Veículo: O Globo
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Data: 17/03/2025

Editoria: Shopping Pátio Higienópolis
Assuntos:

Vendas do varejo caem 0,1% em janeiro, diz IBGE

 

O resultado veio abaixo das projeções de consenso dos analistas de mercado, que esperavam alta de 0,3%, conforme pesquisa do jornal Valor.

Segundo o IBGE, foi a terceira queda seguida de um mês ante o imediatamente anterior, ainda que as variações tenham sido “muito próximas de zero”.

O IBGE também revisou para baixo o desempenho do varejo em dezembro. Inicialmente, o órgão havia anunciado uma queda de 0,1% nas vendas do varejo restrito ante novembro de 2024, agora, a queda passou para 0,3%.

Em janeiro, o nível do volume de vendas do varejo restrito ficou 0,6% abaixo do patamar recorde da série histórica do IBGE, que foi registrado em outubro de 2024.

— Viemos num crescimento até outubro, que vai culminar no topo da série e, depois, são três meses com variações próximas de zero — afirmou Cristiano Santos, gerente da PMC. — Há uma mudança de trajetória, no sentido de que havia um crescimento mais forte, seguido dessa estabilidade.

É mais um sinal de esfriamento do consumo das famílias, que registrou queda no fim do ano passado, puxando o freio da economia. Na passagem de dezembro para janeiro, os serviços recuaram 0,2%, como informou o IBGE na quinta-feira.

Segundo Santos, a aceleração da inflação, especialmente nos preços de alimentos, é a principal responsável pelo arrefecimento das vendas do varejo nos últimos três meses.

Queda de vendas em 4 de 10 atividades

 

Das dez atividades pesquisadas na PMC, e para as quais há comparação com o desempenho do mês imediatamente anterior, com ajuste sazonal, quatro amargaram queda nas vendas em janeiro ante dezembro.

Segundo o IBGE, o varejo restrito registrou queda nas vendas de janeiro ante dezembro de 2024 porque “dois setores de grande peso no indicador mostraram variações negativas nessa comparação”.

São eles:

  • Hiper e supermercados, produtos alimentícias, bebidas e fumo (com queda de 0,4% ante dezembro) e
  • Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, e de perfumaria (-3,4%).

 

O último registrou sua quarta queda consecutiva, informou o IBGE.

Conforme Santos, o desempenho dos dois setores sinaliza para o peso da inflação. Os supermercados e as farmácias são tipos de lojas que vendem produtos mais básicos, cuja demanda é afetada mais diretamente pela alta de preços.

Emprego esfria e juros sobem

 

Santos lembrou ainda que o mercado de trabalho começou a arrefecer. A massa de rendimentos continuou em alta, mas a população ocupada já apresentou queda na comparação do trimestre móvel encerrado em janeiro ante o período imediatamente anterior.

Além disso, as taxas de juros estão mais elevadas, embora o crédito tenha crescido em janeiro, acrescentou o pesquisador do IBGE:

— Aumentar a taxa de juros diminui o crédito, ou aumenta a chance de diminuir o crédito, e, com isso, também diminui a disponibilidade de recursos para consumir no varejo.

Desempenho melhor no varejo ampliado

 

Na comparação com janeiro de 2024, as vendas subiram 3,1%. De acordo com o IBGE, foi o 20º mês seguido de alta nessa base de comparação.

No varejo ampliado, que inclui as atividades de veículos, material de construção e atacado de produtos alimentícios, o resultado veio melhor.

As vendas avançaram 2,3% na passagem de dezembro de 2024 para janeiro deste ano. Ante janeiro de 2024, houve alta de 2,2%, completando uma sequência de 12 meses seguidos de avanços nessa base de comparação, informou o IBGE.

O desempenho do varejo ampliado foi melhor porque as duas atividades que não estão incluídas no varejo restrito registraram forte alta nas vendas na passagem de dezembro de 2024 para janeiro último.

As altas foram:

  • Veículos, motos, partes e peças (4,8%) e
  • Material de Construção (3,0%)

 

A terceira atividade pesquisa no varejo ampliado, Atacado de produtos alimentícios, bebidas e fumo, viu suas vendas tombarem 10,4% ante janeiro de 2024.

Esse setor foi incluído mais recentemente e, por isso, ainda não tem a variação com ajuste sazonal, que compara as vendas de um mês com o imediatamente anterior.

O que dizem os analistas

 

Na avaliação de economistas, a retração das vendas do varejo em janeiro confirma o processo de desaceleração da economia, que começou no quarto trimestre de 2024. Alguns analistas classificaram o movimento de “gradual”, apesar do resultado abaixo do consenso das projeções.

Para Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, a desaceleração está ocorrendo, claramente, mas com alguns sinais “ambíguos”, de altos e baixos, que garantem o ritmo gradual do esfriamento da economia.

— O Caged (dados de geração de empregos formais) veio bem, o desemprego subiu, mas subiu não tanto assim, e tem outros dados que estão, de fato, mostrando uma desaceleração que está mais consistente. A indústria e os serviços continuam desacelerando, a ocupação está desacelerando, os indicadores de confiança da FGV caíram com força em janeiro e fevereiro — resumiu Vale.

Luís Otávio Leal, economista-chefe da gestora e assessoria financeira G5 Partners, em relatório divulgado nesta sexta-feira, chamou a atenção para o fato de que, embora o desempenho do varejo restrito tenha vindo abaixo do consenso das projeções, o varejo ampliado veio acima do esperado — o consenso das projeções era de um crescimento de 1,6%, segundo pesquisa do jornal Valor, ante os 2,3% de fato verificados.

E as vendas do varejo ampliado são mais importantes para o PIB como um todo, escreveu Leal. Vale, da MB Associados, citou essa discrepância entre os desempenhos das vendas do varejo restrito e do varejo ampliado como mais um sinal da ambiguidade da desaceleração da economia.

Para a equipe de economistas da corretora Genial Investimentos, o crescimento do consumo das famílias será limitado nos próximos trimestres. Os principais obstáculos, elencaram num relatório, serão “a elevação do risco fiscal, incertezas em torno da nova agenda econômica do governo norte-americano, inflação de alimentos elevada e piora das condições de crédito”.

“Seguimos avaliando que o processo de arrefecimento da economia será gradual, sob a expectativa de que o mercado de trabalho permaneça robusto e que a política fiscal siga expansionista ao longo deste ano, dando suporte ao consumo das famílias, sobretudo na primeira metade de 2025”, diz o relatório da Genial Investimentos.

Vale, da MB Associados, lembrou de mais um motor que manterá algum aquecimento da demanda, mesmo diante do esfriamento do consumo: o desempenho da agropecuária. O PIB da agropecuária poderá crescer em torno de 10% neste primeiro trimestre, estimou o economista.

O bom desempenho, puxado por mais uma safra recorde de grãos, não só levará dinamismo para o PIB como um todo, garantindo um crescimento econômico em torno de 1% frente o quarto trimestre de 2024, como também impulsionará o consumo das famílias nas regiões agrícolas do interior, especialmente no Centro-Oeste.

— Não é um cenário de desaceleração contratada para todo mundo, em que o ajuste já está acontecendo com força, e o BC terá liberdade para já pensar em baixar a taxa de juros. É uma desaceleração que é regionalizada e setorializada — explicou Vale.