
O primeiro pregão do mercado brasileiro após o feriado de carnaval não foi tão negativo quanto se prometia, após dias turbulentos nos mercados globais. O acirramento da guerra comercial de Donald Trump, com início das tarifas contra México, Canadá e China, e retaliações dos três países a produtos americanos, causou uma onda de aversão a risco pelo mundo entre a segunda (3) e a terça-feira (4). Nesta quarta (5), no entanto, o dia foi de maior alívio.
Em relatório publicado pela manhã, a Ágora Investimentos destacou que, “apesar de uma visível melhora de humor entre os investidores internacionais”, a tendência era de que os ativos domésticos fossem penalizados pelos ajustes relacionados aos dias em que não houve negociações por aqui. Mas não foi o que aconteceu.
O dólar à vista derreteu 2,71% ante o real, de volta aos R$ 5,75. O Ibovespa teve um dia levemente positivo, mas fechou o pregão com alta de 0,20%, aos 123.046,85 pontos.
O respiro acontece na esteira de uma sinalização do secretário de comércio dos EUA, Howard Lutnick, de que o presidente Trump poderia anunciar ainda hoje “algum alívio” nas tarifas para o Canadá e o México em meio a preocupações com os riscos de impacto da guerra tarifária na inflação e crescimento dos EUA. Ao longo da sessão, foi noticiado que o afrouxamento das medidas será limitado, voltado inicialmente a montadoras somente. Mas isso não impediu que as Bolsas globais se recuperassem, depois de um início de semana conturbado.
O Dow Jones e o S&P 500 subiram 1,14% e 1,12%, respectivamente. O Nasdaq teve alta de 1,46%.
Além da perspectiva mais positiva em relação às tarifas, os índices de ações aceleraram o ritmo na parte da tarde, depois que o Livro Bege – um relatório sobre as atuais condições econômicas em cada um dos 12 distritos do do Federal Reserve, o banco central americano – mostrou gastos do consumidor mais baixos no país. Isso acende uma esperança de “menos juros” nos EUA, em meio à perspectiva inflacionária das medidas de Trump.
Volatilidade global nos últimos dias
Enquanto o mercado brasileiro estava fechado, os mercados globais viviam dias de tensão. Entre a segunda (3) e a terça-feira (4), o índice VIX, conhecido como “termômetro do medo”, disparou mais de 10%, atingindo 25,12 pontos. É o maior nível desde dezembro.
As ações das empresas em Nova York também despencaram. O S&P 500 caiu 1,8% na segunda e 1,22% na terça, atingindo o menor patamar do ano. O índice Nasdaq e o Dow Jones também registraram perdas. O risco de guerra comercial pesou ainda na cotação do dólar e de outras moedas globais; veja aqui o movimento.
Os dias negativos aconteceram na esteira das primeiras medidas efetivas de Donald Trump. Depois de uma “trégua” de 30 dias, começaram a valer as tarifas impostas ao México, Canadá e a China. A importação de produtos mexicanos e canadenses será taxada nos prometidos 25% pelos EUA a partir de agora, enquanto, no caso da China, a alíquota doi elevada para 20% – o dobro do anunciado em fevereiro.
Como resposta, os três países anunciaram que vão retaliar as medidas de Trump. O governo da China anunciou que estava impondo suas próprias tarifas sobre alimentos importados dos EUA, bloqueando vendas para 15 empresas americanas. O Canadá disse que vai replicar a tarifa de 25% sobre produtos americanos, uma cobrança que atingirá um total de 155 bilhões de dólares canadenses (cerca de US$ 107 bilhões) em mercadorias. Já a presidente do México, Claudia Sheinbaum, afirmou que vai anunciar uma resposta ao tarifaço de Trump no domingo (9).
As movimentações reacenderam os temores de uma guerra comercial e os potenciais efeitos na atividade econômica global. “Essa medida do Trump da tarifa recíproca tende a desencadear uma série de retaliações comerciais, o que traz em certa medida uma incerteza global para a economia”, destaca Volnei Eyng, CEO da gestora Multiplike. “Ele se colocou à disposição para negociar as taxas, mas sabemos que o que ele quer é proteger a economia americana e um maior comercio interno no país.”
Isso tudo acontece em um contexto em que o Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, já tenta frear o ritmo da atividade americana. Como a perspectiva tarifária é inflacionária, as grandes economias globais podem enfrentar um ciclo de juros americanos mais altos por mais tempo. É o que explica João Kepler, CEO da Equity Fund Group. “A elevação dos custos de insumos básicos tende a pressionar os preços, forçando o banco central a adotar uma postura mais cautelosa e a realizar novos aumentos de juros. O aumento das taxas de juros nos EUA atrai investidores para os títulos públicos americanos, valorizando o dólar frente a outras moedas e criando um cenário de instabilidade para economias emergentes, como a brasileira.”
Vai impactar o Brasil?
O entendimento até aqui é de que o Brasil não está no foco direto das medidas de Trump. Entre as medidas já anunciadas, o risco maior reside nas tarifas sobre a importação de aço; apesar de prometidas, elas não foram formalmente anunciadas.
Mas, para especialistas, o País pode sofrer indiretamente. “Com a economia global desacelerando, espera-se uma menor demanda por commodities, impactando a demanda por produtos brasileiros como soja, minério de ferro e carne. Logo, um impacto no setor de empresas exportadoras também deve ser refletido em seus balanços e preço no mercado acionário brasileiro”, diz Jonatas Pires Faura, especialista em Asset Allocation na WIT Invest.
Uma outra análise é, na verdade, positiva para o Brasil. Há certa expectativa de que alguns setores brasileiros podem encontrar espaço para ampliar sua participação nos espaços criados pelo tarifaço de Trump. Como mostramos aqui, para Alexandre Motonaga, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), se as tarifas ficarem somente sobre México e Canadá e não recaírem sobre o Brasil, o agronegócio brasileiro pode encontrar uma oportunidade de vender seu produto mais barato e encontrar um novo mercado.