroz, sócio e diretor da L4 Capital, levaram diversas casas ou investidores que estavam posicionados contra papel, que não acreditavam na reestruturação da companhia, a desmontar posições – o chamado short Squeeze.
“Com geração de caixa e dívida equacionada, a empresa deve continuar entregando como fez em 2024”, avalia Queiroz.
Quanto à continuidade desse movimento na ação, é impossível afirmar com precisão, afirmam os analistas. A alta pode se prolongar por algum tempo ou se encerrar repentinamente, com correções acentuadas na sequência. Tudo dependerá da persistência da demanda por compra.
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Melhora no balanço, mas ano segue desafiador
Na leitura do mercado, o resultado operacional de Casas Bahia nos últimos três meses de 2024 melhorou, mas a lucratividade ainda deixou a desejar. Para os analistas da Genial, o ano será de ‘grande desafio’ para a varejista, por causa da alta alavancagem financeira e incertezas no segundo semestre.
Em teleconferência sobre os resultados, o CEO do Grupo, Renato Franklin, afirmou que a companhia dará continuidade ao plano de transformação, iniciado em agosto de 2023, e espera que a segunda fase seja concluída no final deste ano.
Para Franklin, a busca gradual da empresa por rentabilidade já esteve refletida no lucro bruto de R$ 2,5 bilhões no último trimestre de 2024, que representou alta de 20,3%. A margem bruta de lucro, por sua vez, foi de 30%, ganho de 3,2 ponto porcentual ante um ano antes.
“O nosso compromisso não é com crescimento, é com a rentabilidade”, afirmou o executivo, em teleconferência para explicar os resultados do quarto trimestre de 2024.