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Data: 09/10/2023

Editoria: Sem categoria
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Jovens endinheirados impulsionam compartilhamento de bens de luxo

Embora o brasileiro ainda resista a compartilhar bens de luxo, o segmento tem sido sustentado no país, sobretudo pelas novas gerações de consumidores endinheirados, que preferem pagar pelo uso de um bem a comprá-lo. O principal mercado é o de jatos executivos, que hoje engloba três empresas e conta com outras 11 em busca de certificação. Mas há apostas também em compartilhamento de casas, carros e até uma ilha, que foi ofertada em quatro cotas de R$ 19,7 milhões cada.

Inspirada na operação da americana NetJets, a Avantto opera com o compartilhamento de jatos desde 2011 e hoje é a maior empresa em número de aeronaves no Brasil — 22 no modelo compartilhado e 45 no total. Segundo o CEO Rogério Andrade, o negócio ganhou forte impulso com as novas gerações.

A Avantto tem reportado crescimento de dois dígitos nos últimos anos e espera fechar 2023 com faturamento de R$ 150 milhões. Para ter uma cota de um Phenom 300 (que pode levar até oito passageiros) com 120 horas de voo por ano é preciso investir US$ 1,7 milhão. Mensalmente, é necessário arcar com custos fixos da ordem de R$ 52 mil por cota e o desembolso de R$ 12 mil por hora voada no jato.

“A cabeça das pessoas mudou. O comprador típico do compartilhamento há 20 anos não é o mesmo de hoje”, disse Andrade. O executivo destacou ainda que a suspensão do funcionamento de muitas linhas aéreas comerciais durante a pandemia contribuiu para expandir o segmento.
O segmento de compartilhamento de aeronaves ganhou um respaldo maior da Anac em 2021 com o estabelecimento de normas no regulamento que trata do transporte aéreo privado. O texto retirou algumas inseguranças jurídicas, como a responsabilidade por eventuais acidentes — que fica sobre a administradora do avião.

Pela nova regulamentação, cada avião pode ser dividido no máximo em 16 cotas e os helicópteros, em 32. O objetivo é evitar que a cota fique tão barata a ponto de representar concorrência a outros modelos de negócios. Há outras formas de se compartilhar uma aeronave e esses arranjos continuam valendo.

Atualmente, são três empresas autorizadas a realizar a administração de um programa de propriedade compartilhada: Avantto, Amaro Aviation e Prime You. Segundo a Anac, há outras 11 empresas com processos em andamento, o que reforça o potencial do segmento, que em pouco tempo fez diversos grupos se movimentarem.

A Anac destacou que o processo acaba sendo mais longo diante da necessidade de aprovação de manuais e treinamento das tripulações. O prazo varia ainda de acordo com quantidade de aeronaves — a Avantto demorou 550 dias para ser aprovada (com seis modelos de aeronave no total), enquanto a PrimeYou levou 117 dias (com dois modelos).

Executivos dizem que o mercado tem muito a crescer. Isso porque o Brasil tem hoje 9,8 mil aeronaves no segmento de aviação geral, segundo maior mercado do mundo atrás dos Estados Unidos conforme números da Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag). Mas a líder global de compartilhamento, a NetJets, tem sozinha mais de 800 aeronaves.

O cenário tem começado a virar e empresas passaram a apostar no compartilhamento até de outros bens. A Prime You anunciou a venda compartilhada de uma ilha com 5.632 m² a 35 minutos de barco de Salvador. No total, são quatro cotas por um preço de R$ 19,7 milhões cada. O investimento total no projeto foi de R$ 78,8 milhões.

“Em vez de investir 100% de um ativo para usar 50% das semanas do ano, você passa a ter o mesmo ativo, com a mesma utilização, mas com uma fração do preço”, afirmou Marcus Matta, CEO da Prime You, que opera no setor há 15 anos. A empresa tem como acionistas o próprio Marcus e dois sócios do Banco Master, Daniel Vorcaro e Maurício Quadrado, cada um com cerca de 30% do capital, além de Nelson Tanure, que adquiriu 10% do negócio em 2021.

A Prime You aposta em um modelo mais exclusivo. Com isso, são apenas três cotas para aviões e nos helicópteros são cinco. Há ainda compartilhamento de iates, imóveis e grupos de carros da Porsche e BMW (todos com quatro cotas). Ao todo são 32 ativos compartilhados, de diversos tipos.
Apesar da diversificação, o braço de aeronaves representa hoje 54% do faturamento da Prime You. Em 2022, a empresa registrou um crescimento de 44% no faturamento (não divulgado), com um investimento de R$ 184 milhões em novos ativos e infraestrutura. Para este ano, a estimativa é ampliar o faturamento em 50% ante o ano passado e investir perto de R$ 300 milhões.

A Amaro Aviation é outra empresa a explorar o segmento. Criada em 2001, tem como CEO Marcos Amaro, que é filho do fundador da TAM Rolim Adolfo Amaro. A empresa tem hoje uma frota de três aeronaves para compartilhamento — além de outras duas em fase de certificação.
“Hoje, cerca de 50% dos jatos executivos dos Estados Unidos estão dentro de modelos de compartilhamento. Aqui não é nem 5%. Existe um ‘gap’ muito grande a ser preenchido”, disse.

A questão cultural, entretanto, ainda é um fator a ser vencido. “A ideia de ter um bem só para si é algo muito forte na cultura de países latinos. As novas gerações têm vencido isso, com o Uber, por exemplo, no transporte”, disse. A empresa utiliza sua operação de táxi-aéreo como forma de reduzir ainda mais os custos do compartilhamento diante de uma eventual ociosidade das aeronaves.