Com os investidores à espera dos dados do mercado de trabalho dos Estados Unidos, que saem hoje, os ativos locais encerraram o pregão de ontem em tom ligeiramente negativo. Apesar do breve alívio observado nos rendimentos dos Treasuries, o novo dia de queda nos preços das commodities acabou pressionando o Ibovespa e diminuindo a demanda dos investidores globais por moedas de países emergentes.
O Ibovespa fechou o dia em queda de 0,28%, aos 113.284 pontos, enquanto o dólar comercial avançou 0,32%, negociado a R$ 5,1687. Isso fez com que o real permanecesse entre as cinco piores moedas do dia na lista das mais líquidas acompanhadas pelo Valor.
A cautela dos agentes globais segue concentrada no mercado de juros dos Estados Unidos, de onde os investidores esperam mais definições para seguir com o ajuste de posições. Nesse contexto, a divulgação do relatório do mercado de trabalho (“payroll”) de setembro pode dar pistas sobre a necessidade de o Federal Reserve (Fed) elevar novamente as taxas de juros neste ano.
“Estamos com posicionamento abaixo da média em bolsa local e vendidos em S&P 500, muito por conta da fragilidade atual do cenário. As altas dos juros nominal e futuro nos EUA têm impactos sistêmicos, de confiança, e aumentam a volatilidade”, diz Lucca Silva, analista de renda variável da Persevera Asset.
“O mercado não está mais absorvendo os Treasuries longos como sempre fez, e isso finalmente começou a afetar as bolsas. Antevemos um pouco mais de estresse pela frente antes de uma possível estabilização”, afirma.
Já a economista Cristiane Quartaroli, do Banco Ourinvest, observa que houve um ingresso forte de capital no país ao longo deste ano, e agora, com o foco nos Estados Unidos, parte desse montante deve acabar deixando o Brasil. “Tivemos um fluxo forte e agora o efeito é inverso, com o capital indo em busca da economia americana, que está mais fortalecida”, afirma.
Quartaroli aponta que alguma cautela por conta da divulgação do payroll pode ter pesado também nos mercados mais vulneráveis ontem e que, em relação ao ambiente doméstico, “o Brasil está sem uma história boa para contar neste momento”.
“A sensação é que não há nada ocorrendo por aqui. Algumas semanas atrás ainda falávamos da nossa economia indo muito bem, da inflação sendo revisada para baixo. Embora ainda tenhamos esse quadro positivo, existe agora uma luz amarela acendendo por conta do fiscal”, complementa. “Se isso não é um fator que penaliza o câmbio por ora, também não é um fator que beneficia.”
Nem mesmo o breve alívio observado nos rendimentos dos Treasuries foi suficiente para um dia mais positivo para os juros. Diante do movimento acentuado de elevação nas taxas nas últimas semanas, operadores relatam que o mercado local ainda parece tentar absorver prejuízos, já que boa parte dos investidores vinha carregando posições aplicadas (que apostam na queda das taxas) justamente no momento de estresse no mercado.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2025 subiu de 10,97% para 10,985%, enquanto a do DI para janeiro de 2027 avançou de 11,085% para 11,12%.