Cerca de 5,7 milhões de pessoas estavam esperando uma consulta no Sistema Único de Saúde (SUS) e outras 600.400 aguardavam uma cirurgia em janeiro deste ano, segundo dados do Sistema Nacional de Regulação (Sisreg), software do governo federal para gerir o acesso à rede pública de saúde do país. Os números, porém, podem ser muito maiores. Embora a ferramenta seja a única usada pelo Ministério da Saúde para controlar quem entra e quem sai das filas de atendimento, as informações são incompletas, conforme admite a própria pasta. Especialistas afirmam que o apagão de dados dificulta a criação de políticas públicas.
As informações que abastecem o sistema são enviadas pelas secretarias estaduais e municipais de saúde, mas elas não são obrigadas a utilizar a ferramenta. O resultado é que 13 das 27 unidades da federação não preenchem ou preenchem de forma parcial os dados sobre os pacientes que estão nas filas de atendimento. Além disso, dez capitais, incluindo São Paulo e Belo Horizonte, têm sistemas próprios, que não estão integrados ao federal.
Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que a decisão de se criar o novo sistema ocorreu “diante das falhas apresentadas pelo Sisreg”. “O envio de dados periodicamente por parte dos gestores locais será obrigatório, independentemente do sistema utilizado pelos estados e municípios. Em até 30 dias, o plano operacional será definido conjuntamente pelos três entes”, diz.
A secretaria municipal de São Paulo, por sua vez, também informou que usa seu próprio sistema por entender ser “adequado ao volume de dados e o monitoramento da cidade”. Em Belo Horizonte, a prefeitura disse que já iniciou processo para compartilhar os dados com o Ministério da Saúde.
Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a especialista em saúde pública Lígia Bahia critica o fato de o Ministério da Saúde até hoje não ter um sistema confiável para controlar os atendimentos especializados.
Como o Ministério da Saúde pode ter política que não é baseada em evidência? Precisamos de dados de tempo de espera, mas também de qualidade [do atendimento]. Pessoas fazem cirurgias de catarata em mutirões e ficam cegas— Lígia Bahia, especialista em Saúde Pública
— Como o Ministério da Saúde pode ter política que não é baseada em evidência? Precisamos de dados de tempo de espera, mas também de qualidade [do atendimento]. Pessoas fazem cirurgias de catarata em mutirões e ficam cegas — disse ela.
Operação da PF
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Mas não é apenas a falta de dados que preocupa o governo e especialistas em saúde pública. Em janeiro, a Polícia Federal deflagrou uma operação para apurar um esquema de inserção de dados fraudulentos no Sisreg.
Segundo as investigações, servidores da Secretaria Municipal de Queimados, na Região Metropolitana do Rio, colocavam seus nomes e familiares no sistema para depois negociar o lugar na fila para consultas, exames e cirurgias com quem realmente precisava desses atendimentos. As vagas, segundo a PF, ficavam em poder de um grupo político e depois eram usadas como moeda de troca.