A modalidade do pix parcelado, um produto na agenda evolutiva do pix, ainda não foi lançado pelo Banco Central e não há previsão de lançamento. Nada impede, no entanto, que os bancos, desde já, ofertem crédito e a possibilidade de pagamento em parcelas com o pix aos seus clientes, explica a autarquia. Apoiados nessa autorização, bancos e fintechs buscam acelerar a adesão dos clientes disponibilizando o produto por meio de empresas de diferentes perfis: desde microempreendedores até e-commerces de grandes marcas.
A Koin, fintech especializada em soluções para o comércio digital, recentemente anunciou parcerias estratégicas com Boca Rosa Beauty, Amobeleza, Marisa, Yescoo, Livelo, TNG e Livo para a oferta do chamado BNPL (“Buy now, and pay later”, em português: compre agora e pague depois), cujo um exemplo prático desse modelo é o pix parcelado.
“O cliente tem acesso à ferramenta de meio de pagamento alternativo. Ao escolher o pix parcelado, ele passa por uma análise de crédito feita internamente. Se demonstrar capacidade de pagamento, o cliente faz um pix no valor da primeira parcela, mas nós adiantamos o valor integral da compra para o lojista e assumimos o risco da operação de cobrar o cliente. A confirmação da compra é instantânea porque usa a estrutura do pix”, resume Matheus Russo, gerente geral de vendas da Koin.
Em fevereiro, o AliExpress inicou uma parceria estratégica com a Pagaleve, fintech brasileira, para ter o método de pagamento. Com isso, o consumidor pode escolher pagar com o pix parcelado em quatro vezes quinzenais sem juros, ou em até 12 vezes mensais com juros.
Briza Bueno, diretora LatAm do AliExpress, diz que a inclusão da modalidade reforça o compromisso da empresa com a digitalização do comércio nacional. “A intenção é sempre trazer mais comodidade e inovação para os consumidores e isso nos permite oferecer aos nossos clientes no Brasil uma melhor experiência possível para suas compras”, afirma.
É importante explicar que o pix parcelado não é o mesmo que o pix normal, só que dividido em várias transferências.
São transações via pix que, em alguns casos, se apresentam mais como uma linha de crédito, e em outros, como um serviço de pagamento. A oferta de parcelamento acontece fora do tradicional cartão de crédito e quem assume o risco de inadimplência é a instituição financeira. Por isso mesmo, pode ter cobrança de juros, o que não acontece no pix avulso.
De modo geral, o cliente pode pagar parcelado pelo valor contratado, escolhendo em quantas vezes e em qual data quer quitar a conta. As parcelas são descontadas do saldo da conta bancária, com débito automático. Mas não há uma regra única, já que não sendo ainda uma modalidade oferecida oficialmente pelo Banco Central, os bancos (tradicionais e digitais) e as fintechs adotam critérios próprios. Na Koin, por exemplo, algumas operações não têm juros. Em outras, um parcelamento de 12 vezes pode ter encargos de 2,99% ao mês. Tudo depende do perfil de risco do cliente.
Também não são todos os comerciantes que estão habilitados a aceitá-lo e também não há obrigação em oferecer a alternativa.
Gastão Mattos, fundador e CEO da consultoria Gmattos, diz que os segmentos mais frequentes com e oferta dos parcelamentos tipo BNPL são moda em geral, eletrodomésticos, lojas de departamento, perfumarias (incluindo farmácias com este tipo de oferta).
“As lojas online identificam motivos concretos para adoção dos parcelamentos alternativos como o BNPL, pois em comparação ao parcelado cartão, o custo total pode ser menor, principalmente porque não existe risco de fraude e, em muitos casos, esta forma permite aprovar transações que seriam negadas por falta de crédito. Em janeiro, 49,2% de todas lojas monitoradas ofereciam algum tipo de BNPL, incluindo o pix parcelado, como opção de pagamento. Considerando que no início de 2022 apenas 15% das lojas ofereciam a modalidade, o crescimento é bastante expressivo”, comenta.
A Koin diz que a aceitação de sua solução é de 1% do mercado de e-commerce, mas a expectativa é chegar a 7% até 2027. “É um crescimento muito grande para um espaço de tempo tão curto”, sustenta Russo.
Fora do e-commerce o pix parcelado também avança. A InfinitePay, plataforma de serviços financeiros da CloudWalk, atende de pequenos empresários a nanoempreendedores, categoria de trabalhadores criada na Reforma Tributária que inclui pessoas físicas com receita bruta anual inferior a R$ 40,5 mil, metade do limite dos microempreendedores individuais. Para esse público, o pix parcelado funciona como recursos para capital de giro. E para quem é cliente nesses negócios, a modalidade permite comprar sem comprometer o saldo do cartão de crédito.
