Veículo: Valor Econômico - Investe
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Data: 21/08/2024

Editoria: Shopping Pátio Higienópolis
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Ações de varejistas reagem em agosto. Mas será que o rali se sustenta?

É assim, com margens promissoras, que elas se tornam atrativas para quem investe em bolsa. Em momentos de aperto monetário, quando o Banco Central precisa subir a taxa básica (Selic) para conter o avanço do índice de preços, essas companhias passam por mais solavancos que outros setores.

Para muitos analistas, não é uma surpresa que as ações de varejistas estejam na lanterna do Ibovespa no acumulado deste ano, algo que se repete desde 2022, ano a ano. Além das taxas altas, que reduzem a quantidade de compradores e encarecem as operações de crédito, a concorrência estrangeira também contribuiu com uma parte do estrago.Mas em agosto, o jogo virou, pelo menos mês até o momento. Papéis como Pão de Açúcar, Magazine Luiza e Lojas Renner agora estão entre as 20 ações com maior valorização no acumulado do mês.

“O movimento positivo das ações de varejo depende de uma série de variáveis, mas num contexto de início de cortes por parte do Banco Central americano, menos ruído político e fiscal no Brasil e uma continuidade desse cenário mais positivo de andamento da economia local, elas poderiam continuar tendo bom desempenho”, afirma Priscila de Araújo, gestora da O3 Capital.

Mesmo depois do início do ciclo de cortes da Selic, em agosto de 2023, esses papéis continuaram em ritmo de queda. Só agora, com mudança nos ânimos no exterior, veio o ímpeto de avanço. O analista da Suno Research, João Daronco, explica que, neste momento, o desempenho da bolsa no Brasil está mais correlacionado às taxas nos Estados Unidos que às locais.

Diferentemente do início do ano, quando as previsões de redução do aperto monetário eram mais especulativas, desta vez, tanto dados quanto sinalizações claras de diretores do Banco Central americano (Federal Reserve, ou Fed) indicam que um corte virá no mês que vem.

A recuperação das varejistas brasileiras, de fato, coincide com a expectativa de corte de juros nos EUA em setembro, já na próxima reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês). Mas também conta com indicadores nacionais a seu favor.

De acordo com Daronco, a melhora no ambiente fiscal do Brasil também foi ponto positivo para despertar o apetite a risco e atrair de volta os investidores estrangeiros. A expectativa do especialista é que, após o corte nas taxas americanas, a bolsa brasileira deverá ver uma melhora na chegada de investidores estrangeiros. Depois de tirarem R$ 43,3 bilhões da bolsa este ano, esse público voltou a fazer mais aportes que saques. Julho foi o primeiro mês de saldo positivo no fluxo estrangeiro, indicando uma retomada de investimentos. Agosto se encaminha para superar o mês anterior, com acumulado de R$ 6,5 bilhões somente na primeira quinzena.

O retorno de dinheiro gringo pode ter um impacto ainda maior nas ações de varejistas que em papéis como Petrobras ou Vale. “Tradicionalmente, eles investem nos papéis mais líquidos, em seguida diversificam nas Small Caps (empresas menores). Por terem menos liquidez, qualquer volume de recursos pode vir a mexer muito na cotação”, afirma o especialista.

Bruna Sene, analista de renda variável da Rico, vê um cenário benigno para as varejistas de agora em diante, com oportunidades nos próximos meses, mas defende que o investidor deve ter cautela porque o cenário está muito volátil.

“Nossa bolsa está se recuperando de uma forma mais forte porque estava muito para trás no primeiro semestre, por conta de todos aqueles ruídos fiscais. Por isso, está descontada historicamente e na comparação com outros mercados emergentes”, diz.
Resultados animadores
Sene destaca ainda que o setor apresentou bons balanços no segundo trimestre de 2024. “Tivemos surpresas positivas para esse segmento. Talvez nossa régua estivesse baixa, mas os resultados vieram melhores que o esperado”, afirma. De acordo com um levantamento da Rico:

59% das varejistas apresentaram receitas acima do esperado;
59% delas mostraram Ebtida (lucro antes de juros, impostos e amortizações) além das expectativas;
82% delas tiveram lucro liquido maior que as previsões.
Na visão de Daronco, da Suno, empresas que têm divulgado resultados fortes mesmo no cenário difícil do último ano são o destaque da temporada. “São papéis que têm se valorizado bastante por mérito do operacional mais forte. Do contrário, quem não deu conta, esses estão sendo penalizados”, explica.

“Renner se mostrou mais bem posicionada. E Track&Field é um varejo um pouco mais seletivo, não engloba tudo, é mais nichado. Essas ações tiveram desempenhos interessantes operacional”, avalia. Para ele, Casas Bahia, Magalu e comércio farmacêutico também trouxeram bons números.

Indicadores locais
O varejo acumula alta na atividade neste ano. Mas em junho a queda nas vendas do varejo vieram além do esperado. Embora pareça contraditório, o dado acabou tendo um efeito positivo nos papéis.

Partindo de um contexto em que o tom do Banco Central brasileiro e alguns de seus porta-vozes se torna cada vez mais duro, um consumo mais moderado em junho acabou sendo benéfico para essas ações. O entendimento é que a pressão sobre a inflação entra em declínio e permita um respiro na política monetária em vez de mais aumentos da Selic.

“Se virmos mais dados de varejo negativos daqui para frente, pode ser que acenda um sinal de alerta, porque isso pode indicar que a atividade econômica está esfriando por parte do varejo. Mas se tivermos uma inflação mais comportada, teremos varejo indo bem, porque tendemos a ter uma curva de juros controlada”, avalia Pedro Moreira, sócio e assessor da One Investimentos.

Outro dado que conta para melhorar a performance das varejistas é o mercado de trabalho ainda aquecido no Brasil. Em junho, a criação de vagas acima do previsto, mas sem que o aumento de renda se tornasse uma preocupação entre os agentes de mercado.

Embora a queda dos juros no Brasil esteja estacionada e até ameaça se tornar uma nova alta, o nível de endividamento das famílias recuou no período de afrouxamento monetário. André Galhardo, consultor econômico da Remessa Online, plataforma de transferências internacionais, concorda que o cenário é muito bom, mas pondera que o setor de varejo é exposto a riscos permanentes.

“Uma parte dos problemas microeconômicos tem a ver com os juros. Recuperações e resultados ruins tinham como pano de fundo taxas elevadas. Agora temos uma taxa de inflação no limite da meta e uma possível alta da Selic ainda este ano. Isso tira um pouco do combustível que o comércio teria. De um lado temos uma conjuntura interessante macroeconômica, de outro temos uma taxa que suavizaria essa tendência de alta dos papéis”, diz.

Sobre a nova taxa “das blusinhas”, que impõe alíquota de 20% sobre compras internacionais, os especialistas afirmam que os impactos são limitados e ainda difíceis de prever. A medida beneficia as empresas nacionais, mas há outros fatores, entre eles o câmbio, que podem interferir com a dinâmica concorrencial do varejo brasileiro.