Veículo: Valor Econômico - Investe
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Data: 22/08/2024

Editoria: Shopping Pátio Higienópolis
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O aumento dos juros contratado pelo mercado

O mercado financeiro espera que o Banco Central (BC) aumente a taxa de juros a partir do dia 19 de setembro. Se de fato isso acontecer, marcará o menor período de estabilidade da taxa básica de juros nos últimos anos. Terão se passado apenas duas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) para uma reviravolta na tendência da taxa Selic.

No dia 19 de junho deste ano, o Copom decidiu manter a Selic estável para o período entre 20 de junho e 31 de julho. Depois, na reunião seguinte, a decisão foi novamente manter a Selic estável para o período de 1 de agosto até 18 de setembro. Se as previsões atuais do mercado financeiro se confirmarem, serão apenas 91 dias de estabilidade dos juros.

Outro período na história em que houve mudança tão rápida na tendência dos juros foi entre 30 de outubro de 2008 e 21 de janeiro de 2009.
Naquela época, a decisão inicial do Copom foi manter os juros estáveis em 13,75%. Depois de duas reuniões, em janeiro de 2019, o Copom decidiu reduzir a Selic em um ponto percentual.

É claro que as condições da época eram diferentes e o BC sempre reforça que os membros do Copom analisam os cenários prospectivos para a economia. Mas a rápida mudança de expectativas tem chamado a atenção.

Consenso de mercado
Existe um contrato derivativo negociado na B3 chamado opção de Copom em que é possível tentar lucrar com as previsões de mudanças da taxa Selic. O contrato paga R$ 100 caso seja efetuado o ajuste previsto para a Selic pelo Copom. Para os demais contratos, a remuneração é zero.

No dia 5 de agosto, o contrato que estipulava que o Copom manteria a Selic estável na reunião do dia 18 de setembro tinha preço de R$ 72,50. O investidor desembolsava esse valor para receber R$ 100, caso a decisão fosse confirmada.

O contrato que previa o aumento de 0,25 ponto percentual na Selic era cotado a R$ 12,50. E o que previa aumento de 0,50 ponto percentual tinha preço de R$ 16.

Na linguagem das bets, as casas de aposta, a “odd” para que o Copom mantivesse a Selic estável era baixa, dada a diferença entre os R$ 100 de prêmio e o desembolso de R$ 72,50 para comprar o contrato. Já a “odd” de um ajuste de 0,25 ponto percentual era maior, porque um gasto menor daria o mesmo retorno de R$ 100.

Portanto, usando os contratos de opção de Copom como parâmetro, no início do mês o mercado esperava, por uma larga margem, que a decisão do BC fosse manter a taxa Selic inalterada.

Mas o cenário mudou radicalmente.
No dia 19 de agosto, a cotação do contrato que prevê a manutenção da Selic caiu para R$ 29,20. O contrato que estima alta de 0,25 ponto percentual subiu para R$ 39,50 e o que prevê alta de 0,50 ponto percentual aumentou para R$ 30,10. O ganho maior, agora, é para quem aposta na estabilidade dos juros.

Os contratos futuros de DI, outro derivativo negociado na B3 e que pode ser usado para estimar a variação acumulada da Selic em determinados períodos, também preveem alta da taxa básica de juros. Um cenário compatível com as cotações atuais dos contratos é de alta na Selic de 0,25 ponto percentual nas próximas duas reuniões do Copom e mais 0,5 ponto percentual nas duas reuniões seguintes. Os juros começariam o ano de 2025 em 12% ao ano.

As declarações dos diretores do BC após a divulgação da ata da última reunião do Copom parecem ter coordenado as expectativas do mercado financeiro para a alta dos juros.
Resta saber se as altas serão suficientes para reduzir as projeções para a inflação. E se a revisão dessas projeções terá, de fato, impacto real no ritmo de aumento dos preços.