“Uma loja de roupas que tem crédito conosco usa o pix parcelado para pagar seus fornecedores à vista e conseguir barganhar, já que os juros conosco são menores do que o desconto que ele vai obter. Ao mesmo tempo, esse lojista sabe quem são os seus melhores clientes e passa a vender de forma parcelada para quem não tem cartão de crédito. Isso nos permite ajudar três milhões de negócios a vender mais e, também, conversar com 50 milhões de consumidores que compram nestes pequenos negócios”, pontua Fabrício Costa, diretor de serviços Financeiros da CloudWalk.
Mais da metade das transações realizadas desde outubro na direção dos consumidores dos clientes da InfinitePay está concentrada em três segmentos: beleza (cabeleireiros), moda (vestuário e acessórios) e serviços profissionais (mecânico, marceneiro, pintor, eletricista, etc).
“O pix parcelado tem ‘cara’ de crediário tradicional baseado na confiança. Mas isso é resultado de modelos de crédito desenvolvidos por inteligência artificial com informações próprias, dados que o cliente compartilha via open finance e dados não tradicionais, como redes sociais. São mais de 1.300 informações diferentes para chegar ao score (nota) de crédito”.
No Itaú, a modalidade está disponível desde o primeiro semestre de 2024 no app Itaú Empresas e para 100% dos clientes no bankline. Entre os setores que mais utilizam o produto no banco, estão os de Comércio Varejista de Produtos e Restaurantes. É possível realizar pagamentos à vista para o fornecedor, mas parcelar em até 48 vezes, sem a necessidade de comprometer o limite do cartão de crédito. O valor mínimo da transação é de R$ 700 e as condições de parcelamento e as taxas variam de acordo com o perfil do cliente. O banco diz que 40% dos clientes PJ que parcelam seus pagamentos com o Pague Parcelado com Pix já usaram o produto mais de uma vez.
Conforme um levantamento da Matera, empresa de tecnologia e produtos para serviços financeiros, mais de 30% dos brasileiros já contrataram pix parcelado nos últimos dois meses. A opção empata com cartão de crédito rotativo e fica à frente do crédito consignado, antecipação do FGTS e crédito informal, segundo as respostas de mais de 750 tomadores de crédito de todas as regiões e 15 executivos de grandes empresas.
Dados do Indicador Serasa Experian de Inadimplência, de dezembro mostram que 73,5 milhões de consumidores estavam inadimplentes e os setores de Varejo e Serviços respondiam por 10,1% e 11%, respectivamente, na inadimplência total do consumidor. Ambos onde o pix parcelado cresce.
O diretor da CloudWalk reconhece que é preciso cautela no uso, pois, como qualquer forma de crédito, representa um compromisso financeiro e pode gerar endividamento e inadimplência. No entanto, afirma que cada vez que uma empresa ou pessoa solicita o crédito, uma nova análise é feita para evitar a situação. “Além disso, como o lojista usa nossas maquininhas e aplicativos para receber os pagamentos, também conhecemos os hábitos dos consumidores. Isso nos permite ter escala e dar o crédito para quem, de fato, tem condição de pagar”, comenta Costa.
Russo, da Koin, também reforça que conhecer o lojista impacta na decisão da oferta para os demais consumidores. “Quanto mais lojas estiverem conectadas ao serviço e maior for a capilaridade desses negócios, mais você conhece os clientes finais. Também temos um aplicativo próprio para conhecer esse público e avisá-lo quando está na hora de pagar. Hoje sabemos que o nosso pix parcelado é usado tanto em compras programadas, como viagens, como em compras por impulso por quem não quer comprometer o limite do cartão, a qualquer momento do mês”.
Ele avalia que o cenário macroeconômico como o atual, em que tomar crédito está mais caro por conta do patamar da Selic, a taxa básica de juros, tem menos impacto para a empresa. “Aprendemos a dar crédito ao longo de dez anos. Hoje conseguimos maximizar a operação com menor inadimplência [sem relevar o percentual]”.
O crescimento do BNPL em lojas físicas é uma das tendências em 2025, na avaliação de Sandra Vieira, executiva de Produtos e Serviços Financeiros. A expansão de BNPL para novos segmentos de bens duráveis, como móveis de luxo e eletrodomésticos de alta tecnologia é uma das oportunidades que o mercado ainda pode explorar.
Por outro lado, apesar de atender a público diversificado, a especialista cita desafios para as empresas ofertantes da modalidade.
“As tendências para 2025 incluem o aumento da personalização das ofertas, o que torna a concorrência mais acirrada. Além disso, há a necessidade de regulamentação do mercado de BNPL e de uma gestão eficiente do risco de inadimplência. É fundamental que se usem soluções tecnológicas, políticas de crédito, risco e recuperação bem estruturadas”, sinaliza.