Veículo: Estadão
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Data: 10/03/2025

Editoria: Shopping Pátio Higienópolis
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No sufoco: juros altos e endividamento crescente comprometem capacidade de pagamento das empresas

Depois de dois anos com o nariz fora da água, as empresas brasileiras voltaram a mais um longo ciclo de alto endividamento e dificuldade para pagar credores, segundo levantamentos de empresas especializadas em reestruturação de dívidas e corporativas. Na verdade, em apenas três anos da última década, as companhias conseguiram ter maior fôlego na hora de pagar as contas.

Com o cenário de juros altos e PIB menos pujante como é esperado para os próximos dois anos, a situação tende a persistir − e até mesmo se agravar − quando se põem na conta as incertezas provocadas pelas guerras tarifárias de Trump, dizem os especialistas. Em outras palavras, significa que o número de recuperação judicial e reestruturação financeira pode aumentar ainda mais neste ano.

É um cenário espalhado por toda economia e que afeta empresas de diferentes portes, sobretudo as menores. De acordo com levantamento da assessoria financeira Sêneca Evercore, 120 empresas de capital aberto com poucas negociações em Bolsa (as chamadas small caps) precisariam de quase três vezes sua geração de caixa anual para pagar as dívidas, nos últimos dois anos. Em 2021 e 2022, esse indicador estava mais próximo de duas vezes.

Por outro lado, seu índice de cobertura (que mede a capacidade de pagar apenas os custos financeiros) foi de 2,6, em 2021, para 1,3, em 2023, e 1,4, no ano passado. Quanto maior o indicador, mais capacidade de a empresa pagar suas despesas financeiras. “Isso é apenas o gasto com custo de dívida”, afirma Daniel Wainstein, sócio da Sêneca Evercore. “Se pensar que elas ainda têm impostos, investimentos e despesas recorrentes, fica evidente que a capacidade de pagamento está comprometida.”

Num estudo da empresa de reestruturação RK Partners com 307 companhias de capital aberto, 25% não têm hoje como pagar suas despesas financeiras. Além disso, quase metade (47%) estava em situação financeira delicada, com dívida líquida entre três e seis vezes superior à geração de caixa.

“Para o nível atual de taxa de juros, qualquer empresa que tenha dívida superior a 2,5 vezes a geração de caixa já está muito endividada”, afirma Ricardo Knoepfelmacher, o Ricardo K, sócio da RK Partners. “As empresas atravessaram a última década em dificuldade, com alguns períodos curtos de menor dificuldade.”

Cenário está espalhado por toda economia e afeta empresas de diferentes portes, sobretudo as menores
Cenário está espalhado por toda economia e afeta empresas de diferentes portes, sobretudo as menores Foto: Fábio Motta/Estadão

Com exceção do fim da pandemia e do governo Temer, em que os juros caminharam para baixo e o PIB mostrava força, o porcentual de empresas com alta alavancagem girou, em média, em 44% de 2014 para cá. Os picos aconteceram no auge da crise do governo Dilma, quando 35% das empresas não tinham capacidade de pagar dívidas financeiras e 54% estavam altamente alavancadas.

“Os juros baixos de 2020 e 2021 fizeram com que muitas empresas se endividassem para fazer aquisições, num período em que o preço dos ativos estava caro”, diz Ricardo Lacerda, sócio do banco de investimentos BR Partners. “Quando os juros subiram de maneira rápida, muitas empresas foram pegas de surpresa.”

Nesse cenário, mais uma vez os bancos enxugaram o crédito. O levantamento da RK Partners a partir de dados do Banco Central mostra que os juros cobrados das empresas pelas instituições financeiras subiram, em média, 31,4% entre janeiro de 2024 e janeiro de 2025.

O campeão na alta foi o Santander. Para empréstimos de capital de giro com vencimento superior a um ano, a taxa de juros foi de 35,5% para 50,9%, entre janeiro de 2024 e o mesmo mês deste ano. Alta de 43,3%. O Itaú não fica muito atrás, em termos porcentuais, com uma subida de 43%. A taxa cobrada, porém, é menor, indo de 21,3% para 30,9% no período. Os bancos públicos Caixa e Banco do Brasil foram os que menos majoraram os juros, com altas de 26,6% e 12,8%, respectivamente.

Como resultado, o número de reestruturações e renegociações de dívidas têm subido. Bem como o de recuperações judiciais e extrajudiciais. A análise da RK Partners com base em dados da Serasa Experian mostra que os pedidos de recuperação judicial entre pequenas empresas subiram 70% nos últimos dois anos. Entre as médias companhias, aquelas que faturam até R$ 300 milhões por ano, a alta foi de 35%. As grandes, que têm acesso a capital mais barato, também sofreram: os pedidos de proteção contra credores subiram 8% entre o quarto trimestre de 2022 e o mesmo período do ano passado.

“Essa situação leva um tempo para se consolidar, após o aumento das taxas de juros”, diz Ricardo K. “Os balanços do quarto trimestre devem mostrar uma situação ainda mais difícil.”